Uma viagem por 250 anos

ADEGA provou cerca de 200 vinhos da mais antiga região vinícola demarcada do mundo. Acompanhe nossas impressões


Vinhedo tradicional no Douro. A região produz 100 milhões de litros por ano

Douro, uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo, está comemorando os 250 anos de sua demarcação. A fundação em 10 de setembro de 1756, pelo Marquês de Pombal, da "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro", além de demarcar geograficamente, regulamentou com rígidas leis que vigoram até hoje a produção de vinhos no Douro. Em recente visita a esta belíssima região no norte de Portugal, a convite do ICEP e do IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto), ADEGA acompanhou de perto o atual estágio de seus vinhos. Visitamos dez empresas e provamos cerca de 200 vinhos, entre produtos acabados, amostras de barril, de inox e de lagar, de safras desde 1963 até 2006. Relatamos aqui os destaques desta viagem por 250 anos de história.

Os vestígios mais antigos da cultura vinícola no Douro são vasilhames e lagares do século III. Apenas no século XVII, no entanto, a procura pelos vinhos da região cresceu. As guerras envolvendo a França e a Inglaterra fizeram com que a procura pelo vinhos ibéricos aumentasse em detrimento dos de Bordeaux. Em 1703, o tratado de Methuen, de comércio entre o Império Britânico e a Coroa Portuguesa, formalizou a preferência pelos vinhos portugueses e os preços dos vinhos do Douro dispararam. Com isso, as fraudes começaram e a qualidade decaiu, dando lugar à superprodução até que, em meados do século XVIII, uma grave crise explodiu. Como reação a estas adversidades a região criou sua regulamentação em 1756. Hoje são 250.000 hectares divididos em três sub-regiões (Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior), com 15% dessa área cultivada por 33.000 viticultores que produzem cerca de 100 milhões de litros de vinho ao ano.

As primeiras visitas ocorreram em Vila Nova de Gaia (às margens do rio Douro, na área metropolitana da cidade do Porto), onde muitas empresas historicamente mantém suas sedes. Fundada em 1926, com presença no Douro, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Beiras e Porto, a Caves Messias produz cerca de 1,7 litros de vinho ao ano, 65% exportados para cinco continentes. Testei alguns de seus tintos, populares por aqui, como os Douro Messias tinto Grande Escolha 2005 (2 Estrelas), Quinta do Cachão Touriga Nacional 2005 (3 Estrelas) e Quinta do Cachão Grande Escolha 2004 (3 Estrelas), todos bem elaborados e com boa relação custo-benefício. Os grandes vinhos da Messias são, no entanto, seus Portos, cuja prova foi um desfile de estrelas: Porto Colheita 1995 (4 Estrelas), Porto Colheita 1982 (4 Estrelas), Porto Tawny 30 anos (4 Estrelas), Porto Tawny 40 anos (4 Estrelas), Porto Colheita 1967 (5 Estrelas), Porto Colheita 1963 (5 Estrelas), Porto Vintage 2003 (3,5 Estrelas). Os destaques ficaram por conta dos "Colheita" (equivalentes a Tawnys velhos, mas de uma safra apenas), uma categoria de Porto esquecida no Brasil, mas que merece todo o respeito. O Colheita 1963 tinha cor âmbar brilhante, aromas de baunilha, tostados, mel, frutas cristalizadas, leves toques químicos, com complexidade e equilíbrio de boca invulgares. O Vintage 2003 segue um estilo moderno, para ser bebido mais jovem, feito em inox (sem lagares) e com 100% de desengaço, com muitas ervas e chocolate e na boca surpreendentemente pronto para um Vintage jovem.

A visita seguinte foi à cave de uma das maiores empresas do ramo do Vinho do Porto, o grupo que agrega marcas como Taylor's, Fonseca e Romariz. De tudo que se consome de vinho do Porto no mundo, 88% é do que chamamos de Porto corrente, os mais simples, das categorias Ruby e Tawny. Os 12% restantes ficam com os Vintages, Colheitas, Tawnys velhos (10, 20, 30 e 40 anos) etc.

Desta categoria de cima, 36% do total mundial é desta empresa, que produz 40 milhões de litros de Porto ao ano, todos amadurecidos em madeira. A visita foi mais turística do que profissional e a prova técnica foi substituída por um jogo de degustação às cegas de nove Portos da marca Romariz, de diferentes categorias, que devo admitir, acertei apenas cinco.

Completando as visitas em Vila Nova de Gaia, conheci a Poças, empresa familiar fundada em 1918. Em seus primórdios a Poças produzia apenas aguardente vínica para empresas de vinho do Porto, como a Casa Ferreira. Em 1934, com o monopólio estatal imposto pelo governo Salazar para a distribuição de aguardentes, a empresa converteu-se em produtora de vinho do Porto. Hoje, a Poças elabora ao ano 3,5 milhões de litros vinhos do Porto e de vinhos de mesa do Douro.

Os vinhos provados foram: Moscatel do Douro (1 Estrelas), Reserva tinto 2003 (3 Estrelas), Porto Poças Vintage 1996 (4,5 Estrelas 93/100), Porto Poças Colheita 1967 (4,5 Estrelas). O Colheita 1967 era de cor alaranjada muito clara e brilhante, com reflexos âmbar, aromas potentes e complexos, chamou a atenção pela persistência gustativa, o líquido gruda na boca, deixando um rastro de mel e amêndoas torradas e confirmando que o Colheita é uma categoria subestimada.

Para conhecer o vinho do Porto e sua história é obrigatório conhecer as caves em Gaia, mas também fundamental ver as origens das uvas, na região do Douro propriamente dita, subindo o rio em direção à Espanha. Seguindo este caminho nossa primeira parada foi a Quinta de Nápoles, onde são elaborados os vinhos da Niepoort, um nome de peso. Sob o comando de Dirk Niepoort a empresa é uma das responsáveis pelo reconhecimento internacional da qualidade dos vinhos de mesa da região. O enólogo Luis Seabra, que assumiu o comando técnico da casa em 2004, sucedendo Jorge Serôdio Borges, nos mostrou muitas novidades ainda fermentando, como o magnífico Batuta 2006. De barril, provamos dentre vários outros o Charme 2005, que mesmo inacabado é um veludo, de taninos finíssimos. Dos vinhos engarrafados, os destaques foram o Tiara 2005 (3 Estrelas), Redoma branco Reserva 2005 (4 Estrelas), Vertente 2004 (3,5 Estrelas), Batuta 2004 (5 Estrelas), Charme 2004 (4 Estrelas), Porto Vintage 2005 (4,5 Estrelas), Porto Tawny 10 anos (3 Estrelas). O Batuta, feito de um antigo vinhedo chamado Carril, segue um estilo onde a grande concentração pouco se nota e prevalece a elegância.

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Prova de vinhos do Porto

O Vertente é seu irmão mais novo, uma mistura de vinhas mais novas com outras mais velhas. O Redoma tinto seria um Douro mais típico, com taninos mais nervosos, e o Charme é pura elegância, um Borgonha do Douro. Basta uma olhada cuidadosa na Quinta de Nápoles para entender o porquê das avaliações tão altas para todos os vinhos. A simplicidade do local e das pessoas convive com equipamentos e técnicas de última geração e o extremo cuidado em cada detalhe do processo: da seleção de uvas a cubas cônicas de inox com pisa mecanizada e climatização da sala de barris.

Uma visita ao Douro não seria completa sem uma parada na Quinta do Noval, nome que habita os sonhos de todo amante dos vinhos do Porto. Esta mítica quinta pertenceu à família Van Zeller até 1993 quando foi vendida ao grupo AXA Millésimes. A novidade são os vinhos de mesa, que estão chegando ao mercado agora, o Cedro do Noval 2004 (3 Estrelas), Quinta do Noval Douro DOC 2004 (4 Estrelas), este elaborado com corte dominado pela Touriga Nacional (além de Tinto Cão e Touriga Franca), com toques florais, paladar estruturado e elegante. Os vinhos do Porto provados foram Porto LBV Unfiltered 2000 (4 Estrelas, melhor LBV que já provei), Porto Tawny 10 anos (3,5 Estrelas), Porto Tawny 20 anos (4,5 Estrelas), Silval Vintage 2003 (4 Estrelas), Quinta do Noval Vintage 2003 (5 Estrelas), Quinta do Noval Vintage 2004 (5 Estrelas) e Quinta do Noval Nacional 2003 (5 Estrelas), próximo à perfeição, simplesmente espetacular, estrutura monumental, mas ao mesmo tempo muito elegante e equilibrado, com uma excelente acidez e doçura bem dosada. Este último vinho é uma lenda, o vinho mais caro de Portugal (uma safra recente ronda, na origem, os R$ 1 mil reais). A região do Douro foi seriamente atacada pela praga filoxera nos anos 1880 e o vinhedo "Nacional" (que dá nome ao vinho), teria sido ousadamente replantado em 1925 em "pé franco", sem o artifício da enxertia, largamente utilizado na região para driblar a

A simplicidade dos produtores convive com equipamentos e técnicas de última geração

praga. Estes 2,5 hectares de vinhas produzem cerca de três mil garrafas de Vintage ao ano. A origem precisa do Nacional mantém-se desconhecida devido ao incêndio de 1981, que destruiu a maior parte dos arquivos da Quinta do Noval em Vila Nova de Gaia. Resta-nos degustar e sonhar.

Marcelo Copello

Publicado em 14 de Dezembro de 2006 às 10:03


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Artigo publicado nesta revista