O mendigo inglês e o "Château Haut-Brion 1961

"O homem é um deus quando sonha e não passa de um indigente quando pensa" Friedrich Hölderlin


Stock. XchngLondinium. Com este nome o imperador romano Cláudio batizou, em 43 d.C., um vilarejo às margens do rio Tamisa, provavelmente em uma tarde cinzenta e chuvosa. Cem anos depois, a cidade já contava com 60 mil habitantes. Como nas outras regiões do Império, os conquistadores tentaram enraizar a Pax Romana junto com pés de uva. Reza a lenda que um antigo druida – de passagem pelos vinhedos de Londinium – tocou a terra com um graveto e disse: “Quem passar por este lugar e for surpreendido por Dagda (*) participará do mundo dos homens e conversará com os deuses”. Outra versão da história diz que, insatisfeito com a dominação estrangeira, ele bateu no solo com um cajado e bradou aos céus: “Malditos abutres, Dagda retirou a dádiva desta terra. Vocês hão de se satisfazer com as sobras de outros povos”. Alguns supersticiosos afirmam que aquele feiticeiro foi o responsável pela qualidade sofrível dos vinhos produzidos na ilha desde sua primeira safra Gosto dos contos de fada, eles oferecem uma explicação romântica para certos fatos, como a ausência de um terroir inglês satisfatório para a produção de vinhos. A condição geográfica, aliada a um gosto refinado, transformou os ingleses em notórios consumidores da bebida de seus vizinhos, sobretudo dos grandes rótulos de Bordeaux. E talvez a maldição do druida justifique porque eles preferem vinhos longevos bem envelhecidos. Não à toa são considerados “abutres enológicos”.

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A primeira versão da lenda do druida continuava um mistério para mim até desembarcar em Londres, com um livro de magia celta e mapas antigos. Nas primeiras semanas, realizei rituais, fiz uma extensa pesquisa na British Library e conversei, no metrô, com um indigente de barbas brancas que insistia ser descendente dos antigos druidas. Tudo isso me levou a um lugar, às margens do Tamisa, com o sugestivo nome de Vinopolis. Era um parque temático dedicado ao vinho, e construído 1956 anos após o imperador Cláudio ter fundado o pequeno vilarejo “seguindo o rio” (o significado provável da palavra Londinium). Prestes a entrar no complexo, ouvi cinco badalos do Big Ben. Em apenas alguns dias na capital do Reino Unido, eu já havia me aculturado: Acompanhava a corrida de galgos, tomava chá preto com leite. Pontual, jamais perdia o chá da tarde. Como haviam me informado que a Cidade do Vinho fechava as portas às 22h, e o self-guided tour durava cerca de 1h30, voltei para lá às 20h. Com 17,50 libras, ingressei no mundo de Baco, esperando mais do que um passeio pela história cultural da bebida.

Um painel com o título Water and Wine A Vintner´s Tale, no hall de entrada, saudava os visitantes. Alguns passos depois, pedaços de ânforas, estátuas do deus do vinho e outros vestígios dos primórdios da bebida na ilha. Apressei a jornada, pois deveria percorrer cerca de dez mil metros quadrados e viajar por 16 países e mais de 200 rótulos do Novo e do Velho Mundo. Em apenas meia hora, gastei meus cinco cupons de degustação, enquanto recebia aulas, pelo headphone, de Oz Clarke, Hugh Johnson e Jancis Robinson, os maiores especialistas em vinho do País. Comprei mais cinco tickets, e naveguei por mais cores, aromas, sabores, terroirs. Ao faltarem apenas 20 minutos para Vinopolis encerrar o expediente, percebi que era o último visitante do dia. E me dei conta de que o mergulho nos taninos me havia feito esquecer o motivo da ida àquele santuário. Sorvi minha última taça – um Shiraz australiano –, e corri para o início do percurso. Levei um susto. Encostado em uma coluna, abaixo de uma pequena ânfora, o indigente de barbas brancas que tinha conhecido no metrô entornava uma garrafa de “Château Haut-Brion 1961”. “Quer um gole?”, ofereceu-me, tentando se levantar. Qualquer mortal sentiria repulsa naquele gesto, mas apenas os estúpidos recusariam a bebida. Enquanto apreciava o Grand Cru Classé, no gargalo, fui surpreendido por um tapa nas costas. “Este vinho... Você conversa com os deuses”, sussurrou. Eu estava em Londinium. E Dagda tinha um sorriso embriagado no rosto.

***

Às 22h, pontualmente, deixei para trás a Cidade do Vinho e as lendas celtas. “Gosto dos ingleses. Eles têm um humor peculiar”, pensei, a caminho de casa. Alcancei um grupo estranho de jovens. Eles estavam vestidos como na época elisabetana e falavam um dialeto incompreensível. Deduzi ser uma trupe. Deixei a discrição de lado e me atrevi a abordá-los. “Para onde estão indo?”. “Willian está ensaiando uma nova peça”, respondeu um deles, em inglês arcaico. Estávamos na direção do The Globe, teatro fundado por Shakespeare em 1599. Eu parecia ter encontrado o ponto exato onde o velho druida tinha tocado a terra com sua varinha mágica. E não trocaria o encontro com o deus bardo por nenhuma dose de sanidade.

(*) Na mitologia celta, Dagda é o deus da Terra e reina sobre a vida e a morte.

Serviço
Para maiores informações sobre Vinopolis, consultar o site: www.vinopolis.co.uk. É importante ressaltar que o ingresso de £17,50, pelo Original Wine Tour, não inclui a degustação de um “Château Haut-Brion 1961”, nem um encontro místico com um indigente de barbas brancas.

Fábio Farah

Publicado em 18 de Outubro de 2007 às 14:20


Crônica

Artigo publicado nesta revista