Grand Cru

A história do vinho de Falerno, o mais famoso do Império Romano

A bebida era tão famosa que foi citada em diversos livros que retratam a Roma antiga


Virgílio, Cícero, Plínio, os homens de letras do Império Romano, mas também os cônsules e césares, todos os grandes homens de Roma pareciam ter apreço por um vinho, o Falernum, ou Falerno. De poetas a historiadores, essa bebida era tão famosa que foi citada em diversos livros que retratam a Roma antiga e tais relatos evidenciam o quão especial ela era.

Plínio, o Velho, militar e historiador romano – que viveu entre os anos 23 e 79 já da era cristã – conta que em 60 a.C., um banquete em homenagem ao imperador Júlio César por suas conquistas na Espanha teve o vinho de Falerno da excelente safra de 121 a.C. servido aos convivas. Esta foi a primeira menção a um premier cru romano e também a uma safra, chamada Opimiana (pois, naquele ano, Opímio era cônsul de Roma).

Falerno também chegou a ser citado no Satíricon, de Petrônio, um dos mais antigos romances romanos (escrito por volta de 60 d.C.), que faz uma sátira dos costumes da Roma antiga. Nele, o famoso personagem de Trimalchio – um escravo liberto de grande fortuna – vive entretendo seus hóspedes com jantares extravagantes. A bebida servida qual seria?

Falerno era um vinho feito nas encostas do Monte Massico, pouco ao norte de Nápoles, perto do litoral, no caminho entre essa importante cidade portuária e Roma, capital do Império. Era o vinho mais caro da época, um verdadeiro cult. Tanto que muitos historiadores acreditam que boa parte do vinho vendido no império como sendo de Falerno, na verdade, era “falso”, ainda mais se considerarmos que o consumo estimado na época era de cerca de 180 milhões de litros de vinho, quase uma garrafa por cidadão por dia.

Na parede conservada de um bar na cidade de Pompeia – destruída em 79 d.C. pela erupção do monte Vesúvio –, ainda hoje há uma tabela de preços onde se lê: “Por um ‘as’ (medida de valor na época), você bebe vinho, por dois, bebe o melhor, por quatro, bebe o de Falerno”. Isso dá uma ideia do valor do Falerno, porém pouca, pois acredita-se que o vinho genuíno custaria muito mais do que quatro vezes o valor do vinho da casa. Estima-se que uma ânfora dele poderia ser trocada por um escravo.

Origem

Falerno era tão venerado que obviamente sua origem virou lenda. Nela diz-se que foi o próprio deus Baco quem criou a bebida. Um dia, a divindade teria aparecido para um agricultor chamado Falerno, que vivia nas escarpas do monte Massico. Apesar da aparência repugnante com que se apresentou ao homem, este lhe acolheu e serviu tudo o que tinha de melhor. Agradecido, Baco então transformou o leite em vinho, que Falerno bebeu e logo adormeceu. Nesse momento, o deus converteu as colinas do monte em vinhedo.

No entanto, é bastante provável que o nome Falerno tenha vindo da contração de Falanghina, variedade branca natural da Campania, que teria algum parentesco com a Greco e com outra casta “perdida no tempo”, a Amineum. Diz-se que esta última é que deu origem verdadeiramente ao Falerno, um vinho branco doce – como a maioria na época.

No reinado de Augusto (de 27 a.C. até 14 d.C.), por exemplo, os vinhos brancos doces e fortes eram os preferidos. Assim como no estilo do Madeira, eles eram aquecidos no preparo e, para beber, geralmente se diluía em água morna e até mesmo em água salgada, tamanha a sua potência.

Naquela época, havia ainda três distintos vinhedos de Falerno reconhecidos. O primeiro era o Caucinian, que vinha das partes mais altas do monte Massico. O segundo era o Faustian, o mais famoso, das terras centrais que hoje correspondem ao território das cidades de Falciano del Massico e Carinola di Casanova, e que pertenciam a Faustus, filho do ditador romano Sula. Por fim, o vinho das encostas mais baixas era chamado apenas de Falerno.

O gosto romano

Com o fim do Império Romano, o vinho caiu no esquecimento. Só em 1989 foi criada uma denominação de origem chamada Falerno del Massico

Em uma descrição do vinho Faustian Falernum, Plínio anotou algo singular: “é o único vinho que pega fogo quando se coloca uma chama perto dele”. Acredita-se então que o teor alcoólico superasse facilmente os 15%. O vinho provavelmente era produzido de uvas de colheita tardia já levemente congeladas. Também supõe-se que era deixado “madeirizar”, envelhecendo entre 15 e 20 anos em ânforas antes de ser bebido. A oxidação lhe dava uma cor âmbar próxima do marrom escuro.

Devido a essas características, o vinho de Falerno era tão longevo que Plínio chegou a comentar que a famosa safra de 121 a.C., dita Opimiana, ainda era bebível 200 anos depois. Segundo Marcus Terentius Varro, historiador romano, esse era o único vinho capaz de envelhecer bem e, com isso, ganhar valor. Vale lembrar que a maioria dos vinhos da época era bebida jovem, pois se tornava intragável com o tempo. Falerno, com isso, chegou a ser “exportado” por todo o Império, chegando até a Grã-Bretanha.

Cláudio Galeno, filósofo e médico particular de Marco Aurélio, foi um dos últimos a citar o vinho de Falerno em seus escritos. Ele escreveu o De Antidotis, um livro que, entre outras coisas, dizia como evitar o envenenamento por bebidas, mas também conta nele uma degustação em que provou diversas safras do Faustian Falernum, atestando que todas estavam sublimes, doces, sem amargor, mesmo as mais antigas.

Falerno del Massico

Com a derrocada do Império, o vinho de Falerno também perdeu força e praticamente desapareceu. Só muito recentemente o nome reviveu em uma DOC chamada Falerno del Massico, instituída em 1989, que pode produzir um vinho branco de Falanghina ou tinto com Aglianico e Piedirosso.

Por Arnaldo Grizzo

Publicado em 1 de Julho de 2016 às 17:00


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