Revista ADEGA

A insólita região de Bierzo

Jorge Peique, da Bodegas Peique, revela os segredos de uma região que não se rendeu à especulação vitivinícola pela qual a Espanha passou, acreditando na força de sua uva autóctone, a Mencía

Arnaldo Grizzo E Christian Burgos em 8 de Novembro de 2010 às 16:30

Clara Assarian

É difícil imaginar que na Espanha - onde a onda da vitivinicultura foi tão avassaladora nos últimos anos que criou enormes corporações e muita especulação sobre as terras vitivinícolas, resultando em diversas plantações antigas arrancadas para dar lugar a novas - ainda existam lugares onde as terras (minifúndios) estejam nas mãos de antigos camponeses que não as vendem a ninguém tamanho o apreço que possuem por elas.

Difícil também é imaginar que esses proprietários, muitas vezes já idosos e não sendo mais capazes de trabalhar em suas terras, "cedam" suas parcelas para que conterrâneos trabalhem nelas de graça, desde que respeitando as tradições do local. E diante disso, é difícil imaginar que ainda existam vinhas de mais de 90 anos, que além de sobreviver ao tempo, sobrevivem a toda essa especulação, que fez com que muitas vinhas velhas fossem arrancadas em prol de mudas jovens de variedades mais "conhecidas e rentáveis".

Mas isso tudo existe num só lugar: Bierzo, na província de León, na Galícia, no noroeste da Espanha. Lá cultiva-se uma casta pouco conhecida, a Mencía. Lá boa parte das plantas de Mencía datam do início do século XX. Lá vivem antigos camponeses que valorizam suas terras e vinhas e só deixam outros conterrâneos trabalharem com elas, solicitando somente algumas poucas caixas de vinho como "pagamento pelo aluguel".

Quem conta essas e outras características insólitas de Bierzo é o enólogo Jorge Peique, da Bodegas Peique, uma vinícola familiar, que começou em 1999 e hoje produz alguns dos vinhos mais interessantes da região, com vinhas de mais de 90 anos. Nesta entrevista, ele - que divide seu tempo entre a empresa da família e o emprego de gerente da Bodegas Conde de San Cristóbal, em Ribera del Duero - explica todas as singularidades desta curiosa região da Espanha.

#Q#

Como começa a história vitivinícola de Bierzo e a da sua vinícola?
Bierzo sempre esteve focada na venda a granel, tanto uva quando vinho para a Galícia. Os viticultores vendiam uva muito barata para Galícia e os galegos queriam vinhos suaves. Então, o que fazíamos? Produzíamos muito e fazíamos vinhos que não serviam para envelhecer em barrica, por exemplo. Muitos ficavam muito verdes, muito ácidos, porque havia muita quantidade. Bodegas Peique começou em 1999. Eu trabalhava na Bodegas Protos em 1994, mas a ideia surgiu alguns anos antes. Já era enólogo e trabalhava, e, como tínhamos vinhedos havia uma inquietude, principalmente de minha parte. Lembro que disse a meu pai e meus irmãos: "Estou disposto a sacrificar todos os finais de semana durante 10 anos no mínimo". Pois todos trabalhávamos fora da vinícola. Eu trabalho em Ribeira del Duero, como enólogo de San Cristóbal. Minha irmã era professora de história. Meu pai era transportador, mas já está aposentado. Nos fins de semana nos reuníamos, engarrafávamos, etiquetávamos. A mão-de-obra era nossa. Pouco a pouco foi crescendo e começamos a trazer pessoas.

"Acho que cada região tem que respeitar as uvas autóctones.
A Espanha tem algumas zonas com variedades que têm um potencial impressionante, mas falta alguém que veja
isso e faça chegar ao mercado
"

Vocês têm vinhas de 90 anos. Houve um processo na Espanha, em muitas regiões, em que as vinhas mais velhas foram substituídas pelas mais novas. Em Bierzo isso parece que não aconteceu. Por quê?
Em Bierzo não aconteceu. Graças a Deus. Em Ribera lamentavelmente arrancou-se a maioria dos vinhedos, porque houve muita especulação. Passou-se de 65 produtores em meados de 1990, a mais de 280 hoje. De 1 mil hectares de vinhedos, a 22 mil agora. Durante os anos de especulação, acho que se cometeram barbaridades. Em zonas que não tinham que plantar Tempranillo, arrancaram-se variedades autóctones e a colocaram. Isso aconteceu em Bierzo, disseram: "A Mencía não vale nada, vamos plantar Tempranillo". Para mim, é um absurdo. Acho que cada região tem que respeitar as uvas autóctones. A Espanha tem algumas zonas com variedades que têm um potencial impressionante, mas falta alguém que veja isso e faça chegar ao mercado. A Mencía tinha isso, mas estava elaborando erroneamente e se dizia que ela não servia para envelhecer. Então, Bierzo é uma zona de minifúndios. Não há parcelas grandes. Nos 25 hectares que temos, os maiores são 8 mil m2. Não chega a 1 hectare. É uma forma de trabalhar muito difícil. Como são minifúndios, é muito difícil juntar fincas grandes. Se quiser comprar, não lhe vendem. Se vendem, o preço é muito mais alto do que o valor real. Então, Bierzo fechou a porta para mega-projetos vinícolas. Há cooperativas,mas são 3 mil sócios, e o que tem mais, tem 80 mil quilos. Isso fechou as portas para grupos gigantes, para que comprem e arranquem vinhedos.

Onde vocês estão situados?
Em Valtuille de Abajo, um povoado pequeno, com 170 habitantes aproximadamente. Há seis vinícolas. Compramos todas as uvas no povoado e arredores. E isso é uma mudança lá, porque está se abandonando a viticultura na região, como em todos os lugares. As pessoas mais velhas são velhas demais para trabalhar e as jovens vão estudar e querem se dedicar a outras coisas. Então, há uma lacuna. Essa gente que já não pode trabalhar no vinhedo não lhe vende, mas lhe deixa trabalhar nele. Além disso, grátis. Pedem uma pequena compensação: "Me dá 10 caixas de vinho por ano". Mas você trabalha a uva, e ela é sua. Eles não querem vender a terra, pois têm um apego sentimental. Então, no total, entre hectares próprios e controlados, estamos com 40.

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"Bierzo fechou a porta para mega-projetos vinícolas. Há cooperativas, mas são 3 mil sócios, e o que tem mais, tem 80 mil quilos. Isso fechou as portas para grupos gigantes, para que comprem e arranquem vinhedos"

Qual é a média de idade das vinhas?
Agora estamos trabalhando em vinhedos, cujos mais jovens são de 40 anos. E os familiares, de 90 anos. Não se pode tocar em uma planta de 90 anos. Você não se foca na produção, mas no que ela lhe dará depois. Têm plantas que estão ocas por dentro, mas produzem quatro ou cinco cachos. Nunca arrancaria vinhedos. Se a planta morre, sim.

"Não se pode tocar em uma planta de 90 anos. Você não se foca na produção, mas no que ela lhe dará depois.
Têm plantas que estão ocas por dentro, mas
produzem quatro ou cinco cachos
"

O que uma vinha de 90 anos dá que uma jovem não dá?
Sempre se diz que uma vinha velha é muito melhor. Um vinhedo novo, bem gerenciado, pode lhe dar uma boa uva. Mas o vinhedo novo não se auto-regula. A vinha velha sim. Já está velha, já produz pouco por si mesma, tem pouco vigor, pouco porte, então os brotos são pequenos. De um vinhedo jovem, que poderia produzir 7 mil quilos, tem-se que fazer 2 mil. No vinhedo velho, isso se compensa automaticamente.

Quantos anos mais duram os vinhedos de 90 anos?
Até que morram... Não sei aonde vai chegar. É muito difícil prever.

Mencía não é uma variedade muito conhecida. Poderia falar sobre ela?
Sempre digo que a Mencía é muito fácil de identificar uma vez que se prova pela primeira vez. É como um Cabernet Sauvignon. Pode estar bem ou mal elaborado, mas é um Cabernet. São variedades que têm muita tipicidade, que é muito fácil de distinguir. Mencía, fora de Bierzo, há em Lugo, Ribera Sacra e Valdeorras. Curiosamente, são regiões fronteiriças. No resto do mundo não existe. A Mencía, para mim, é uma variedade muito elegante, muito aromática, e tem uma cor muito viva, com pH normalmente baixo. Uma variedade fácil de tomar, tem bons taninos, tem potência, mas muito redonda.

Ela se compara com alguma outra variedade?
A Mencía, em cor, se parece muito com os Bordeaux.Em boca, é tão sutil e tão persistente que parece com os vinhos da Borgonha. Em Borgonha são vinhos muito suaves, muito elaborados, não são mascáveis, não tem um corpo tão forte. São vinhos que, quando saem ao mercado, você os bebe para desfrutar. Sempre dissemos que há dois tipos de vinho: os de degustação e os para desfrutar. Com os de degustação você diz: "Que bom que está, mas não bebo duas taças". Vi muitos produtores fazerem vinhos tão pesados que duas ou três pessoas em uma mesa não são capazes de terminar uma garrafa. Com Mencía, em boa companhia, bebe-se meia garrafa sem se dar conta, pois são vinhos sutis. Você tem que fazer vinhos para desfrutar.

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"Hoje, o mais fácil é fazer vinho. Não é tão fácil fazer um vinho bom, mas é mais fácil do que vendê-lo" Vinha velha de Mencía

Você acha que a Espanha tem feito vinhos muito intensos?
Em algumas áreas houve uma corrida para ver quem fazia vinhos com mais cor, mais estrutura. Entre os profissionais, havia os que diziam: "Tenho 98 IPT, 25 pontos de cor, acidez assim etc". E eu pergunto: "O vinho está bom?" Não é uma competição de números. O consumidor põe na taça e diz: "Que cor mais linda". Não diz: "Tem 12 pontos de cor e tem tanto de acidez". Ele não pensa em números. Nos últimos 15 anos, a Espanha mudou e os enólogos pensam mais em que vinhos querem os consumidores. Deve-se fazer vinhos fáceis de beber. Mas não são vinhos fáceis. São vinhos complexos, porém fáceis de beber, porque lhe levam a beber outra taça. Não tem nada a ver com um vinho fácil.

Todo enólogo que trabalha para outro - como você, que trabalha em Ribera - tem o sonho de ter seu próprio projeto. Poucos conseguem. Você consegue, mas tem que viver duas vidas. Como é isso?
É difícil. A enologia, se você gosta desse mundo, lhe absorve. E não se cansa. É uma coisa que necessita paixão. Hoje, o mais fácil é fazer vinho. Não é tão fácil fazer um vinho bom, mas é mais fácil do que vendê-lo. Vivo há 16 anos em Ribera e 10 com a minha vinícola própria. Mas hoje é impensável e ainda não posso viver da minha vinícola. Para mim, estar em Ribera é estar no centro do furacão. É importante e me permite conhecer muita gente e mostrar meus vinhos. Viver em Ribera ajuda a minha vinícola familiar.

Um vinhedo novo, bem gerenciado, pode lhe dar uma boa uva. Mas o vinhedo novo não se autoregula. A vinha velha sim. Já está velha, já produz pouco por si mesma, tem pouco vigor, pouco porte, então os brotos são pequenos

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Clara Assarian
"Entre os profissionais, havia os que diziam: 'Tenho 98 IPT, 25 pontos de cor, acidez assim etc'. E eu pergunto: 'O vinho está bom?' Não é uma competição de números"

Quando se fala em Espanha, sempre se fala de Rioja e Ribera. Como as outras regiões podem reverter esse quadro?
Acho que é preciso uma mudança de atitude das pessoas. Sempre as regiões mais conhecidas têm preferência, porque todo mundo as conhece. As pessoas falam muito de vinho, mas poucas realmente entendem. Fala-se muita bobagem e as pessoas vão com a tendência. Acho que o trabalho das áreas pequenas é isso. Tem que sair. Para os pequenos, o esforço econômico para isso é bestial.
Mas é preciso apresentar seu produto no mundo. Tem que sair. Se você não sair, não existe. Então, tem que marcar seu espaço.

Os vinhos hoje estão muito padronizados na Espanha?
As pessoas querem beber vinho, não querem beber barrica. Hoje, querem identidade, fruta, flor e uma barrica que adorne. Ela é como a guarnição de um bom prato. Mas o importante é o prato. Em uma degustação cega na Espanha no ano passado, provamos Tempranillo de Ribera, Rioja, Toro, Mancha, e foi complicadíssimo saber qual era qual. É lamentável que esteja acontecendo isso, pois as zonas geográficas são distintas em clima, em solo. Então, qualidade todos têm. Deve-se buscar identidade.

"As pessoas querem beber vinho, não querem beber barrica. Hoje, querem identidade, fruta, flor e uma barrica que adorne. Ela é como a guarnição de um bom prato. Mas o importante é o prato"

Por que vocês demoram para colocar seus vinhos no mercado?
Porque acho que são vinhos que têm que sair feitos. A cultura francesa dizia: "Você compra o vinho, guarda em sua casa e bebe depois de cinco anos". O consumidor hoje quer comprar, abrir e beber. É uma pena, pois às vezes, seria ideal abrir a garrafa uma hora antes de comer, por exemplo. Mas estamos em um ritmo de vida muito ruim para sentar, comer placidamente e desfrutar de um vinho. Então, acho que os vinhos têm que sair ao mercado para beber, não para guardar. Para guardar também, pois ele terá uma evolução.


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