Degustação

Os 20 vinhos que marcaram a história de uma das maiores importadoras do Brasil


 A World Wine é uma das maiores importadoras brasileiras e representa mais de 200 produtores . Ela mantém permanentemente em estoque cerca de dois mil rótulos diferentes e entre 400 e 500 mil garrafas de vinho.

“Todos os eleitos são relações familiares”. Os eleitos, no caso, foram os 20 produtores selecionados para a degustação organizada especialmente para ADEGA, em comemoração aos 20 anos da importadora World Wine, completados em 2019 (ver resenhas dos vinhos ao final). O comentário é de Celso La Pastina, que comanda tanto a World Wine como a La Pastina, que vende ampla linha de produtos alimentícios, inclusive com marca própria, além de vinhos, fundada em 1947 por seu pai, Vicente, já falecido. Além de Celso e da irmã, Vera Lúcia, sua esposa, Liliane e dois dos filhos de seu primeiro casamento, Juliana e Jeremias, integram a diretoria da empresa. 

A World Wine nasceu do crescimento do consumo de vinhos no Brasil, a partir da abertura iniciada no governo Collor. Depois de comandar o ingresso da La Pastina nesse mercado, Celso passou a se interessar cada vez mais por vinho (“virei enófilo”, diz), ainda que, numa família de origem italiana como a sua, a bebida sempre tenha estado presente à mesa, obrigatória nos almoços dominicais. Outra razão, como ele mesmo explica, foi “focar em vinhos de qualidade, trabalhar com marcas que não as já comercializadas pela La Pastina e vender para o consumidor final”. Tanto que, dois anos após a fundação da empresa, a World Wine abriu sua primeira loja. Hoje, são 11 lojas próprias espalhadas pelo Brasil. 

Para formar o portfolio inicial da World Wine, Celso preferiu confiar mais em seu gosto pessoal e intuição do que na ajuda de consultores especializados. Mas faz questão de mencionar dois nomes que, segundo ele, fazem parte da história da empresa: um é o enólogo italiano Alberto Antonini (três das vinícolas de que é sócio ou consultor, Poggiotondo, Altos Las Hormigas e a uruguaia Garzón são representadas pela World Wine e foram protagonistas da degustação); o outro é o francês, radicado no Brasil, Jacques Trefois, seu amigo, grande conhecedor do mercado e um dos primeiros a valorizar produtores adeptos dos vinhos naturais ou orgânicos, tão em moda atualmente.  

Hoje, a World Wine é uma das maiores importadoras brasileiras e representa mais de 200 produtores (pouco mais da metade apenas de Bordeaux, uma de suas especialidades). Ela mantém permanentemente em estoque cerca de dois mil rótulos diferentes e entre 400 e 500 mil garrafas de vinho, em seu moderno centro de distribuição no bairro da Móoca, em São Paulo, onde também fica administração da empresa.  

Celso mantém relações pessoais e tem muitas histórias para contar sobre cada um dos produtores selecionados para comemorar os 20 anos de fundação da World Wine. E basta um exemplo para mostrar o quanto sua afirmação inicial é verdadeira. O francêPhilippe Pacalet, um dos grandes nomes da Borgonha, referência nos chamados vinhos naturais, é padrinho de seu segundo casamento. 

Nós e mais seis clientes da World Wine participamos da degustação, conduzida impecavelmente pelo sommelier André Zangerolamo e comentada pelo próprio Celso, que fez questão de situar cada produtor representado na história desses 20 anos da World Wine 

 

 

Herdade do Rocim Amphora Branco 2017  - (AD: 92 pts)

Herdade do Rocim, Alentejo, Portugal - World WineR$ 238

Este vinho já havia sido resenhado por Felipe Granata e confirmei a pontuação conferida. Combina o quente do Alentejo, com a elegância dos grandes brancos e rusticidade do método ancestral de produção em talhas de barro (ânforas). Nariz e boca trazem mexerica madura e ervas. A acidez vibrante com perfil cítrico é o grande destaque ao fim de boca. Um grande acompanhamento para uma picanha suína. 

 

 

Balthasar Ress Orange 2016 - (AD: 94 pts)

Balthasar RessRhein, Alemanha - World Wine, R$ 340

Pude me deliciar mais uma vez com este vinho e comprovar que sua tendência é só melhorar em garrafa. Guilherme Velloso descreveu o diferenciado aroma de caju. Tem a terra e a oxidação dos vinhos laranja, com uma sutileza e elegância que acredito virem do uso de Pinot Blanc e Riesling, uvas raras nos laranjas. Pena que vieram tão poucas garrafas para o Brasil. Espero que a próxima safra comprove o que sentimos neste 2016. Uma das minhas surpresas no ano. 

 

 

Hugel Riesling “Grossi Laüe” 2011 - (AD: 93 pts)

Hugel & Fils, Alsácia, França - World Wine, R$ 680

Para os fãs de Hugel, este é antigo Jubilee. Restaura o termo Grossi Laüe, que equivale ao Grand Cru na Borgonha. E é o Jubilee mesmo, com a assinatura de calor e corpo mais guloso que outros Rieslings alsacianos. Frutas maduras em pêssego e um toque de abacaxi. Tudo envolto em florais, frescor e na mineralidade dos grandes Rieslings. Com oito anos de idade está desabrochando e espero voltar a bebê-lo com mais de 20 anos de idade. 

 

 

Terra Rossa Primitivo 2014 - (AD: 90 pts)

Terra RossaPuglia, Itália - World Wine, R$ 298

Eduardo Milan já havia resenhado este vinho quando chegou ao Brasil e eu endosso sua pontuação. Aqui encontramos um equilíbrio que falta tantas vezes aos Primitivos. O segredo está, sem dúvida, na capacidade das parreiras antigas (40 a 60 anos) de se autorregularem. Além do belo floral, uma de suas virtudes aos cinco anos de vida está na textura de taninos e, sobretudo, no fim de boca, que, ao invés do dulçor e da geleia encontrados em muitos exemplares dessa uva, revela vibrantes especiarias doces. 

 

 

Altos Las Hormigas Malbec Appellation Gualtallary 2014 - (AD: 94 pts)

Altos Las Hormigas, Valle de Uco, Mendoza, Argentina - World Wine, R$ 296

Alberto Antonini deixa o solo com grande presença de calcário falar neste vinho. Frutas vermelhas e negras, mas, acima de tudo, um vibrante floral de violetas e as cinzas frias que o Eduardo Milan adora. Muito mineral, alegre acidez, deliciosa rusticidade e taninos poderosos. Uso de barrica cirúrgico, com estágio de 18 meses em foudres de 3.500 litros. Vai durar para sempre. 

 

 

Poggiotondo Chianti Riserva "Vigna delle Conchiglie" DOCG 2009 - (AD: 94 pts)

PoggiotondoChianti, Toscana, Itália - World Wine, R$ 581

Já havíamos identificado, na safra anterior deste vinho, um caminho para a revolução do Chianti. O nariz é inebriante, daqueles que encantam e fazem que se volte à taca mais e mais. Sangiovese com a textura de taninos e os traços terciários e terrosos que só os melhores toscanos oferecem. O conforto da fruta vermelha madura sem apelar para o dulçor. A pimenta preta domina o fim de boca, após uma camada de tabaco. 

 

 

Odfjell Cabernet Sauvignon 2012 - (AD: 93 pts)

Odfjell, Vale de Maule, Chile - World Wine, R$ 510

Esta linha da vinícola gera, a cada safra, um vinho distinto, proveniente do que avaliaram ser a uva que mais se destacou. Eu costumo torcer pela Carignan, mas que felicidade ter este Cabernet Sauvignon. Laurence Odfjell sempre busca fazer um grande Cabernet Sauvignon fora do Maipo e acredito que deva estar orgulhoso. E tem motivo para isso. Tem o mentol sem excessos, com a tradicional goiaba do Cabernet chileno. A textura de taninos é deliciosa. Frutas negras, com muito anis e groselha em boca, temperados por pimenta e um toque defumado. Que companhia para um churrasco com carnes não gordurosas, e sim marmorizadas! 

 

 

Château Le Puy Emilien 2003 - (AD: 96 pts)

Château Le PuyBordeaux, França - World Wine, R$ 1.280

Poucas pessoas no Ocidente degustaram esta safra deste vinho, que virou uma febre após ser considerado As gotas de Deus numa famosa história de mangá japonês. O produtor Jean Pierre Amoreau acredita que a energia de seu vinho vem de um “Stonehenge” que ele mantém intocado em sua propriedade. Musgo, ervas e terroso. Um vinho puro hoje e sempre. Os taninos têm o melhor que Bordeaux pode oferecer de couro, terra e cogumelos, mas com uma leveza impressionante. Um vinho para ser cultuado, que não ouso harmonizar com nada, com medo de perder alguma de suas nuances. A cor mostra a delicadeza de sua elaboração. Delicioso hoje e pronto para mais 10 anos. A passagem de 24 meses em barrica dá suporte, mas não marca o vinho. 

 

 

Philippe Pacalet Charmes-Chambertin Grand Cru 2010  - (AD: 95 pts)

Philippe PacaletGrevrey-Chambertin, Borgonha, França - World WineR$ 3.610

Este vinho natural tem cor delicada, acompanhada da força que mostra a Borgonha em sua essência. A assinatura de Pacalet é evidente na fruta, e permitiria identificar o enólogo às cegas. Framboesa viva, rosa e terroso. Estrutura com lindos taninos que mostram, ao mesmo tempo, elegância e potência, tipicidade do Chambertin, vinho tinto preferido de Napoleão. 

 

 

 

Bruno Rocca Barbaresco Rabajà DOCG 2015 - (AD: 92 pts)

Bruno RoccaBarbaresco, Piemonte, Itália - World Wine, R$ 798

Potente. Nariz com morango e cerejas maduras. A madeira aporta um traço de lácteo e defumado. Bastante especiarias. Perfil exuberante. A textura de boca e a vibrante acidez que sustenta o conjunto são suas grandes qualidades nessa fase da vida. Vai evoluir lindamente e melhorar a cada ano. Sugiro ter paciência e só abrir a partir dos 10 anos de idade, em 2025, até 2035. 

 

 

Colección Vivanco Parcelas de Graciano 2007 - (AD: 93 pts)

Bodegas VivancoRioja, Espanha - World Wine, R$ 668

Neste vinho subi um ponto acima da pontuação dada pelo Eduardo Milan em abril de 2018. Intenso floral e especiarias doces. Em boca, é poderoso, com fruta deliciosa, cânfora, acidez vibrante e uso exuberante de madeira da Rioja realizado em perfeição. Consegue toda esta celebração sem perder a elegância e mineralidade. Um caso clássico de equilíbrio no andar de cima, e que aos 12 anos promete mais uma década no caminho ao apogeu. Um vinho para a adega. 

 

 

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 2005 - (AD: 96 pts)

Marques de Murrieta, Rioja, Espanha - World Wine, R$ 990

Já degustado por Eduardo Milan e merecedor dos mesmos 96 pontos, foi descrito por Guilherme Velloso como um “clássico dos clássicos”. Consegue todas as proezas do conterrâneo que degustamos antes, com um estilo absolutamente clássico (perdão a repetição da palavra, mas não há descritivo melhor). Um exemplo de interpretação de terroir e definição de caminho. Tem textura elegante, perfil terroso, uso de madeira perfeito e consegue manter a fruta límpida após 14 anos, revelando um vinho criado para durar para sempre. 

 

 

Quinta da Falorca Garrafeira Old Vines 2011 - (AD: 93 pts)

Quinta da Falorca, Dão, Portugal - World Wine, R$ 550

Este corte, com base na Touriga Nacional (75%) apresenta frutas maduras no nariz e em boca. Tudo amparado pela madeira e taninos rugosos e presentes. Tem a tradição e toques mais rústicos que no Dão convertem-se em elegância com os anos. Traz o floral tão característico da Touriga Nacional em seu berço. Vai abrindo em taça e se mostrando cada vez mais complexo e floral. Frutas azuis como mirtilo maduro vão aparecendo aos poucos e dominando o espectro. 

 

 

CARM CM 2011 - (AD: 94 pts)

CARM, Douro, Portugal - World Wine, R$ 762

Esta maravilhosa safra de 2011 tem a assinatura da textura exuberante de taninos e fruta colhida em maturação perfeita, sem perda de acidez. Fruta límpida do suco de cereja madura com caroço. Toques de casca seca de frutas cítricas e um sabor guloso e inebriante que o torna um vinho para experts, mas que vai apaixonar também novatos. Delicioso hoje e por, no mínimo, mais uma década. 

 

 

Garzón Petit Clos Cabernet Franc 2017 - (AD: 93 pts)

Bodegas Garzón, Maldonado, Uruguai - World Wine, R$ 328

Este single block revela a tipicidade que criou o culto a esta variedade na América do Sul. Balsâmico e tabaco, sem perder a fruta de cereja e amoras. Mais vinoso, mais animal e mais extremo do que em safras anteriores. Adoro esta tensão dos taninos marcados, mostrando que a terra do Tannat vive neste Cabernet Franc. 

  

 

 

Château de Beaucastel Châteauneuf-du-Pape 2016 - (AD: 95 pts)

Château de BeaucastelRhône, França - World WineR$ 1.090

Um suco de frutas vermelhas maduras com toque de cravos. Um vinho jovem, mas com a elegância característica de Beaucastel. Já pode ser apreciado desde cedo, mas vai melhorar a cada ano e recomendo este vinho para 2036. Frutado e saboroso, terroso e equilibrado, com taninos polidos e deliciosa acidez. Estrutura e equilíbrio de mãos dadas. 

 

 

Château La Mission Haut-Brion 2010 - (AD: 98 pts)

Château La Mission Haut-Brion, Bordeaux, França -World Wine, R$ 12.222

Sempre um privilégio degustar este vinho, que é uma definição de nobreza em formato líquido. Top model com perfeição em cada ângulo. No nariz, traz as frutas vermelhas puras e feno. Esbelto, elegante, mas com a força de músculos tonificados. Taninos sedosos e um princípio de toques de estrebaria. O La Mission Haut-Brion foi o único vinho ao qual já dei 100 pontos duas vezes, para as safras 1963 e 1989. 2010 foi uma belíssima safra e acredito que posso revisitar esta pontuação quando ele chegar aos 30 anos de idade.  

 

 

Château Belair Monange 2009 - (AD: 94 pts)

Château BelairSaint-Émilion, Bordeaux, França - World Wine, R$ 1.900

A fruta suculenta do Merlot com o tempero animal do Cabernet Franc. Uma salada de frutas vermelhas e pretas, cerejas, framboesas e groselhas maduras. Em taça, abre-se a ervas aromáticas secas, notas defumadas e chocolate. Os taninos polidos e maduros são um show à parte. 

 

 

 

Domaine Valette Pouilly-Fuissé Le Clos de Monsieur Noly 2005 - (AD: 97 pts)

Domaine Valette, Borgonha, França - World Wine, R$ 990

Imagine emocionar-se com um branco após um La Mission Haut-Brion. A família Valette tem o diferencial de manter seus vinhos por muitos anos em barricas antigas, antes de engarrafar e lançar ao mercado. Este foi guardado por 60 meses. O melhor vinho branco deste ano. Frutas secas, damasco, mel e incenso. A boca é incrível, com final de nozes, amêndoas, tons terrosos e cinzas. Muito mineral. Poético. A acidez é um soco seguido de um carinho. 14 anos de vida e muitos pela frente, mas a única forma de resistir à tentação e esperar é colocar a garrafa num cofre e jogar a chave fora. Não é barato, mas uma pechincha considerando o que oferece. 

 

 

Porto Krohn Colheita 1982 - (AD: 94 pts)

Weise & Krohn, Douro, Portugal - World Wine, R$ 5.533

Esta safra não foge ao DNA. Já demos 97 pontos para o 1961 e os mesmos 94 pontos para o 2000 deste Colheita. Este 1982 ficou aproximadamente 36 anos em barris antes de ser engarrafado em 2018. Aromas de frutas secas, damascos, ameixas e uvas passas. É uma criança de tão vivo, vibrante e alegre. As frutas secas e amêndoas o seguem por toda a jornada da degustação. Sem nenhuma concessão ao apelo de açúcar ou excesso de oxidação. Equilíbrio total. 

Da redação

Publicado em 17 de Fevereiro de 2020 às 17:35


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