Degustação

Há vinhos bons no supermercado?

Venda de vinhos em supermercados cresceu e fomos descobrir os porquês


Deixando as reflexões eleitorais de lado, não dá para negar a sabedoria do ditado “o povo tem sempre razão”. Nos últimos anos, o maior crescimento de vendas de vinho está sendo visto nas prateleiras dos supermercados. Em um primeiro momento, alguns sábios do mercado olharam o caso com desconfiança, e uma grande dose de preconceito. Nós, porém, decidimos acompanhar o fenômeno despidos de pré-julgamentos em relação aos vinhos, ainda mais quando recebemos muitas fotos de prateleiras de supermercados com os vinhos exibindo orgulhosamente pontuações de ADEGA e de Descorchados.

Preconceito com o consumidor que compra nos supermercados tentando classificá-lo como “gente que não entende de vinho” seria ainda mais ignorante. Basta lembrar que, quando viajo para os Estados Unidos, longe da comodidade e plenitude de minha adega particular, compro muito nas prateleiras da Whole Foods e do Publix. Se tiver mais tempo, é claro que vou me divertir na Wine Total...

Por isso, não foi surpresa quando, conversando com o mestre Carlos Cabral, consultor de vinhos do Grupo Pão de Açúcar, captamos sua visão de que as pessoas começam no supermercado e, para ele, “é perfeitamente normal, pois até quem já gosta de vinho compra no dia a dia no Pão de Açúcar e, no fim de semana, na Mistral”. Junte a isso o fato de que mais de 90% do vinho no mundo é comprado para ser consumido em até 72 horas e pronto, nossa curiosidade não nos permitia fugir de visitar supermercados para observar e aprender com o consumidor. Dessa forma, inserimos vinhos de diversos supermercados em nossas degustações às cegas e tivemos muitas surpresas positivas, que fomos compartilhando em nossas páginas com vocês durante o ano.

Consultoria

Em seguida surgiu o convite para ir ao Chile acompanhando Cabral para ver onde ele garimpa os vinhos que escolhe para as prateleiras. Era a chance do tira-teima. Era hora de encontrar os enólogos que geralmente querem nos apresentar seus vinhos mais icônicos (e até por isso mais caros), mas focar nos vinhos que estão ajudando a levar o consumo do vinho no Brasil para um outro patamar. Alguns dias, horas de conversa e dezenas de vinhos depois, o quadro estava claro: a técnica, a tecnologia e o conhecimento aplicados nos vinhedos e nas vinícolas elevou a qualidade média dos vinhos em todas as faixas. Nunca foi tão verdadeira a frase: “não é preciso gastar muito para tomar um bom vinho”. Afinal, os conhecimentos descobertos na elaboração dos grandes ícones estão sendo empregados também na elaboração de rótulos mais acessíveis. Muito disso se deve ao estilo que felizmente está ganhando cada vez mais adeptos entre os melhores enólogos do mundo: a elaboração de vinhos mais francos, não mascarados pela madeira, que valorizam a fruta e o equilíbrio.

Comprar vinho barato é sabedoria, e não crime. Inaceitável é comprar vinho ruim, qualquer que seja o preço ou desconto

Há uma década, nas categorias de base buscávamos pelos vinhos sem defeitos. Hoje, assumimos que isso deve ser a regra e buscamos vinhos com virtudes. Parece pouco, mas é um salto de qualidade fenomenal. Mas todos os vinhos de base estão ótimos? Certamente não, e por isso as boas indicações e a boa curadoria têm muito valor.

De quebra, nesta viagem tivemos a oportunidade de degustar em primeira mão o rótulo feito em comemoração aos 20 anos do trabalho do Carlos Cabral como especialista de vinhos do Pão de Açúcar. Nestas duas décadas, Cabral revolucionou a forma como se vende vinhos no Brasil. Grande amigo, ele teve um papel fundamental na história do vinho em nosso país e também na história de ADEGA. Diversas vezes, no começo, ouvi dele: “Siga em frente menino”. Foi também a ele que recorri buscando a indicação de um degustador capaz, que escrevesse bem, que não prestasse consultoria para vinícolas e importadores e, sobretudo, que estivesse aberto a focar nos vinhos brasileiros numa época em que os degustadores tinham preconceito e torciam o nariz para prová-los. Durante todo o tempo em que degustou para ADEGA, Sílvia Mascella Rosa se referia a ele como “nosso padrinho”.

VINHOS AVALIADOS

SANTA RITA

AD 89 pontos 120

RESERVA ESPECIAL CABERNET SAUVIGNON 2016

Santa Rita, Vale Central, Chile. Um excelente exemplo do Cabernet Sauvignon chileno com estilo Maipo. Boa fruta de ameixa, um perfil de ervas e taninos que pedem um churrasco de picanha. CB

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AD 88 pontos

120 RESERVA ESPECIAL CHARDONNAY 2016

Santa Rita, Vale Central, Chile. Um Chardonnay “text book”, ideal para quem está começando. Tem vibração e muita fruta com perfil maduro. Guloso, aveludado e o perfil do bom correto de aduelas. CB

AD 89 pontos

120 RESERVA ESPECIAL SAUVIGNON BLANC 2016

Santa Rita, Vale Central, Chile. Que surpresa. Um bom exemplo de fruta de alta qualidade, fresco, límpido e elegante. Pêssego fresco e mamão. Tudo nele confirma a uva de climas mais frios de Casablanca e Vale de Aconcágua. CB

AD 94 pontos

CASA REAL 2013

Santa Rita, Maipo, Chile. Profundo como sempre. Mentolado, suco de cereja fresca. Taninos deliciosos e destaco a pimenta negra que é a alma do vinho, acompanhada do boldo do Chile ao final de boca. A vibração da acidez marca este, que é um dos melhores Cabernets do Chile, e garante sua evolução por muitos anos. CB

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AD 91 pontos

FLORESTA SAUVIGNON BLANC 2015

Santa Rita, Leyda, Chile. Um Sauvignon Blanc de Leyda, com produção de apenas 6 mil garrafas. Austero, com bela estrutura e perfil que privilegia a grama cortada ao invés da fruta tropical. Muito cítrico, com a parte branca do limão. CB

AD 89 pontos

SECRET RESERVE RED BLEND 2015

Santa Rita, Maipo, Chile. 53% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 15% Syrah, 7% Petit Verdot e 3% Carménère. Um excelente exemplar para mostrar a complexidade e as camadas que só os blends proporcionam. O retrogosto é muito rico, com o perfil do eucalipto que durante anos foi a assinatura do Cabernet Sauvignon do Chile. CB

AD 89 pontos

SECRET RESERVE WHITE BLEND 2016

Santa Rita, Curicó, Chile. Enorme surpresa em sua faixa de preço (R$ 49). Este corte de 77% Riesling, 15% Viognier, 5% Chardonnay e 3% Sauvignon Blanc de Curicó e Pumanque. Gostei do uso de aduela sem tosta, mais complexo. No nariz, a fruta indica dulçor, mas, na boca é muito seco, cítrico a laranja com “lemon grass”, gastronômico, mineral e salino. CB

LUIS FELIPE EDWARDS

AD 90 pontos

360O SERIES CARIGNAN 2014

Luis Felipe Edwards, Maule, Chile. Carignan de Maule já começa com o pé direito. A compreensão do enólogo o leva ainda mais adiante, valorizando a fruta fresca, equilíbrio e esbelto do começo ao fim. Um toque rústico, com textura a giz e exímio uso de madeira. Para completar, é um exímio companheiro para a mesa. CB

AD 89 pontos

360O SERIES MONASTRELL 2015

Luis Felipe Edwards, Maipo, Chile. Um belo vinho para iniciados pela qualidade da fruta e ligeiro amargor, que nesta medida é encantador. Equilibrado, vibrante e gastronômico. CB

AD 89 pontos

360O SERIES TEMPRANILLO 2014

Luis Felipe Edwards, Colchagua, Chile. Um belo Tempranillo, dos poucos que provei de Colchagua. Tem força, tipicidade, textura de taninos, pureza de fruta e boa acidez. Consegue combinar suculência e estrutura. CB

AD 89 pontos

LASTARRIA GRAN RESERVA CABERNET SAUVIGNON 2015

Luis Felipe Edwards, Maipo, Chile. Outro que vale bem mais do que custa! Belíssimo perfil de Cabernet Sauvignon nesta faixa de preço. Vibrante, com boa estrutura e muito boa tipicidade com fruta, mentolado e boldo do Chile. CB

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AD 92 pontos

LFE 100 CIEN CARIGNAN 2012

Luis Felipe Edwards, Maule, Chile. É Maule! Um Carignan de guarda que faz suspirar como um “Halls” preto de tanta potência no mentolado, fruta vermelhas e taninos excepcionais. Vai se abrindo em camadas e fica melhor a cada gole. CB

AD 89 pontos

MAREA VALLE DE LEYDA SAUVIGNON BLANC 2017

Luis Felipe Edwards, Leyda, Chile. Segue o perfil dos melhores da Nova Zelândia no nariz e, na boca, é crocante, vibrante, com fruta tipo pera e pêssego. Acidez vibrante e final de grama cortada que ajuda a equilibrar o paladar. CB

AD 91 pontos

MAREA VALLE DE LEYDA SYRAH

2014 Luis Felipe Edwards, Leyda, Chile. A localidade de seus vinhedos é descrita como “Valle de Leyda extremo”. Um Syrah puro-sangue com cereja, toque animal e a desejada pimenta preta. Estrutura, taninos, boa textura e muito boa acidez. Pede aquela picanha. CB

AD 88 pontos

RESERVA RED BLEND 2016

Luis Felipe Edwards, Maipo, Chile. Um tesouro nesta faixa de preço. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Carménère. Equilibrado, com muita vivacidade, fruta tipo ameixa e cereja. Tudo ladeado por bons taninos. CB

AD 88 pontos

ROSA BLANCA 2015

Luis Felipe Edwards, Colchagua, Chile. Outra bela surpresa nesta linha reserva. Um orgânico à base de Carménère e Syrah de Colchagua. Encanta pela textura, pela estrutura e pela fruta de ameixa suculenta. CB

AD 88 pontos

VADO SPARKLING WINE MOSCATEL DOCE

Luis Felipe Edwards, Maipo, Chile. Guloso, com boa fruta, que encanta pelo mamão maduro e pêssego em calda. Tudo com bom equilíbrio e pedindo aquele bolinho de laranja no fim da tarde. CB

CARTA VIEJA

AD 88 pontos

AVES DEL SUR CARMÉNÈRE 2017

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. Personalidade característica da pimenta e especiaria do Carménère. Bons taninos e boa fruta vermelha, com destaque para a cereja. CB

AD 88 pontoos

AVES DEL SUR CHARDONNAY 2017

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. A linha Aves del Sur tem rótulos tão lindos que dá vontade de comprar para colecionar. Também o torna um belo vinho para chegar naquele jantar na casa dos amigos. Muito boa fruta, com abacaxi maduro, papaia e mexerica no retrogosto. Bom volume de boca e suculência. CB

AD 87 pontos

AVES DEL SUR SAUVIGNON BLANC 2017

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. Devido ao ano muito quente, um Sauvignon muito tropical, até demais. CB

AD 89 pontos

AVES DEL SUR GRAN RESERVA CABERNET SAUVIGNON 2015

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. A estrela da linha Aves del Sur. Bela fruta, ameixa acompanhada de pimenta negra. Boa estrutura. Perfil mentolado. Boa acidez e taninos finos. Para aquecer aqueles dias frios com seus 14,5% de álcool. CB
AD 88 pontos

AVES DEL SUR RESERVA CABERNET SAUVIGNON 2015

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. O melhor da linha básica. Com bela tipicidade. Tem o mentolado e a goiaba que marcam o Cabernet do Chile. Ainda ameixa e amora com boa estrutura de taninos e equilibrado pela acidez. CB

AD 88 pontos

AVES DEL SUR RESERVA SAUVIGNON BLANC 2015

Carta Vieja, Loncomilla, Chile. Aspargos e fruta madura (pêssego). Tem uma estrutura e volume de boca. Untuosidade. Um vinho que esquenta. CB

VIA WINES

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AD 88 pontos

CHILENSIS RESERVA CHARDONNAY 2016

Via Wines, Maule, Chile. A fruta é muito boa e integrada neste branco de 2016. Pêssego com muito bom equilíbrio pelo frescor. Um vinho vibrante e suculento, muito gostoso de beber. CB

AD 88 pontos

EUPHORIA CABERNET SAUVIGNON - SYRAH 2016

Via Wines, Maule, Chile. Gostei do vinho porque tem muito boa fruta e o toque de especiarias, de pimenta, do Syrah. No fim de boca, aspargos e taninos que pedem uma carne grelhada suculenta. CB

AD 88 pontos

EUPHORIA GRAN RESERVA CABERNET FRANC - CARMÉNÈRE 2017

Via Wines, Maule, Chile. Delicioso. Tem vibração com um toque de rusticidade que o torna ainda mais interessante. Bons taninos que amparam a fruta, ameixa, e um toque de morango. CB

Christian Burgos

Publicado em 1 de Janeiro de 2019 às 17:00


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Artigo publicado nesta revista