Para cortar e abrir

Laguiole é reconhecida pelas facas e, no mundo dos vinhos, pelos abridores de garrafa


fotos: Divulgação

Um sommelier que se preze terá pins em sua roupa representando seu conhecimento, contudo, alguns dos grandes sommeliers terão no bolso um dos objetos que ele mais preza, um abridor de garrafas. Mas não um abridor qualquer, um abridor tão ou mais venerado que algumas das principais distinções que ele já recebeu na vida, um Laguiole. Quem conhece e sabe o que representa, já dirá mentalmente “Laiole”, que é como se pronuncia o nome da famosa marca de cutelaria francesa, talvez a mais renomada do mundo.

A vila de Laguiole (em português quer dizer “pequena igreja”) fica no distrito de Aveyron – no interior da França –, ao lado dos distritos de Cantal e Lozère. A junção destas três localidades recebe o nome de Cruzada dos Três Bispos. Foi neste antigo lugarejo sagrado, incrustado na vasta planície de l’Aubrac, que surgiu uma das marcas mais exclusivas do mundo.

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A trajetória de sucesso pontuada sempre por estilo e tradição deste ícone de glamour e luxo remonta aos primeiros anos do século XIX. Em 1829, com Pierre-Jean Calmels, nasce o primeiro canivete Laguiole – inspirado em uma clássica faca Navaja, espanhola – esculpido artesanalmente. De 1829 até o final do século, a Laguiole produziria apenas facas e canivetes. Os primeiros abridores aparecem em 1880. A adição do novo produto, acompanhada pela manutenção do padrão de qualidade leva, a Laguiole a viver tempos áureos. Ao contrário dos outros produtores, que optam pela massificação, a Laguiole preserva-se de qualquer modernização, mantendo ao longo dos anos intacta a tradição de elaborar seus “utensílios“ apenas e tão somente a partir do toque e da sensibilidade de cada artesão. A recusa em mudar suas características se torna sua maior marca. A cada ano, seus artigos ganham mais “alma”.

E é essa alma que a tantos fascina. No mundo do vinho, em especial, a Laguiole conta com incomum prestígio. Alguns sommeliers chegam a recusar o uso de utensílios de outra marca. Sabendo disso, a Laguiole dedicou o melhor de sua produção a atendê-los. A série de abridores Château Laguiole Sommelier, lançada recentemente, nasceu para contemplá-los. Segundo palavras da própria companhia, tais artigos foram desenhados “em honra dos melhores Sommeliers do mundo”.

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Abelha ou mosca?

Mais do que qualidade, bom gosto e exclusividade, guardar consigo um Laguiole é ter diante de si um passaporte para o passado. Cada peça da companhia francesa carrega em suas delicadas linhas o peso de séculos de vida e muitas estórias.
Segundo consta na mitologia em torno da Laguiole, seria uma abelha que simboliza a marca e isso se trataria de uma referência ao selo imperial Napoleão I oferecido à vila de Laguiole em sinal de reconhecimento pela bravura em combate dos homens da região. Porém, isso não é confirmado. Mas, na tradição dos produtores de facas, é comum ornamentar os objetos com a imagem saliente de uma mosca. Contudo, para Pierre Calmels, filho de Pierre-Jean, o símbolo nunca poderia ser uma mosca, pois um produto tão prestigiado deveria ter a marca de um inseto nobre, ou seja, uma abelha.

História e estilo se fundem no design desta marca francesa. A abelha napoleônica não é a única imagem visível nas facas. Uma face humana, um trevo de quatro folhas, uma concha Saint-Jacques – em referência ao caminho de Santo Jacques, que atravessa L’Aubrac –, uma abelha lisa, sem desenhos, são, também, exclusividades destes franceses.

Especialmente nas facas, os detalhes devem ser percebidos atentamente. Um instrumento que aos olhos do observador menos atento pode parecer belo e sofisticado em sua elaboração apenas ganha graça, charme e valor quando se entende o que é cada detalhe. Na faca de Laguiole, a lâmina é o símbolo da água; o cabo, da terra; e a mitra de latão, do fogo. As entalhaduras sobre as costas da lâmina representam os dias da semana.

Uma moeda em troca

Neste ambiente de histórias fartas, entram em cena, também, as superstições. Segundo um lendário costume europeu, não se deve oferecer qualquer objeto cortante a uma pessoa querida, sob “pena” de se romperem os laços de amizade e amor entre quem recebe e quem oferece. Para desfazer este “feitiço”, manda a tradição que a pessoa que recebe uma faca Laguiole como presente dê em troca uma moeda a quem lhe presenteou.

Todas as saliências, desenhos e marcas se entrelaçam em um quebra-cabeça de história, tradição e estilo de vida. Os artigos de cutelaria e as facas Laguiole não são nem nunca foram produzidos como meros utensílios práticos. Eles não pertencem à vida cotidiana. Esses instrumentos foram e são até hoje concebidos como uma celebração aos costumes daquele lugarejo em l’Aubrac, a um estilo de viver em que a qualidade e a excelência estão acima dos impulsos do mercado. Um estilo que às vezes parece morto, mas que renasce em cada uma das preciosidades produzidas pela Laguiole, uma marca chamada “igreja”, que tem em seus consumidores não clientes, mas, “fiéis”.

Felipe De Queiroz

Publicado em 5 de Novembro de 2009 às 12:59


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Artigo publicado nesta revista