O olival que deu vinho

No lugar onde a produção de azeitona era predominante, a família Gaja ergueu sua mais nova vinícola, Ca'Marcanda


Ca’Marcanda significa “casa das negociações sem fim”

Basta dizer o nome Gaja para que se crie uma atmosfera cheia de expectativas boas. Vista como um fenômeno do mundo do vinho, a família Gaja geralmente é associada à região de Piemonte, onde fez fama e conquistou prestígio. Mas sua vinícola caçula, a Ca’Marcanda, também carrega o nome e um dos ingredientes que fizeram os Gaja especiais: as peculiaridades. Sua história, construção e formato nada têm de comum.

Para fazer o projeto, Gaja chamou o arquiteto Giovanni Bo, um piemontês que trabalhava com ele desde 1982 e sabia exatamente o que o produtor queria

Era uma vez
Em 1996, buscando expandir os negócios para outra região que não Piemonte, onde têm uma tradição secular, os Gaja encontraram na Toscana – mais precisamente na comuna de Castagneto Carducci – um lugar de enorme potencial. Nos dias quentes, a região é refrescada pela brisa marítima do Mediterrâneo e durante a noite o clima arejado permanece.

Casa é cercada por cerca de 300 oliveiras centenárias

O nome Ca’Marcanda vem do dialeto piemontês ca’ (casa) e mardandè (pechinchar) que ganhou o sentido de “casa das negociações sem fim”, uma menção à dificuldade que Angelo Gaja teve ao adquirir a propriedade, que antes era um olival e um pomar, com poucos hectares destinados à plantação de videiras. Ao todo, foram 18 viagens até que o antigo dono decidisse vender sua propriedade de 250 acres.

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Esculturas e pinturas, de estilo moderno, foram produzidas por Giovanni Bo e amigos

Harmonia
Imediatamente após comprar o terreno, Gaja ligou para o arquiteto Giovanni Bo, um piemontês que trabalhava com ele desde 1982 e sabia exatamente o que o produtor queria e, principalmente, do que ele precisava.

O cenário da futura vinícola era digno de cinema. Oliveiras, vinhas, carvalhos e vegetação mediterrânea típica e exuberante, que dinamizavam a paisagem e casavam perfeitamente com a luz intensa da Toscana. E todas estas cores, vivas e alegras, contrastavam com o verde / marrom quase preto das árvores ciprestes e o verde acinzentado das oliveiras. Ao deparar-se com toda essa beleza, Bo não encontrou outra maneira de aproveitar a natureza senão integrando-a com a vinícola, que de longe lembra um iceberg imerso numa imensidão verde. Todo o trabalho feito por ele, desde as etapas iniciais, como a escolha do projeto, até as finais, como o revestimento da casa, teve o cuidado de minimizar o impacto e manter o equilíbrio ambiental do lugar.

Para iluminar o andar térreo, além de janelas e grandes portas de vidro, em alguns pontos foram usadas coberturas transparentes, para que a luz do dia clareie o ambiente, sem usar eletricidade

A casa
Nos mais de 9 mil metros quadrados, é quase impossível encontrar a entrada da Ca’Marcanda. A casa, q u e começou a ser construída em 1998, ficou pronta três anos mais tarde, em 2001. A inauguração, no entanto, foi deixada para 2002, data em que o primeiro vinho produzido na Toscana começou a ser comercializado. A safra era de 2000.

Dois dos três andares da vinícola são subterrâneos

Durante a edificação foram usadas diversas ideias mais ousadas, que deram a cara dos Gaja ao projeto. A maior parte da vinícola é subterrânea (a construção foi feita num “buraco” de cerca de 7,30 m). São dois andares abaixo do solo e um acima dele. Nos entornos da casa, tudo verde. A fim de preservar o aspecto ambiental da vinícola, apenas o caminho que leva à entrada principal é cimentado. Os demais lados estão em contato com a grama e, assim sendo, completamente integrados à natureza.

Cercando a vinícola e delimitando sua área estão cerca de 300 oliveiras centenárias, todas tiradas do espaço onde agora estão os vinhedos, e replantadas a fim de isolar a casa e garantir a temperatura adequada para a produção dos vinhos.

Detalhes
A decoração da Ca’Marcanda tem alguns aspectos diferenciais, que fazem o visitante olhá-la de outra maneira. Primeiramente, toda a fachada da vinícola foi coberta com as pedras encontradas no próprio solo durante a escavação para a construção dos subsolos, lembrando os casarões da Idade Média.

Na parte interna ficou decidido que não haveria nenhuma hierarquia nas salas. Ou seja, todas teriam o mesmo acabamento. Os mesmos materiais – pisos, pintura das paredes, janelas – seriam usados em todos os cômodos. Em qualquer espaço tem-se o piso de basalto vulcânico vindo da República Tcheca, idêntico ao usado na vinícola de Barbaresco, as mesmas colunas romenas e iluminação idêntica. As esculturas e pinturas, de estilo moderno, foram produzidas pelo próprio Giovanni Bo e alguns de seus amigos.

A preocupação com o meio ambiente não se ateve, apenas, em manter a vegetação local. Para a iluminação do andar térreo, além de janelas e grandes portas de vidro, em alguns pontos foram usadas coberturas transparentes, para que a luz do dia clareie o ambiente e não seja preciso usar eletricidade.

Carolina Almeida

Publicado em 20 de Julho de 2011 às 06:23


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Artigo publicado nesta revista