Assinado por Carlos Castanheira, projeto reaproveita um antigo galpão e une design, sustentabilidade e produção de vinhos

por Arnaldo Grizzo
Situada no dão em Portugal, a Quinta da Taboadella, oferece uma experiência visual marcante logo na chegada. As suaves ondulações dos vinhedos permitem contemplar quase toda a propriedade de uma só vez, criando uma visão panorâmica que estabelece imediatamente a relação entre a arquitetura e o terroir. Em posição dominante, a Casa Grande observa o cenário à distância, enquanto um pequeno afluente do rio Dão serpenteia ao longo da propriedade, definindo seu limite sudoeste e conferindo um elemento natural adicional à composição paisagística rica em detalhes.
A história do local é profundamente enraizada na tradição vinícola portuguesa, com relatos históricos da presença de monges, frades e até mesmo romanos, todos atraídos pela qualidade excepcional das vinhas da região. Respeitando esse legado, o projeto arquitetônico de Carlos Castanheira (responsável também por vinícolas como Adega Mayor e Quinta do Portal, por exemplo) não optou por uma construção inteiramente nova, mas pela reconfiguração de um antigo galpão existente na extremidade sul da propriedade. Essa decisão sustentável transformou uma construção deteriorada em uma moderna adega de 2.500 m², exemplificando o que o próprio arquiteto descreve como um renascimento: “A Quinta da Taboadella, como uma fênix, renasce rejuvenescida, mas sobretudo, atualizada para que a qualidade da produção se combine com estética e bom gosto”.
Clique aqui e assista aos vídeos da Revista ADEGA no YouTube
A estrutura da adega fundamenta-se em duas grandes naves principais, meticulosamente projetadas para os processos de produção e envelhecimento do vinho. No lado norte, um cais de chegada foi estrategicamente posicionado para permitir que a intensa atividade da colheita seja conduzida de maneira metódica e precisa, estabelecendo desde o início um fluxo de trabalho otimizado. Um aspecto destacado do projeto é a implementação de um sistema produtivo que utiliza a gravidade como elemento facilitador.
O coração da adega é o imponente Salão de Cubas, que apresenta uma disposição cuidadosamente planejada: uma fileira de 15 cubas troncocônicas de aço inoxidável destinadas ao vinho tinto, 8 cubas similares para vinho branco, e uma terceira fileira de 10 cubas de microcimento. Para facilitar os processos, um mezanino elevado proporciona acesso à parte superior das cubas, permitindo o enchimento por gravidade. Castanheira demonstrou atenção especial às necessidades técnicas ao incorporar, neste mesmo mezanino, um laboratório e áreas específicas para experimentação enológica, integrando ciência e tradição no mesmo espaço.
A dimensão inicial do Salão de Cubas permite acomodar 400 barris, com planejamento para expansão futura até 800 barris. Considerando a crescente importância do enoturismo, Castanheira criou uma área específica acima da entrada principal dedicada à recepção de visitantes e à realização de degustações. Esta área funciona como um belvedere com vista privilegiada para a propriedade e a Casa Grande, onde uma varanda espaçosa oferece um ambiente contemplativo para apreciar os vinhos produzidos no local, envolvido pela vista panorâmica dos vinhedos que se estendem pelo horizonte.
LEIA TAMBÉM: Dão: tradição e grandes vinhos portugueses

Um dos aspectos mais notáveis do projeto é o tratamento cuidadoso da luz natural. A luz natural é administrada com precisão, sendo permitida apenas na medida necessária para que as áreas de sombra criem o ambiente e a temperatura ideais que a adega requer para a maturação adequada dos vinhos. Ou seja, este controle rigoroso da iluminação não é apenas uma questão estética.
A materialidade do edifício revela escolhas criteriosas que reforçam a identidade da adega. A estrutura apresenta um incomum brilho dourado que contrasta elegantemente com o revestimento externo de cortiça – uma escolha que não apenas reflete o uso de materiais locais e sustentáveis, típicos de Portugal, mas também proporciona isolamento térmico natural, além de se relacionar com os donos da propriedade, a família Amorim, principal nome da indústria de cortiça no mundo.
LEIA TAMBÉM: Vinhos brancos do Dão: elegância, frescor e os melhores rótulos
A integração da adega com seu entorno foi meticulosamente planejada. Os equipamentos técnicos e áreas de armazenamento foram estrategicamente posicionados na parte posterior do edifício, mantendo uma relação direta com suas funções específicas no processo produtivo, mas sem comprometer a estética do conjunto.
Cada aspecto da operação foi analisado para garantir a sustentabilidade ambiental, com soluções que não apenas atendem às necessidades presentes, mas demonstram uma preocupação genuína com a preservação futura do ambiente e da tradição vinícola local.
Como poeticamente descreve Castanheira em sua apresentação do projeto, concluída simbolicamente no Dia de São Martinho, padroeiro da vinha e do vinho: “Um lugar outrora reconhecido pelos antigos, e que voltará a ser reconhecido e apreciado por nós e por aqueles que ainda estão por vir.” Esta reverência ao passado, combinada com uma visão clara do futuro, define a essência arquitetônica deste projeto que se estabelece como referência na arquitetura contemporânea para espaços de produção vinícola em Portugal.