Revista ADEGA

Confrades uni-vos !!!

Aprenda o passo a passo das degustações e saiba como montar sua própria confraria

Ronald Sclavi em 16 de Maio de 2007 às 07:10

Na Idade Média elas reuniam religiosos em torno de práticas místicas e proteção social. Possuíam sempre um símbolo ou escudo, um santo como devoção comum e princípios compartilhados em grupo, acima de qualquer questão pessoal. Sempre tiveram um sentido agregador, por vezes desafiando normas estabelecidas por suas religiões de origem.

No Brasil imperial congregavam negros e brancos e, não raro, administravam fundos para compra de cartas de alforria. Na Europa, essas entidades fazem parte da história de um continente que procurava proteção contra suas próprias práticas predatórias e desumanas, resgatando valores e crenças derrubados com os muros dos feudos.

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Assim aconteceu com os pedreiros das grandes catedrais francesas que mantinham técnicas secretas de construção, preservavam e assistiam as famílias de seus pares. Com as próprias ferramentas como símbolos, fundaram a Maçonaria.

As confrarias são essas organizações que lutam pela identidade de um grupo, produzindo, preservando e difundindo conhecimento. O mundo do vinho se apropriou desse tipo de estrutura para fazer valer o que tem de melhor: sua capacidade de reunir e agregar. Do Velho para o Novo Mundo, elas funcionam como pára-raios de qualidade e tradição, contra a banalização e a futilidade que, por vezes, tentam tomar conta do mercado.

O fenômeno de formação e constituição de confrarias de apreciadores de vinho tomou corpo no início do século XX, na França, e espalhou-se pelo mundo do vinho por onde quer que suas parreiras se estabeleçam. Em solo brasileiro, as mais antigas datam do início dos anos 80.

Entre as mais prestigiadas, a Confrérie des Chevaliers du Tastevin, da Borgonha, reúne alguns dos maiores conhecedores mundiais de vinho. A organização congrega seus confrades no Château de Clos de Vogeout, um suntuoso castelo francês. Os membros deste grupo seleto degustam vinhos com trajes apropriados, títulos de honra e toda a pompa que uma confraria tradicional gostaria de ter.

Assim também ocorre com as confrarias portuguesas. A Confraria dos Enófilos da Bairrada oferece anualmente um banquete para seus novos confrades no Palace Hotel do Bussaco, patrimônio arquitetônico do século XIX. Em 2003, a Confraria do Vinho do Porto realizou uma nababesca entronização no Palácio da Alfândega, com direito a presença do então presidente português, e confrade, Jorge Sampaio, cortejo da Guarda Nacional Republicana e baile de gala.

Confrérie des Chevaliers du Tastevin

Mas você não precisa de uma beca e um título de chanceler - normalmente designando o comandante da confraria - para montar seu grupo de degustação. Precisa sim, como os irmãos do Velho Mundo, de amor ao vinho, bons amigos, bons copos e sede de degustador.

Degustar é algo que podemos fazer com prazer e sem pressa. Uma degustação descompromissada também é um exercício de liberdade e de construção de verdadeiras preferências sobre cada rótulo, cada uva, cada safra. Este, portanto, é nosso desafio. Degustemos pois, de garrafas e corações abertos.

A confraria
O primeiro passo para degustar vinhos é escolher um grupo. Vale selecionar pessoas que estejam no mesmo estágio que você. Deste modo todos poderão descobrir juntos o prazer dos vinhos, compartilhando idéias e impressões. O mesmo grupo, uma vez harmônico, pode evoluir, publicar suas opiniões na internet e trocar informações com outras turmas e confrarias.

Confrarias de gêneros também são muito freqüentes. Em Florianópolis, um grupo de mulheres muito organizado se reúne em torno de garrafas de espumante. É o Clube do Champanhe, hoje com mais de quatro mil membros, com programa de televisão, portal web e tudo.

Também é possível formar confrarias temáticas, especializadas em um determinado tipo de vinho, região de origem ou até mesmo variedade de uvas. Só depende do grupo.

Os amigos do trabalho, profissionais de uma mesma área, colegas de escola, enfim, desde que haja afinidade é possível reunir pessoas. E pessoas trazem pessoas em um saudável e produtivo network.

Formado o primeiro grupo, é importante estabelecer um ritual de ingresso na confraria. As tradicionais realizam grandes cerimônias, com trajes e juramentos. Não é preciso chegar a tanto, mas um confrade tem de ter claro que aquele é um compromisso importante.

O tamanho da confraria é a própria confraria que deve determinar. Encontrar e reencontrar amigos é a regra básica. Para começar, seis a oito pessoas é um bom número. Fuja apenas dos enochatos que podem transformar sua confraria em um grande constrangimento. É a opinião do grupo que deve valer.

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As taças

Clube do Champanhe

Entre os equipamentos, as taças são o único investimento necessário. É claro que a confraria pode evoluir e até promover eventos, receber produtores e coisas do gênero. Pode adquirir adegas climatizadas e até uniformes. Mas, comecemos sem pretensões. As taças são essenciais porque estabelecem um padrão de degustação.

Uma boa pedida é o formato universal. São aquelas taças menores, que acompanham com freqüência os kits de vinho do Porto. Servem para tintos e brancos, são baratas e fáceis de se encontrar. Como o objetivo da degustação é sempre uma avaliação comparativa, cada degustador utilizará várias taças em uma única rodada de vinhos.

Para aliviar bolsos e aprimorar gostos, sugiro que cada membro adquira meia dúzia delas para compor o kit da confraria.

A estrada
Agora é só escolher o tipo de enojornada que o grupo pretende percorrer. Degustar vários vinhos de uma mesma uva, por exemplo. Ótima pedida para quem está começando. Cada confrade sai em busca de um exemplar daquela uva, de um determinado país produtor.

Se a uva for a Cabernet Sauvignon, em uma confraria de seis pessoas, será possível avaliar vinhos do Chile, Argentina, França, Portugal, Brasil e Estados Unidos, em uma só noite. Muita água e pães são imprescindíveis para isolar o paladar a cada troca de vinhos.

Degustar é comparar
Outra modalidade deliciosa de degustação é aquela que compara vinhos de um mesmo produtor em diversas escalas, do mais simples ao mais elaborado. Aqui verificamos como um vinho muda com mais tempo de envelhecimento, com diferentes processos de produção e seleção de matéria-prima. O degustador mais pragmático poderá conferir também se a qualidade cresce na mesma proporção do preço, o que nem sempre acontece.

Vinhos de uma mesma uva, ou de uma mesma região de origem, também podem ser confrontados em diferentes safras. Algumas uvas são especialmente suscetíveis a essas variações, como o caso da Pinot Noir. Quando jovens e maduros se enfrentam, estamos diante do embate do vigor com o equilíbrio, da força com a sutileza.

Daí em diante é possível sofisticar o processo. Comparar três Syrah do Novo Mundo com outros três produzidos na Europa termina com aquelas brigas bonitas de se ver. Ou até pré-selecionar oito grandes brancos portugueses de uma determinada safra para escolher o melhor.

Nas combinações, também há uma quantidade infinita de possibilidades. Seu grupo pode escolher o melhor tinto até 50 reais para degustar com uma carne grelhada. Ou o melhor fortificado para acompanhar um charuto.

Quebrar regras

Bares e restaurantes podem sugerir harmonizações interessantes aos confrades

Outra regra fundamental em uma confraria é quebrar regras. Um dos confrades pode incluir um vinho coringa na degustação para gerar um contraste entre os demais. Um rótulo nacional pode se candidatar entre vários portugueses, por exemplo.

Em um grupo que eu freqüento introduzimos um "Miolo Castas Portuguesas" entre vinhos do Douro. O nosso tupiniquim foi gloriosamente confundido na degustação às cegas.

O local da degustação também é um trunfo para alegrar o processo. Bares e restaurantes podem sugerir harmonizações interessantes com os vinhos escolhidos.

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A revelação
Terminado o processo de degustação, todos comentam o que beberam e atribuem notas (0 a 5 ou 0 a 10). Essa avaliação pode ser feita com fichas de degustação ou simplesmente baseada nos sentidos e na experiência dos confrades.

Os amigos verificarão um estranho consenso em torno de dois dos seis rótulos. Isso mesmo. Raras são as degustações que não elegem, com certa agilidade, o vinho ou, no máximo, o par de vinhos da noite.

Surpresas podem ocorrer. O vinho mais barato bem avaliado. O mais caro em último lugar. Novo Mundo com jeitão europeu e exemplares dos mais modernos vindos do Velho Mundo. Enfim, o vinho de verdade aparece, longe do marketing e do encantamento comercial.

Para terminar a noite, um bom jantar é a melhor pedida. Novos sabores podem ser descobertos na combinação com a comida. Vinhos evoluem sobre a mesa e alcançam nuances de aromas e notas diferenciadas em contato com o ar.

Para os iniciados
Por vezes, uma confraria evolui e ganha projeção. Seus encontros tornam- se objetos de desejo e fazer parte delas configura uma espécie de honraria. Quando seu grupo atingir este estado vale a pena oficializar o processo constituindo uma sociedade civil sem fins lucrativos, com estatuto e tudo mais que uma confraria tem direito.

Enfim, a única regra para uma boa degustação é a honestidade. Quem se atreve a esconder os rótulos, dá uma chance ao seu senso crítico, às suas preferências e valores. Degustar é permitir que o melhor do vinho prevaleça sempre.

Georg Ehl/Stock.Xchng
As taças são o equipamento essencial do kit da confraria

Curiosidades
● A palavra confraria é a junção do prefixo latim "Cum", que significa junto, com o termo "Frater", que quer dizer "irmão".
● "Se queres ser feliz por uma hora, embebeda-te. Se queres ser feliz por uma semana, casa-te. Se queres ser feliz por toda a vida, bebe Porto." Essa é saudação de Fernando Nicolau de Almeida, confrade do Vinho do Porto. A Confraria possui até um juramento.
● Confraria também é o nome usado por uma sociedade teatral que na França, na Idade Média, montava farsas e pantomima.
● O taste vin - símbolo da Confrérie des Chevaliers du Tastevin - aquele delicado artefato para provar um vinho logo após a sua saída do barril - tem um similar nacional: a tamboladeira, peça parecida usada pelos Bandeirantes. Os historiadores já comprovaram que, apesar da semelhança física, a nossa pobre concha não tem nada a ver com vinho.

Tipos de Degustação
VERTICAL É a comparação entre diferentes safras de um mesmo vinho. A idéia é entender as diferenças e a evolução do vinho ao longo do tempo.
HORIZONTAL Comparação entre vinhos assinados por vários produtores, na mesma safra. Comparação normalmente feita selecionando- se regiões produtoras ou uvas comuns. DE
RECONHECIMENTO Feita para identificar e reconhecer o tipo e a origem. Busca distinguir características ligadas à tipicidade do vinho.
DE IDONEIDADE Degustação para verificar as características anunciadas pelo produtor.
DEGUSTAÇÃO ANALÍTICA Comparação conduzida por uma comissão (ou confraria) cujo julgamento é seguido da análise estatística dos resultados.
HARMONIZAÇÃO Degustação de vinhos combinados com pratos salgados, doces, tabaco etc.


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Artigo publicado nesta revista


ALBERTO ANTONINI

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