A mística do Château Mouton Rothschild

A revista ADEGA esteve no restaurante Carême, na degustação do lendário Château Mouton Rothschild que, durante pós-guerra, apresentou em seus rótulos nada menos que Salvador Dalí, Henry Moore, Jean Cocteau, Joan Miró, Chagall, Kandinsky, Picasso e Andy...




Até 1924, qualquer que fosse o seu destino, o vinho Mouton Rothschild deixava o Château em barris. Os comerciantes, que compravam a maior parte da safra, cuidavam de todo o resto: armazenamento, engarrafamento, rotulagem e venda. Sem controle direto sobre o resultado final, o produtor tinha pouco interesse na aparência do rótulo. O design era deixado inteiramente a cargo do comerciante. Em 1924, o Château Mouton Rothschild (CMR) instituiu uma prática revolucionária: a safra passou a ser inteiramente engarrafada no local. Foi o nascimento do famoso 'mise en bouteilles au château' (engarrafado no château), procedimento que logo foi adotado pelos outros grandes vinhos de Bordeaux.

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Uma das conseqüências desse procedimento foi que o produtor passou a ser diretamente responsável pela qualidade final do produto perante o consumidor. Os rótulos, então, ganharam nova função: se tornaram a certidão de nascimento de cada garrafa. Para chamar a atenção ao fato, o barão Philippe de Rothschild, figura lendária no mundo do vinho, chamou o designer cubista Jean Carlu para criar um rótulo original para a safra de 1924. Nos anos seguintes, o rótulo passou por inúmeras modificações até 1945, final da Segunda Guerra Mundial. Ao retornar dos campos de batalha, o barão Philippe concebeu a idéia de, a cada ano, entregar a concepção do rótulo a um artista contemporâneo, que o ilustraria com uma obra original.

Desde então, uma invejável lista se sucedeu na criação de rótulos para o CMR: Georges Braque, Salvador Dalí, Henry Moore, Juan Miró, Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Andy Warhol, entre outros. As garrafas do Premier Cru Classé se tornaram itens de colecionador, não apenas por seu conteúdo, mas por sua apresentação. Outra das muitas histórias interessantes, ligadas aos rótulos do CMR, se refere à safra de 1993.

O rótulo original, criado pelo artista Balthus, foi proibido nos EUA e o vinho foi vendido com uma tarja branca no lugar da pintura. Era um nu artístico, em que a retratada foi considerada jovem demais. A importadora Vitis Vinífera promoveu no restaurante Carême, de Flávia Quaresma (Botafogo, Rio de Janeiro), uma vertical desse mítico vinho. Foram degustadas as safras de 1991, 1992, 1993, 1994, 1998 e, uma novidade, a safra de 2002, recentemente lançada no mercado. ADEGA esteve lá e avaliou os vinhos degustados:


Fotos: Reprodução do livro "Mouton Rothschild - Paintingfor the labels, 1945-1981"

Marcelo CopelloChâteau Mouton Rothschild 2002
77% Cabernet Sauvignon, 12% Merlot, 10% Cabernet France 1% Petit Verdot. 13% de álcool

A cor é roxo profundo. Impressiona no nariz, com ótimo ataque, mostrando muita fruta ultramadura (amora), quase geléias, couro novo, baunilha, chocolate e leve toque de tostados. No palato é muito encorpado, com uma montanha de taninos, mas com um caráter diferente dos outros vinhos analisados, os taninos são mais doces e macios, e igualmente finos. O estilo muda bastante em relação aos vinhos anteriores. Seja por 2002 ter sido um ano de seca ou por uma intenção da direção do Château, o 2002 se aproxima um pouco do perfil dos vinhos do novo mundo. É mais frutado, amadeirado e mais macio. Até sua garrafa é diferente: maior e mais pesada. Independente do estilo, o resultado é excepcional. 96/100

1. Château Mouton Rothschild 1991
75% Cabernet Sauvignon, 18% Merlot e 8% Cabernet Franc. 12,5% de álcool

Granada claro com reflexos alaranjados. Impressiona no nariz, com ataque aromático e muita complexidade. Belo bouquet, totalmente etéreo, mostrando aromas evoluídos, como defumados, especiarias, couro, madeira, cacau amargo, tabaco. Paladar de médio corpo, muito seco, taninos ainda presentes, deixando a boca enxuta. Pouco persistente. Melhor no nariz que na boca. Beber já ou guardar até 1 ou 2 anos. 87/100

2. Château Mouton Rothschild 1994
80% Cabernet Sauvignon, 10% Merlot, 8% Cabernet Franc e 2% Petit Verdot. 12,5% de álcool

Granada entre claro e escuro, com reflexos alaranjados. Um toque de frescor eucalipto aparece em meio a muita fruta madura, como cassis, especiarias, chocolate, tostados, carvalho, cedro, madeira e tabaco. Menos complexo que o 1993, mas mais encorpado, com boa acidez, taninos muito finos e boa persistência. Está entrando em seu melhor momento, beber ou guardar por até mais 10 anos. 89/100

3. Château Mouton Rothschild 1993
80% Cabernet Sauvignon, 13% Merlot e 7% Cabernet Franc. 12,5% de álcool

Granada entre claro e escuro, com reflexos alaranjados. Bom ataque e complexidade, com muitas especiarias, frutas confeitadas, musgo, cacau amargo, tabaco, defumados, amêndoas torradas, cassis. De médio corpo, com taninos muito elegantes, ainda presentes, ótimo equilíbrio e boa persistência. Está em seu auge e nitidamente num patamar de qualidade acima dos anteriores (1991 e 1992). Beber ou guardar mais 5 anos. 90/100

4. Château Mouton Rothschild 1992
75% Cabernet Sauvignon, 13% Merlot, 10% Cabernet Franc e 2% Petit Verdor. 12,5% de álcool

Granada entre claro e escuro, com reflexos alaranjados. Médio ataque aromático, com caráter mais frutado e herbáceo que o 1991, com toques cassis, musgo, madeira, cacau, defumados e frutas cristalizadas. Mais pronto que o 1991, com médio corpo e meio de boca agradável, taninos macios e já domesticados. Pronto, beber já. 86/100

5. Château Mouton Rothschild 1998
86% Cabernet Sauvignon, 12% Merlot e 2% Cabernet Franc. 12,5% de álcool

Rubi escuro com reflexos violáceos. Ainda fechado, merece respirar em um decanter por ao menos um par de horas antes da degustação. Mostra no nariz muitas frutas maduras, como amoras, cassis e mirtilo, além de torrefação (café, chocolate), vegetais (tabaco), couro novo, defumados e madeiras (carvalho, cedro). É potente, com taninos de grande qualidade, ainda muito presentes, boa persistência e complexidade. Combina força e elegância, ainda precisa de tempo de garrafa. Vinho extraordinário. Guardar ao menos 5 anos antes de abrir, o que pode ser adiado por mais de 20 anos. 95/100

Marcelo Copello

Publicado em 13 de Fevereiro de 2006 às 15:28


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Artigo publicado nesta revista