Origem, estilo, terroirs e por que a Cabernet Sauvignon se tornou padrão global
por Marcelo Copello

Se a primeira palavra de um recém-nascido costuma ser “mamãe”, para quem acaba de se render aos encantos de Baco, a palavra que surge naturalmente é Cabernet. Chamada de rainha das uvas, a Cabernet Sauvignon (CS) é uma das castas mais conhecidas, discutidas e difundidas do planeta. Internacional por excelência, amada e criticada na mesma medida, tornou-se um verdadeiro padrão mundial, presente em praticamente todos os países produtores de vinho.
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Da Inglaterra à Alemanha, Áustria e Canadá; da China ao Japão; do Peru à Venezuela, passando por Zimbábue, Brasil, Turquia, Marrocos, Grécia, Israel e Líbano; sem esquecer França, Estados Unidos, Chile, Austrália, Itália, Portugal, Argentina, Espanha, Uruguai, África do Sul e Nova Zelândia. Onde quer que esteja, a Cabernet Sauvignon deixa sua marca inconfundível. Mas como e por que essa uva se tornou a mais importante do nosso tempo? Qual sua origem, seu perfil sensorial e o segredo de sua versatilidade? A resposta passa por história, genética, terroir e mercado.
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O nome Cabernet Sauvignon só começou a ser utilizado no fim do século XVIII. Há historiadores que defendem que ela seja a antiga Biturica, mencionada por Plínio, o Velho, entre os anos 23 e 79 d.C., referência que remete à tribo Bituriges, fundadora de Bordeaux. Alguns produtores italianos ainda utilizam esse nome em seus rótulos, reivindicando uma origem anterior à consagração francesa.
Outras teorias associam a CS à Petit Vidure ou Bidure, uvas históricas de Bordeaux, ligadas ao termo vin dure, uma referência à dureza de seus caules. Independentemente do nome adotado ao longo dos séculos, sua origem genética foi definitivamente comprovada em 1997, quando testes de DNA realizados na Universidade da Califórnia, em Davis, demonstraram que a Cabernet Sauvignon é fruto do cruzamento entre Cabernet Franc e Sauvignon Blanc. Os aromas confirmam a ciência: frutas vermelhas da primeira e notas herbáceas da segunda.
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A força da Cabernet Sauvignon está diretamente ligada a Bordeaux, a mais influente região produtora de vinhos do mundo. Mesmo não sendo a uva mais plantada da região — posto ocupado pela Merlot —, os vinhos bordaleses se tornaram o modelo mais copiado globalmente. A partir dos anos 1970, com a consolidação do chamado “padrão Bordeaux”, a CS se espalhou por diversos continentes.
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Diferentemente de castas mais sensíveis, como Pinot Noir ou Nebbiolo, a Cabernet Sauvignon apresenta alta adaptabilidade, produzindo bons vinhos em diferentes climas e solos, desde que não sejam excessivamente frios. Essa versatilidade fez dela também uma escolha estratégica do ponto de vista comercial. Vinhos com Cabernet Sauvignon no rótulo abrem mercados e ajudam a impulsionar o portfólio de produtores, como ilustra o caso de Angelo Gaja, que lançou o emblemático Darmagi para conquistar novos consumidores fora do Piemonte.
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A Cabernet Sauvignon cresce em diversos tipos de solo, mas exige boa drenagem e calor suficiente para amadurecer corretamente. Em Bordeaux, por exemplo, prefere solos de cascalho, que retêm calor e escoam bem a umidade. Já em regiões mais argilosas, como Pomerol, sua presença é rara, dando lugar à Merlot.
A uva amadurece, em média, duas semanas após a Cabernet Franc e a Merlot. Quando não atinge plena maturação, surgem aromas verdes, especialmente o pimentão, causados pela pirazina, substância degradada pela luz solar. Em contrapartida, calor excessivo pode “cozinhar” as uvas, resultando em vinhos pesados e com perda de acidez. O grande desafio está no equilíbrio entre frescor e maturidade.
De casca grossa, a Cabernet Sauvignon costuma gerar vinhos de cor intensa e suporta bem macerações longas e temperaturas mais elevadas de fermentação. Também apresenta afinidade notável com o carvalho, tanto francês quanto americano, novo ou usado. Não por acaso, a barrica bordalesa de 225 litros se tornou padrão mundial.
No aroma, destacam-se notas de cassis, amora, cereja e ameixa, além de menta e eucalipto. Com o envelhecimento, surgem grafite, cedro, tabaco e caixa de charuto. Os toques de baunilha, café e caramelo estão ligados ao uso do carvalho. Apesar de expressiva, a CS costuma brilhar ainda mais em cortes, especialmente em Bordeaux, onde raramente é vinificada sozinha.
Os vinhedos de Bordeaux se espalham ao longo do estuário do Gironde e dos rios Garonne e Dordogne. Na Margem Esquerda, predomina a Cabernet Sauvignon; na Margem Direita, a Merlot e a Cabernet Franc. Os grandes ícones — Lafite, Latour, Margaux, Mouton e Haut-Brion — são baseados na CS, complementada por Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec e Carmenère.
O corte bordalês busca unir a estrutura da Cabernet Sauvignon, a maciez da Merlot e o perfume da Cabernet Franc, criando vinhos longevos, complexos e profundamente ligados ao terroir.
Fora da França, a Itália é o grande destaque. Na Toscana, a uva foi protagonista da revolução dos Supertoscanos, com rótulos icônicos como Sassicaia, Solaia e Tignanello. No Piemonte, Angelo Gaja lançou o Darmagi, símbolo da modernização regional. Hoje, a CS está presente em praticamente todas as regiões italianas e reconhecida em diversas DOCs.
Na Espanha, aparece em cortes históricos como o Vega Sicilia Único e em varietais consagrados como o Mas La Plana, da Torres. Portugal adotou a uva com mais cautela, mas produziu ícones como o Quinta da Bacalhôa. Já o Leste Europeu, o Norte da África e o Oriente Médio concentram grandes áreas plantadas, com destaque para Bulgária, Romênia, Israel e Líbano.
Nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia, a Cabernet Sauvignon alcançou status de ícone, com Napa Valley como principal referência. Austrália, Chile, Argentina, África do Sul, Uruguai e Nova Zelândia também produzem excelentes exemplares, cada um refletindo seu estilo e terroir.
Ao redor do mundo, a Cabernet Sauvignon mantém seu caráter marcante, sem perder versatilidade. Capaz de gerar vinhos potentes, elegantes, longevos ou acessíveis, continua sendo a uva que melhor representa a ideia de vinho tinto no imaginário global.
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