Revista ADEGA

Doce Néctar

Os vinhos de sobremesa no Brasil são raros e muito distintos. Assim como os paladares que os apreciam

Sílvia Mascella Rosa em 2 de Abril de 2008 às 06:08

Sílvia Mascella RosaVinhos doces são vinhos difíceis. Pouca gente é capaz de admitir isso. Para quem está acostumado a beber vinhos secos e tânicos ou espumantes e brancos com acidez às vezes elevada, os vinhos doces são um desafio ao paladar.

No entanto, uma vez vencido esse desafio a recompensa é deliciosa. Os aromas de mel, de frutas maduras e doces, além do sabor rico e intenso, de amanteigado, chocolate amargo e frutas silvestres, são um prazer que deve ser desfrutado. Vide a sedução abrangente do Vinho do Porto e dos Tokaji húngaros. Ainda assim, os vinhos doces nem sempre são apreciados em sua enorme possibilidade de sabores e cores. São vinhos mais caros na maioria das vezes e nem sempre tão versáteis na hora de acompanhar alimentos. Verdade seja dita, eles não costumam ser a escolha da maioria das pessoas que saem para comprar vinhos. A exceção fica por conta dos vinhos do Porto, reconhecidos no Brasil como um presente sempre bem vindo para quem recebe e a certeza de acerto para quem o oferta. Mas, para nossa grata surpresa, mesmo em um país sem tradição e, com mais intuição do que terroir para fazer vinhos doces, o Brasil já consegue alguns resultados interessantes.

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Os vinhos doces são separados, internacionalmente, em tipos e subtipos. Eles podem ser vinhos doces naturais, quando o açúcar residual vem da própria fruta ou vinhos doces fortificados, quando a fermentação é parada antes de todo o açúcar ser transformado em álcool e o vinho é fortificado com aguardente vínica.

O Brasil tem os dois tipos, mas por conta da legislação portuguesa que protege seus vinhos fortificados, e pela falta de uma característica própria que o coloque em uma categoria diferenciada, como o Jerez espanhol ou o Málaga, nossos vinhos fortificados são chamados de vinhos licorosos tintos doces. Já os brancos, que caem na classe dos vinhos doces naturais, são chamados de Colheita Tardia, por conta do ponto no qual as uvas são colhidas, extra maduras.

A denominação ‘vinho licoroso’ não trabalha a favor do produto brasileiro. Ela ecoa em nossa memória o sino dos vinhos de uvas não viníferas, cujo açúcar vem de um pacote e não da própria uva. Esses eram os nossos antigos vinhos licorosos. Felizmente, essa categoria agora abrange outra qualidade de produtos, muitas vezes surpreendentes, embora a legislação vigente ainda não faça justiça à sua evolução.

Nossos vinhos licorosos são, em grande maioria, tintos e preparados à imagem e semelhança dos vinhos fortificados portugueses. Isso quer dizer que levam mais de uma uva em sua composição, que têm sua fermentação interrompida quando nem todo o açúcar se transformou em álcool, que são fortificados com aguardente vínica preparada das próprias uvas que entram em sua composição e, em geral, são envelhecidos em carvalho por um bom tempo. As semelhanças param aí, pois uma das coisas mais interessantes em Portugal é o conjunto das uvas que crescem no país, diferenciadas e únicas, deixando em seus vinhos, tanto os tradicionais quanto os fortificados, uma gama de sabores incomparáveis.

Mas no Brasil, que já tentou rotular esses vinhos como ‘tipo porto’ e foi impedido, as mesclas de uvas também levam a bons resultados, como no vinho Portento, surpreendente novidade da Quinta Santa Maria, de São Joaquim (SC). As uvas, produzidas a 1.300 metros de altitude, recebem o carinho de Nazário Santos, um português que adotou o Brasil como sua segunda pátria e que pretende, aos poucos, introduzir em seu vinho fortificado algumas das castas portuguesas típicas do Douro. Atualmente, elas só compõem 5% do vinho. Com uma outra personalidade, a vinícola Irmãos Molon, em São Marcos (RS), produz o Mistela-Reggio de Castela, um vinho fortificado branco, preparado com a uva Moscato Giallo colhida no final do mês de março e começo de abril em seu ponto máximo de maturação. O vinho é um típico produto para acompanhar sobremesas, de cor e aroma marcantes, com elegância e persistência na boca. O Mistela, junto do Terranova Late Harvest da Miolo Wine Group, compõem a seleta lista dos vinhos de sobremesa oficiais do Palácio do Planalto. Entretanto, o Terranova da Miolo não é um vinho fortificado, mas sim um vinho doce natural, produzido à partir das uvas moscatel que crescem sob o sol do sertão baiano e envelhecido em barris de carvalho.

Nossa terra ainda produz um terceiro vinho doce natural, com as castas Semillon (uva branca clássica de Bordeaux que entra na composição do vinho doce Sauternes) e Malvasia Branca. É o Aurora Colheita Tardia, o mais fresco dos vinhos de sobremesa testados. Ele só é produzido em anos nos quais a escassez de chuvas permite que as uvas amadureçam no pé até o ponto ideal. A Aurora também tem seu vinho fortificado tinto, uma combinação muito aromática das uvas Cabernet Sauvignon e Tannat.

Os vinhos doces, tanto os fortificados quanto os naturais, harmonizam-se muito bem com as sobremesas em geral, se for seguida a regra de que o vinho deve sempre ser mais doce do que a sobremesa. Mas esses vinhos também podem acompanhar salgados, como os chamados ‘queijos azuis’ (o gorgonzola e o stilton, por exemplo) e alguns pratos como o foie gras, cuja harmonização clássica mais apreciada é com o doce Sauternes.

Qualquer que seja a sua escolha, não esqueça de que os vinhos doces naturais devem ser servidos frios, e que os vinhos fortificados devem ser servidos em temperatura ambiente - desde que ela não seja de 30 graus centígrados, nesse caso é necessário refrescá-lo.

Confira a avaliação completa dos vinhos na seção CAVE


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista


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