A bondade do demônio

"Todos vêem aquilo que pareces, poucos sentem o que és" <br>Nicolau Maquiavel


Santi di Tito
Este vinho não tem o gosto de minha terra", concluiu Maquiavel ao provar um supertoscano

Os políticos mais vis do ocidente renderam-lhe homenagens. Vários deles tomaram os vinhos mais cobiçados em sua memória, enquanto articulavam mentiras, traições, assassinatos... Nada poderia aplacar a sede de poder. Apenas um adjetivo identifica todos eles como membros de um mesmo clã, independente de época, partido político ou país. E revela o nome do mestre: maquiavélico. Teria sido Nicolau Maquiavel um homem tão terrível? Ao aproximar-me de seu túmulo, na Santa Croce, em Florença, eu já havia bebido com Dante, Michelangelo e Galileu. Para cada um deles, um estilo de vinho. Com o autor de A Divina Comédia, um Amarone produzido por seus descendentes. Um afamado Brunello tinha revelado o gosto questionável de um dos artistas mais sensíveis do renascimento e um Chianti Classico levado luz aos olhos do pai da Física.

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Para Maquiavel, reservei um supertoscano. A introdução de uvas estrangeiras em um corte italiano denunciava que alguns produtores fizeram alianças com o inimigo para cativar o gosto dos enófilos, mesmo que o preço tenha sido uma punhalada na tradição. Ou seja, praticaram as lições de O Príncipe, obra-prima de Maquiavel, escrita em 1513.

Apanhei o livro e preparei-me para dar os passos finais, que me colocariam face a face com o pai da Política moderna. De repente, a luz do meu candeeiro apagou-se. Uma voz agonizante cortou o silêncio. E foi seguida por milhares de gritos, lamentos, gemidos. Acendi novamente a chama e olhei para a urna funerária de Maquiavel. Um homem, sentado sobre ela, estava circunspecto. Era Adolf Hitler. Desarrolhei o "Ornellaia 1998" e servi apenas minha taça. Vinho é uma bebida que exige companhia, mas, em certos casos, deve prevalecer a sabedoria popular expressa no ditado: "Antes só do que mal acompanhado". Ao ver-me empunhando a taça, o abstêmio mais cruel que a humanidade jamais conheceu ergueu-se e ameaçou um discurso, mas desapareceu na escuridão. Sorri com a ironia: A personificação da maldade derrotada por uma taça de vinho.

Federico Cantoni
Túmulo de Maquiavel, na Santa Croce

O túmulo era ornamentado por uma escultura de mulher. Nas mãos de pedra, um perfil de Maquiavel. Como seu vizinho na basílica, o poeta Dante, o primeiro grande pensador da era moderna também tinha sido exilado por razões políticas. Enquanto sorvia o primeiro gole, abri aleatoriamente o livro e li a citação: "É melhor ser temido que amado". Observei calmamente - já havia bebido muitas taças de vinho -, um homem sair do esquife. "Obrigado, você me libertou. Desde que cheguei aqui, algum maluco bloqueava minha saída, ora em silêncio, ora proferindo discursos inflamados. Este último era um dos piores", desabafou. Servi-lhe uma taça do "Ornellaia". "É um belo vinho, mas não tem o gosto da minha terra. Isso me lembra o exílio. Apesar da distância, os aromas e os sabores de alguns vinhos me traziam de volta para cá", revelou.

Com meu consentimento, Nicolau narrou episódios saborosos da história florentina. Eu já conhecia a maior parte, pois tinha lido a História da República de Florença, encomendada pelo cardeal - e futuro papa - Giulio de Medici. Mas, em sua voz, os personagens saíam das páginas estáticas e desfilavam diante de nossos olhos. "Vamos percorrer a cidade", convidou-me. Deixamos Santa Croce. Ao passarmos diante da Galleria degli Uffizi, os homens mais ilustres da cidade deixaram os postos de estátuas ornamentais e aproximaram-se de Maquiavel. Antes de cumprimentá-los, ele me disse: "Nada faz o homem morrer tão contente quanto o recordar-se de que nunca ofendeu ninguém, mas, antes, beneficiou a todos". Contrariando o próprio conselho, Nicolau tinha se tornado um dos homens mais amados daquela terra.

***

Três dias depois, eu partiria de Florença, após outros encontros marcantes, como uma visita à taberna do gênio renascentista Leonardo da Vinci, em sociedade com o pintor Botticelli, e um passeio na tartaruga gigante de Cosimo Il Vecchio, fundador da dinastia Medici. Estava a caminho da estação de trem, quando pessoas apressadas, em trajes estranhos, passaram por mim. Uma delas se deteve e me olhou, assustada. "Onde você está indo?", questionou. "Embora", respondi rispidamente, diante da insolência. "Justo agora. Savonarola será queimado na praça", justificou, correndo para alcançar o grupo. Continuei meu caminho. Não desejava presenciar o reformador dominicano arder na "fogueira das vaidades", criada por ele mesmo. Eu levava na bagagem o melhor da cidade, que poderia rotular com um único adjetivo: maquiavélico.

Fábio Farah

Publicado em 20 de Setembro de 2007 às 07:23


Crônica

Artigo publicado nesta revista