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  • História do vinho

    Pioneiros do vinho

    Os primeiros registros da produção de vinho, bebida há séculos difundida pelo mundo, estão em tumbas e monumentos do Egito Antigo

    por Felipe De Queiroz

    Ilustrações: Douglas Fernandes

    Pictogramas mostram em detalhes todo o processo de produção do vinho desde o cultivo. Historiadores afi rmam que as técnicas vitivinícolas dos antigos egípcios já eram extremamente avançadas

    Berço da humanidade e uma das mais imponentes civilizações do mundo, o Egito tem, também, papel fundamental na história do vinho. Não foram cultivadas lá as primeiras uvas, mas é nesta localidade ao norte da África onde estão os registros mais antigos da produção e do consumo da bebida.

    Em intrigantes pinturas estilizadas, chamadas de pictogramas - feitas com um estilete sobre argila molhada nas tumbas de faraós, nobres e artesãos -, estão as primeiras representações dessa bebida milenar.

    Incrível é saber que todas as informações registradas à época (por volta de 3 a 5 mil anos atrás) mostram métodos de produção com tecnologia surpreendentemente avançada. Os produtores da época conseguiam, quem diria, distinguir a qualidade dos vinhos com tanta convicção que eles não invejariam os enólogos modernos, se os tivessem conhecido. "Os egípcios contavam com especialistas que podiam diferenciar tipos de vinho com tanta certeza quanto um enólogo de Bordeaux do século XXI", opina o escritor e pesquisador inglês Hugh Johnson, em seu livro "A História do Vinho".

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    As imagens de vinho mais nítidas da época são as encontradas em tumbas de grandes autoridades, que supervisionavam os vinhos, e, com menos clareza, nas tumbas dos artesãos que tentavam reproduzir as videiras, que passavam grande parte de suas vidas trabalhando com elas, colhendo as uvas destacadas nas pinturas.

    Em muitas dessas imagens, podemos observar como eram produzidos os vinhos da antiguidade. Através dos vestígios arqueológicos, sabe-se também como a bebida era estocada, servida e consumida. Aliás, não fosse por um detalhe, seria fácil reproduzir o vinho da época, uma vez que as características da produção - com lodo fértil, irrigado e fertilizado com esterco - estão documentadas. O único problema seria descobrir o sabor da bebida, já que não se sabe quais eram as castas de uva utilizadas.

    Através das pinturas egípcias seria possível reproduzir o vinho feito na época. Só ficaria dúvida quanto ao sabor da bebida

    "Q"

    A PRODUÇÃO

    As pinturas encontradas revelam a engenhosidade dos egípcios na produção de vinho, ainda que deixem em aberto questões que dificilmente serão respondidas.

    Uma das sacadas deles foi colocar uma barra de ferro a uma altura um pouco acima da cabeça, no meio de uma tina aberta - algo similar à barra que seguramos nos ônibus -, que ajudava os trabalhadores a manter o equilíbrio enquanto pisavam em massas de uva escorregadias e suculentas.

    Certos pictogramas mostram a fermentação sendo iniciada já nos tanques onde eram realizadas as pisas, uma vez que se vê um suco escuro escorrendo delas e caindo diretamente nas jarras de fermentação. Já outras imagens causam estranheza em relação a determinadas etapas da produção. É sabido, por exemplo, que o Egito, por ser muito quente, produzia uvas que eram certamente colhidas maduras e muito doces. Sendo assim, surpreende a ausência de sinais que indiquem uma tentativa de resfriar o líquido durante a fermentação. Ao final, os jarros eram vedados com barro, processo tão eficaz quanto a hoje difundida rolha de cortiça.

    O CONSUMO

    O vinho era bebido em homenagem aos deuses, principalmente a Osíris, deus responsável pela vida das plantas e pela vida após a morte (daí as pinturas acompanharem as tumbas). Osíris, que era chamado de "senhor da bebedeira nos festivais" e "senhor das vinhas nas enchentes", foi, digamos, um antecessor do grego Dionísio e do romano Baco.

    O consumo do vinho era feito

    em homenagem ao deus Osíris,

    "antecessor" do grego Dionísio

    e do romano Baco

    As pinturas, cheias de flores e videiras, imortalizam em cores fortes as festas em que o atrativo maior era a bebida, não muito diferente do que vemos hoje. Vinhos diferentes eram misturados em uma jarra vazia e limpa e, às vezes, coados ao serem servidos em ânforas (vasos antigos), o que sugere que a fermentação produzia resíduos sólidos na bebida. Outra curiosidade está no fato de nem sempre o vinho ser consumido em cálices, sendo, muitas vezes, bebido em canudos colocados diretamente nas jarras.

    Hoje, milênios depois, os egípcios não produzem grandes vinhos e tampouco seguem sendo uma potência mundial. Mesmo assim, a história destes pioneiros segue viva, lembrando os feitos de um dos povos mais importantes para humanidade. Um povo que, além de fazer história, sabia aproveitar a vida.

    Confira mais matérias especiais do Almanaque do Vinho...

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