Fendant, um vinho impregnado de cultura

Descubra o vinho suíço que era presença obrigatória nos banquetes de Júlio César


fotos: Antonella Kann
Outubro é a época das colheitas e o ponto culminante do ano para os vinicultores. Aguardar o momento propício para colher as uvas é um dos segredos para garantir uma boa safra

Inconcebível imaginar a vida social na Suíça sem a presença de vinho. Principalmente no cantão do Valais, onde antes mesmo do século XV e da região cultivar as suas próprias vinícolas, oferecia-se generosas rodadas em qualquer evento. Hoje, não se convive com nenhum Valaisan sem com ele partilhar um pichet (jarra que pode ser de estanho ou vidro) de vinho. E este vinho costuma ser o Fendant.

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Elaborado com a uva Chasselas, ele pode ser servido diretamente do tonel. Ele é onipresente: seja numa pastagem no meio das montanhas, guardado dentro da mochila do camponês que vigia o seu rebanho, ou no ambiente familiar para acompanhar um típico fondue de queijo ou uma raclette. Também costuma ser consumido em copo antes do meio-dia, em qualquer café. Em suma, ele representa o vínculo mais sólido, mais firme e mais permanente entre todas as diversas regiões do Valais. É o denominador comum, o ponto de encontro – aliás, pensou em vinho do Valais, pensou no Fendant.

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A chasselas, uva que é usada para produzir o fendant – um vinho branco sem equivalência - precisa ser colhida sem estar demasiadamente madura, pois um alto teor de açúcar pode comprometer o seu sabor

Mas que região é esta? O hino a descreve como maravilhosa. No verão, é um verdadeiro solarium e faz muito calor. A primavera e o outono são ideais para quem quer fazer caminhadas pelos vinhedos. Há toda uma programação ao alcance dos turistas que estejam dispostos a explorar a região a pé. Situado ao sul do país, no vale do Reno, e fazendo fronteira com Aosta, na Itália, é uma área vinícola por natureza. Para começar, o clima é tão generoso que dispensaria comentários: pouca chuva - Sierre é o lugar menos chuvoso do país; uma insolação extraordinária; nenhuma neblina e até benfeitorias provocadas pelo foehn (um vento típico local). Único perigo: o risco de geada na primavera. Em geral, o solo é muito seco, leve, com pedra e calcário.

É preciso entender o papel que desempenham as videiras no Valais. Antes de mais nada, cada valaisan é um profundo amante - e conhecedor - de vinho e fica exultante quando, no mês de outubro, os cachos de uvas amarelas e azuis vão se amontoando nas caixas, em meio ao zunido das moscas e abelhas. Outubro é a época das colheitas e o ponto culminante do ano para os vinicultores. Aguardar o momento propício para colher as uvas é um dos segredos para garantir uma boa safra.

fotos: Antonella Kann
Cada cacho de uva pesa em média de 80 a 100 gramas, o que resulta em cerca de 1 kg por metro quadrado de vinhedo

Alguns ampelógrafos não hesitam em afirmar que a cepa Chasselas teve origem no cantão de Vaud. Outros dizem que ela é oriunda do distante oásis de Fayoum, no Egito, onde ainda estaria sendo cultivada. Ainda há suposições de sua existência na região de Cahors, na França. Entretanto, na Suíça de antigamente, falava-se do fendant do cantão de Vaud. E foi só a partir de meados do século passado, devido a uma grande epidemia de filoxera, que ele acabou invadindo todo o Valais.

Hoje, o fendant é tipicamente valaisan e mais ninguém sonha em discutir a sua titularidade. E graças à altitude, ao grau de insolação e ao tipo de terreno, ele adquire uma multiciplidade de gostos. Para um bom entendedor, não será difícil distinguir entre o fendant de Sion com o de Sierre, ou o de Chamoson com o de Fully. Em linhas gerais, admite-se que os vinhos de Sion sejam os mais, ou seja, os mais finos, mais distintos. As safras produzidas na parte mais baixa do vale são mais leves, enquanto que a produção da região de Sierre é mais encorpada. Mas, no decorrer dos anos e com o progresso feito na vinificação, fica difícil rotular o fendant dentro desses simples adjetivos. Por exemplo, em Martigny são produzidos vinhos de maior qualidade.

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fotos: Antonella Kann
As uvas do vinho branco são prensadas antes da fermentação e quanto mais forte a prensa, mais seco será o vinho

Levando em conta as suas características de frutadas e de uma leveza que é muitas vezes apenas aparente, o fendant não é um vinho isolado, mas sim uma variedade de bebidas que convém conhecer bem para poder tomá-lo de acordo com os pratos que ele estiver acompanhando. Há inúmeras maneiras de se degustar um bom fendant: como aperitivo, há toda uma gama de vinhos leves, secos, ásperos e robustos, cuja combinação é perfeita com o queijo. Há outros, bem mais refinados e distintos, que farão boa aliança com o peixe. Também existem alguns tipos de fendant ricos, pesados de sol e açúcar, que se tornam quase um vinho de sobremesa.

Onde degustar

fotos: Antonella Kann
Antes da colheita, o vinicultor observa de perto as suas videiras: a sua coloração estará homogênea? A mudança de cores aconteceu dentro do previsto?

Há várias caves, muitas situadas em típicos vilarejos medievais, onde é possível fazer degustação e até mesmo um tour guiado pelos vinhedos. Uma das regiões mais conceituadas pela diversidade de suas vinícolas, Chamoson é um ponto de destaque no Valais desde a época dos romanos: eles apreciavam tanto os vinhos locais que os despachavam regularmente para abastecer os banquetes de César.

Caveau de Chamoson, CHAMOSON. (www.chamoson.ch/caveau). Propõe os melhores vinhos de 39 vinhedos de Chamoson e St.Pierre de Clages. Aberto diariamente a partir das 17h.
Caveau de Saillon, SAILLON. (www. saillon-vins.ch). Abre de quinta a domingo em horários variados. Além da degustação de vinhos, oferece queijos e a famosa carne seca, uma típica carne de sol cortada em finas fatias. A cada quatro anos acontecem festividades medievais no vilarejo de Saillon, com grupos vestidos a caráter. A próxima data está prevista para final de agosto de 2007.
• L'Oenothèque, SION. (www.oeno. ch). Aberto todos os dias.
• Caveau, o enothèque Le Verre à Pied, SION. Tel. 027- 321-1380.

Antonella Kann

Publicado em 23 de Novembro de 2006 às 08:03


Enoturismo

Artigo publicado nesta revista