Revista ADEGA

Vinhos da realeza

Robert Louis François Marie, príncipe de Luxemburgo, representa a nobreza (em pessoa) de dois dos mais famosos Châteaux de Bordeaux: Haut-Brion e La Mission Haut-Brion

Arnaldo Grizzo E Carolina Almeida em 31 de Janeiro de 2011 às 15:21

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Durante pouco menos de um mês, o Brasil abrigou em seu território um ícone, não apenas da realeza de Luxemburgo, como também, e principalmente, do mundo do vinho. Robert Marie, ou Robert de Luxemburgo, primo direto do Grão Duque Henrique de Luxemburgo, além de carregar o peso do nome de sua família, é dono de um dos Châteaux mais conhecidos e importantes de Bordeaux, o Haut-Brion.
Sua história vem de longe. Há menções sobre as vinhas do local onde hoje está a vinícola datando de 1423. Desde aquela época até 1935, quando foi comprado por Clarence Dillon, o Château passou pelas mãos de outros sete produtores, oscilando períodos de alta e baixa. Clarence Dillon era um banqueiro norte-americano apaixonado por vinhos, pela região de Bordeaux e especialmente pelos vinhos Haut- -Brion. Quase meio século depois da primeira aquisição, mais precisamente em 1983, a família comprou o Château La Mission Haut-Brion e se consagrou definitivamente no ramo.
O príncipe Robert entrou no mundo dos vinhos como que por acaso. Quando ainda era jovem e tinha muitos planos em sua mente, decidiu perguntar ao avô Michel, filho de Clarence Dillon, se este havia feito planos para ele junto às propriedades da família. Ao ouvir a resposta positiva, decidiu começar a se inteirar no assunto. Em 2008, Robert assumiu a presidência da Domaine Clarence Dillon, empresa 100% familiar que controla os Châteaux Haut-Brion e La Mission Haut-Brion, sucedendo sua mãe, Joan, duquesa de Mouchy.
Ele esteve no Brasil para passar férias e aproveitou para conversar com a imprensa, buscando informações sobre o mercado nacional. Mas esta não foi a primeira vez do príncipe por aqui. Há 21 anos, no auge de sua juventude, Robert decidiu percorrer parte da América de carro. Foi do norte para o sul, finalizando a viagem no Brasil. Como a ponte que ligava o país de Hugo Chávez com Manaus estava interditada, precisou retornar da aventura sem carro. "Não foi a coisa mais inteligente de se fazer em 1989 devido a tantos lugares perigosos pelos quais dirigi. Fazemos esse tipo de coisas quando somos jovens e estúpidos. Felizmente, sobrevivi", rememorou o bem-humorado Robert.

"Pela fama que temos e o respeito que conquistamos, precisamos ser perfeitos"

Quais as origens da sua família?
São muitas. Posso encontrar qualquer nacionalidade que queira. Do lado da minha mãe tenho ascendência polonesa, francesa e suíça. O pai do meu bisavô imigrou para o Texas com a família, onde Clarence nasceu. Minha mãe, Joan, casou-se com o filho da Duquesa de Luxemburgo. Meu pai é o filho mais novo da Duquesa, o que me faz primo direto do Grão Duque Henrique. E por esse lado, uma coisa interessante é que também tenho parentesco com João de Bragança (Dom João VI), da família real portuguesa. Seu filho, Miguel, era avô de duas bisavós minhas.

A relação de sua família com o vinho começou através de seu bisavô Clarence Dillon, que era banqueiro. Certo?
Sim. Uma das coisas que ele era é banqueiro. Além disso, Clarence se interessava por muitas coisas, como arte, gastronomia, agricultura. Na crise de 1929, ele teve a sorte de vender muito do que tinha no mercado financeiro e antever a depressão. E depois disso passou a se envolver em negócios diferentes. Em 1935 foi para Bordeaux, quando começou sua ligação com o mundo do vinho, mas, nos arquivos da família encontrei informações de que ele já estava interessado em outras propriedades em outros lugares antes mesmo de a Lei Seca ser abolida no Estados Unidos. Ele tinha dinheiro disponível, o que a maioria das pessoas não tinha, e quando descobriu que seu Château preferido, o Haut-Brion, estava à venda, pediu a um colega que fizesse de tudo para comprá-lo. Mas antes ele tinha ido ver Margaux e Cheval Blanc também.

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Domaine Clarence Dillon é proprietária de dois dos principais châteaux de Bordeaux, Haut-Brion e La Mission Haut-Brion

"Tenho orgulho de dizer que somos referência.
Não precisamos seguir modas, já temos um nome
consolidado no mercado"

Na época, Clarence Dillon comprou o Château por 2,3 milhões de francos. Foi um bom negócio?
Clarence sabia o que estava fazendo. Naquela época, muitas propriedades de Bordeaux estavam à venda e meu bisavô poderia ter escolhido qualquer uma. Ele não estava pensando em ganhar dinheiro, queria um pedaço de uma cultura e história excepcionais. Era um caso de amor.

O que pensa sobre empresas familiares?
Com uma empresa familiar, podemos investir em longo prazo. Produzir um bom vinho não é algo que se faz da noite para o dia. Estamos sempre reinvestindo o dinheiro que ganhamos no próprio negócio. Todas as decisões que tomamos são muito criteriosas, pensando sempre no futuro. Fazemos reunião de família a cada dois anos para discutir os rumos que devemos tomar e o sucesso depende de uma boa comunicação entre os mais velhos e os mais jovens. Mas também é importante ter uma visão de crescimento, para criar novas oportunidades.

Ser proprietário de um Premier Cru deve ser uma grande responsabilidade. Como lidar com isso?
Nós nos tornamos uma grande marca de vinhos, mas a verdade é que o Château Haut-Brion sempre foi grande. Desde muito tempo nossa maior preocupação é produzir um vinho bom. Além disso, estamos sempre buscando inovações. O que digo para a minha equipe é: façam o melhor vinho possível. Pela fama que temos e o respeito que conquistamos, precisamos ser perfeitos, o que, muitas vezes, significa produzir 10% de vinhos de primeiro rótulo e 90% de segundo.

Produzir vinho em Bordeaux pode significar ficar preso a tradições. Isso não impede vocês de tentar inovar?
Os dois Châteaux que temos sempre tiveram a tradição de inovar. Inovação é parte da nossa tradição. Herdamos isso. Os Pontac (primeira família a controlar o Château Haut-Brion) já tinham isso. Nos séculos XVI e XVII foram eles que desenvolveram o estilo de vinho que bebemos hoje, o novo claret francês, com muitas inovações. Em termos de marketing, eles estabeleceram uma taberna 1666 na maior cidade do mundo, a mais internacional na época, foi pouco antes do Iluminismo, quando novos sabores foram trazidos para Londres, como café, chá e o claret. E tentamos nos adaptar a isso, com diversas novidades que servem para atingir a perfeição.

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Clarence Dillon, bisavô de Robert de Luxemburgo, comprou Haut-Brion em 1935

A qualidade dos vinhos em geral está cada vez mais alta. Isso pressiona os vinhos top a se reinventar?
Estamos buscando sempre novas maneiras de melhorar nossos produtos. Não queremos perder a alma dos nossos vinhos, e isso significa mudar. Os vinhos estão realmente melhorando de nível e isso é muito bom para o consumidor. Mas acho que os Bordeaux estão num patamar superior aos demais. Tenho orgulho de dizer que somos referência. Não precisamos seguir modas, já temos um nome consolidado no mercado. Mas o ganho na qualidade faz bem para todos, inclusive para nós, uma vez que mais pessoas são introduzidas nesse mundo. Então sim, há pressão, mas é uma boa pressão.

Vocês estão expandindo no negócio de vinhos, com novos projetos, assim como fizeram os Rothschild. Têm intenção de começar projetos em outros países também? Vincular o nome da família e de Haut-Brion a vinhos e terroirs fora da França?
Os Rothschild fizeram um trabalho ótimo. Obviamente eles têm um nome muito forte nesse ramo, são bem maiores que a gente, então temos estratégias diferentes. Me identifico muito com a região de Bordeaux, acredito na sua qualidade e acho complicado ser bem sucedido fora de lá. Penso que Bordeaux deve apostar nos vinhos Super Premium, porque vai chegar uma hora em que não poderemos competir com os preços do Novo Mundo.

"A verdade é que nosso vinho é complexo, e atualmente a maior parte dos vinhos são fáceis de serem entendidos"

Ultimamente as pessoas têm consumido os ditos vinhos de guarda mais cedo. Isso é um problema?
O mundo está produzindo vinhos que já estão prontos para serem apreciados jovens, que são mais fáceis de se desvendar. Mas acredito que, na maioria das vezes, as pessoas bebem esses vinhos porque não têm acesso aos antigos. Se houvesse, lado a lado, um vinho de 1999 e um de 2004, pelo mesmo preço, não tenho dúvidas de que escolheriam o de 99. Isso acontece mais pela disponibilidade destes vinhos do que pelo gosto propriamente dito. É um pouco decepcionante não poder ver como os vinhos evoluem, pois isso lhe dá um entendimento melhor do vinho.

Jean-Philippe Delmas uma vez afirmou que o Haut-Brion não era um vinho fácil de ser apreciado e que não o recomendaria a quem está começando a gostar de vinho. Haut-Brion é um vinho complexo?
Isso não é algo que nós dizemos, é uma coisa que as outras pessoas comentam. A verdade é que nosso vinho é complexo, e atualmente a maior parte dos vinhos são fáceis de serem entendidos. Por isso costumam dizer que ele é para ser apreciado por um conhecedor, que já sabe bem das propriedades da bebida e tudo mais. Não queremos seguir a linha dos vinhos fáceis.


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