O precoce mito de Bordeaux

Aos 23 anos Pierre Lurton assumiu seu primeiro Clos e se preparou para ser um ícone


Luna GarciaEm sua última viagem ao Brasil, encontrei Pierre Lurton para uma conversa no hotel Fasano em São Paulo. Este verdadeiro enólogoastro se auto-define um dinossauro. Ele tem seis filhos, todos com a mesma esposa, com quem está casado há 25 anos. Membro de uma tradicional linhagem de vitivinicultores, sua família possue 1.500 hectares em Bordeaux em 25 diferentes Chateaux. Gênio precoce, foi encarregado da direção geral de um Clos em Saint-Émilion aos 23 anos. Daí em diante uma sucessão rápida crescente de novas responsabilidades e sucesso.

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Quando o senhor chegou ao Château Cheval Blanc?
Foi em 1991. Um ano muito difícil em que não produzimos Cheval Blanc, apenas Le Petit Cheval.

Deve ter sido difícil chegar em uma nova companhia e dizer: "nós não vamos produzir nosso principal vinho este ano". Como isso aconteceu?
Lembro-me bem como foi. Na verdade, 1991 não foi bom, em 1992 choveu muito na colheita e 1993 não houve muita concentração. Em 1994 tive minha primeira grande safra, a de 1995 foi espetacular. Para mim, uma grande experiência pois, ao chegar em Cheval Blanc, eu tinha apenas 33 anos, um Château tradicionalíssimo iniciado em 1832.

Trabalhou com a família fundadora?
Estive cerca de sete anos com a família fundadora, até que os senhores Arnault e Albert Frère compraram o Château em 1998. Então assumi a posição de presidente do Château Cheval Blanc com toda a responsabilidade que isto implica.

E o que mudou com os novos donos?
Foi uma interessante mudança sob os senhores Arnault e Frère, porque eles aliaram finanças à tradição. Eu mudei a estratégia de Cheval Blanc, mudei a estratégia de mercado. Estabeleci negociants e abri o mercado com mudança nos preços. Na forma como vejo, somos um Premier Grand Cru de Médoc, assim como Margot, Latour, Lafite. Mas existe apenas Cheval Blanc na Margem Direita, assim como só há um Petrus. Cheval Blanc é muito raro, regular e eu não produzo muitas garrafas.

E quando você ficou responsável tanto pelo Château Cheval Blanc quanto pelo Château d'Yquem?
Isso aconteceu no ano de 2004. Lembrome que tivemos uma reunião de conselho e, após a reunião, Sr. Arnault quis falar comigo e disse: "Há muitas pessoas no mundo do vinho, mas para mim você é o homem para o Yquem". E eu respondi: "Sr. Arnault, eu creio que é uma grande responsabilidade para mim, pois agora eu dividirei meu tempo entre Château Cheval Blanc e Château d'Yquem". Em meus maiores sonhos, nunca havia imaginado presidir um Premier Grand Cru e dirigia ao mesmo tempo Yquem e Cheval Blanc com apenas 46 anos.

Eu me lembro que ao assumir Yquem você abaixou os preços de Château d'Yquem nos Estados Unidos...
Isto mesmo. Você se lembrou de minha primeira ação no Yquem. Eu sabia que estava trabalhando com um mito e, muitas vezes, um mito é difícil de compreender e alcançar. Assim decidi abrir o mercado, só um pouco. Lembro que 1999 foi uma safra muito boa, mesmo não sendo um ano padrão para Bordeaux em geral. Um ano sem muita especulação e eu coloquei 150.000 garrafas a preço bastante baixo no mercado. As pessoas em todo mundo ficaram felizes, pois podiam comprar e experimentar Yquem. Para mim, é muito importante que as pessoas tenham a oportunidade de beber Yquem para entender porque ele é o que é, e sua complexidade. Com a oportunidade de efetivamente abrir as garrafas, a atitude das pessoas mudou e o mercado de Yquem começou.

Após isto subiu o preço novamente?
Sim. Pois safra 2001 foi muito especial.

Então a safra espetacular o possibilitou trazer o preço ao patamar usual?
Eu me lembro que organizei pela primeira vez uma degustação conjunta com o senhor Parker e a senhora Jancins. Ela disse que era um vinho maravilhoso e Parker disse que 2001 era o melhor. Foi um vinho de 200 pontos. Também destaco 2007 como uma boa safra em Bordeaux para os vinhos tintos, mas para os brancos e sauterns, e para Yquem, foi espetacular. Você lembra? O mesmo que aconteceu em 1967.

E a razão disto?
Em 2007, tivemos uma floração muito cedo, em abril, com as altas temperaturas e depois uma floração muito heterogênia, pois não tivemos tempo muito bom. Entretanto, heterogeneidade na floração do sauterne traz uma colheita longa. Isto dá muita complexidade ao Yquem. Foram 40 dias de colheita. Iniciei em 15 de setembro, continuei colhendo em outubro e finalizei em seis de novembro. Tivemos um vinho com grande equilíbrio entre açúcar e acidez. Parker degustou 2007 e achou ainda melhor que 2001, e eu disse a ele: "O problema é que o senhor deu 100 pontos à 2001, que nota pode dar agora?" (risos)

Isto me faz questionar o que você pensa do frenesi no mercado em relação a safra 2005? Onde isto vai parar?
Penso que 2005 em geral foi de fato uma grande safra. Mas muitas pessoas, e os jornalistas em particular, ficaram muito excitadas com a safra. É uma safra especulativa. Muita gente ficou exaltada com 2003, achando que era igual a 1947 mas, apesar de ser uma boa safra, não foi espetacular. Acho que 2005 foi uma safra espetacular, porém, não é muito clássica. Para mim, 2006 é mais clássica para os padrões de Bordeaux. Em 2007, por causa do mau tempo, muita gente não acreditava nos vinhos, mas os jornalistas vieram e tiveram muito boas surpresas.

Isto voltará ao patamar normal?
Sim. Mas você deve levar em consideração que existem apenas nove Premier Grand Crus no mundo, tornando-os muito raros. E o mundo está muito aberto, com pessoas dispostas a pagar um preço alto na Russia, India, Japão, China e até Brasil. Ontem, um senhor brasileiro proporcionou a mim e seus amigos uma degustação muito interessante com sete diferentes safras de Château Cheval Blanc entre as safras 2000 e 1982.

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Luna Garcia

O senhor veio ao Brasil para apresentar Cheval des Andes, a joint-venture de Terrazas de los Andes e Châteu Cheval Blanc em Mendoza, que eu tive a agradável oportunidade de visitar algumas vezes. Sempre penso que foi uma atitude ousada e corajosa batizar o vinho com a palavra Cheval. Não?
Isto não foi uma escolha minha. Mas hoje, para mim, foi o melhor nome. Cheval des Andes foi idéa do senhor Arnault. Me lembro que cheguei com diferentes nomes para a reunião do conselho e o senhor Arnault, após ver os diversos nomes, perguntou: "Por que não batizá-lo Cheval des Andes?" E eu apenas disse: "Sim, é uma idéia muito boa." Além disso, não há concorrência entre os dois vinhos, até porque os sistemas de distribuição são diferentes, com Cheval Blanc utilizando o sistema de negociants.

O que Cheval des Andes lhe proporcionou?
Antes de mais nada foi a oportunidade de, com Nicolás e Roberto (enólogos responsáveis por Cheval des Andes e Terrazas de los Andes), buscar produzir o melhor vinho da Argentina. Assim como buscamos fazer o melhor vinho de Bourdeaux. Ainda foi uma oportunidade de trabalhar com Malbec.

O que você acha do Malbec argentino?
Acredito que após a filoxera, a qualidade do Malbec em Bordeaux se perdeu. Para mim, o Malbec argentino é o melhor do mundo. Também vejo o Malbec em Cahors como um bom Malbec, mas são ambos muito diferentes. Quando chegamos na Argentina, tivemos a oportunidade de ter uma boa safra de Malbec e Cabernet Sauvignon.

E agora o Malbec está ganhando espaço no blend de Cheval des Andes, não?
Sim, o primeiro blend de Cheval des Andes teve uma proporção maior de Cabernet Sauvignon e agora temos quase 60% de Malbec e 40% de Cabernet Sauvignon.

Desde a safra 2004, o blend recebe também Petit Verdot, não?
É verdade, para mim, um pouco de Petit Verdot aporta frescor ao vinho. E é muito importante que um vinho tenha frescor, aromas frecos e não super maduros. Isto possibilita um vinho com capacidade de envelhecimento e um vinho com capacidade de envelhecimento caracteriza um grande vinho.

Pierre Lurton Por Christian Burgos

Publicado em 28 de Maio de 2008 às 14:12


Entrevista

Artigo publicado nesta revista