Despedida de Marseille

"Se você abrir uma garrafa de rosé e ouvir o canto das cigarras, o vinho é da Provence", provérbio provençal


foto-montagem:Guilherme Corrêa e Stock.xchng
A vista de Marseille deve ser "degustada" com uma taça de rosé da Provence

Kronenbourg 1664. Não gosto de cerveja. Atualmente algumas são elaboradas com o método Champenoise. Os faraós se revirariam nas pirâmides se soubessem que a bebida dos escravos chegou às “taças” dos escribas. De qualquer maneira, a cerveja francesa que abriu essa crônica marca alguns episódios interessantes da minha vida. A primeira vez que a experimentei, há dez anos, no Café du Théâtre, em Poitiers, um amigo francês chamado Eric me falou sobre a publicidade televisiva da marca. Enquanto um homem bebia a cerveja, uma bela mulher se despia... em sua imaginação. Certamente o ator estava em uma situação melhor do que eu. Deixei o copo de lado ao perceber que não havia nenhuma bela mulher por perto. Com uma lata da mesma cerveja desembarquei na estação de Waterloo para passar uma temporada na Inglaterra. E com essa cerveja pretendia me despedir da Provence, depois de uma semana visitando vinícolas da região. Após conhecer a adega do La Côte de Boeuf, considerada uma das melhores da Europa (havia até uma garrafa monárquica, pré-Revolução Francesa), e um jantar, segui para o hotel em que estava hospedado.

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A vista da sacada do meu apartamento era maravilhosa, com o porto recortado por monumentos históricos de Marseille, como a Notre Dame de la Garde, protetora da cidade. Apesar de dispor de poucas horas antes de embarcar de volta ao Brasil, vasculhei o frigobar a procura da cerveja francesa. Deixei a lata na mesa da varanda e tentei fechar a porta para proteger meu quarto do frio. Estava emperrada. Empurrei-a com força e ouvi um barulho suspeito. Ainda assim pensei em sentar-me à mesa e apreciar a paisagem noturna. Antes, tentei abrir a porta. Percebi que estava trancado do lado de fora do quarto. Olhei para a mesa. A cerveja me observava, impassível. “Preciso manter a calma”, pensei, esmurrando a porta. Gritei por ajuda, mas as únicas pessoas que talvez me ouvissem curtiam uma festa em um prédio há centenas de metros, nem um pouco preocupadas com minha pouca sorte. Quase meia hora de infortúnio e espiei para baixo. Mesmo com a escuridão, calculei uns cinco metros. No ponto mais alto da cidade, Notre Dame de la Garde ouviu minha prece. Saltei da varanda. Um baque surdo no chão. Havia caído em um bosque cerrado. Olhei para cima e deparei com a latinha de cerveja, reinando soberana.

Stock.Xchng
Vista panorâmica de Marseilleº

Caminhei até uma região iluminada, um pouco acima. Subi em uma árvore e alcancei a piscina. Um oásis... Era só chegar até a porta... fechada. Com alguns pulos chamei a atenção de pessoas no bar e, após uns quinze minutos, fui abordado por um segurança do hotel. “Você está hospedado aqui?”, me questionou, incrédulo, depois de ouvir atentamente minha pequena aventura. Provei que sim e recebi uma cópia da chave. Que alívio! Passei no quarto do amigo Guilherme Corrêa para lhe relatar o meu incidente e me convencer de que estava tudo bem. “Por que você levou uma cerveja para a varanda, em vez de um vinho?”, questionou-me o melhor sommelier do Brasil. A pergunta fazia sentido. Parecia uma heresia me despedir da Provence com uma Kronenbourg 1664.

De volta ao quarto, encarei friamente aquela lata na varanda. Com medo, fui até ela e segurei-a com força. “Agora é a sua vez”, disse, antes de arremessála bem longe. Em seu lugar, coloquei um autêntico rosé da região. Ao abrir a garrafa, ouvi o canto das cigarras e senti um aroma de lavanda. Finalmente, eu estava na Provence e me despediria de lá da melhor maneira. “Degustei” a paisagem noturna com a taça de vinho na mão. Não gosto de cerveja.

Fábio Farah

Publicado em 23 de Novembro de 2006 às 09:14


Crônica

Artigo publicado nesta revista