A festa de Deus

"O vinho é a prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes" Benjamin Franklin


fotos: Cia Björk/Stock.Xchng e RatzingerQuais são suas primeiras lembranças do mundo do vinho? Com essa pergunta, iniciei todas as entrevistas que fiz com enólogos. A maioria deles brincou entre parreiras e herdou o interesse pelo ofício dos pais. A visita do papa Bento XVI ao Brasil me fez refletir sobre minha escolha religiosa. Curiosamente, ela começa com a resposta à pergunta acima. Um dos personagens marcantes de minha infância são-carlense foi padre Jairo. Corpulento, ele adorava churrascos e vinhos. E a cada frase deixava escapar um tche. Diferentemente de vários padres de paróquia, ele não gostava de se esconder atrás de um séquito de carolas com terços à mão. Era festeiro e gostava de andar no meio do povo. Para movimentar a cidade, Jairo criou a Festa da Uva e do Vinho. Minhas primeiras lembranças da bebida são centenas de garrafões espalhados em barracas na praça central. Pessoas dançando. Cantando. Vinho era festa, alegria.

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Na adolescência, como a maioria dos estudantes de Física - e amantes de Cosmologia -, deixei a religião de lado para procurar, nas estrelas, respostas às crises existenciais. Entre cálculos exaustivos - e leituras científicas -, uma dose merecida de destilado. Em pouco tempo, meu espírito, cansado do dry ateísmo, voou em outras direções. Na Índia, quase foi devorado por Kali, a deusa da morte. Partiu a tempo de participar da Hajj, a peregrinação anual a Meca. Por pouco não foi pisoteado pela multidão de muçulmanos. Conseguiu se esquivar e encontrou por lá o Cardeal Richelieu: "Se Deus tivesse proibido o vinho, por que o teria feito tão saboroso?", disse-lhe, com sorriso irônico. Meu espírito procurou outros ares. Na China, enquanto descansava em um Templo Shaolin, foi intimado a comparecer em uma sessão espírita. E sabatinado sobre os mistérios do Além. Não suportou o interrogatório e desmaiou. Ao despertar, encontrou-se diante do Dalai Lama. "Não procure fora. A Verdade está em seu coração", disse-lhe.

Naquele dia, consegui resgatar meu espírito de um redemoinho de emoções, certezas, dúvidas... Juntos, sorvemos uma garrafa de vinho. O bispo francês Jacques-Bénigne Bossuet escreveu: "O vinho tem o poder de encher a alma de toda a verdade, de todo o saber e filosofia". Na segunda taça, senti-me iluminado e resolvi seguir o exemplo de meus antepassados. Na Idade Média, religiosos costumavam abrir a Bíblia aleatoriamente, acreditando que Deus os guiaria até a mensagem adequada para aquele momento de suas vidas. Encontrei o primeiro milagre de Jesus Cristo. Em uma festa de casamento, Ele transformou seis talhas de água em seiscentos litros (!) do "Romanée-Conti" da época. Imaginei as pessoas felizes, dançando, cantando. Vinho era festa. Era alegria. Fechei os olhos e recordei a Festa da Uva e do Vinho, na praça central de São Carlos, distante das Bodas de Caná no tempo e no espaço. A Verdade estava em meu coração. Mas também estava no vinho, como observou o romano Plínio: In Vino Veritas.

Abri novamente a Bíblia em busca de outra confirmação: "Depois tomou em suas mãos o cálice (de vinho) e lhes disse: 'Tomai todos e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança (...)'". Não precisava de mais argumentos. Como o filho pródigo, eu retornava à casa do Pai, com uma taça de vinho na mão e uma certeza: "O vinho é a prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes".

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fotos: Cia Björk/Stock.Xchng e Ratzinger
Para o Papa Bento XVI, o vinho é sinal de alegria
E o papa Bento XVI? Dias atrás, ao folhear um livro, encontrei a seguinte citação do Santo Padre: "Se o pão é o símbolo do que o homem precisa, por seu lado o vinho é o símbolo da superabundância da qual também temos necessidade. Ele é sinal de alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia-a-dia e faz do estar juntos uma festa. Alegra os sentidos e a alma, solta a língua, abre o coração e transpõe as barreiras que limitam nossa existência". Abracei meu espírito e chamei-o para tomar um vinho. Desarrolhamos uma garrafa do Châteauneuf-du-Pape "Château de Beaucastel 2001". Havíamos transposto várias barreiras. Abrimos nosso coração e encontramos Deus. Contemplando as estrelas, fizemos três brindes: Ao Papa, ao Dalai Lama e, é claro, ao padre Jairo!
Fábio Farah

Publicado em 16 de Maio de 2007 às 07:32


Crônica

Artigo publicado nesta revista