Revista ADEGA

Portugal em 7 atos

ADEGA aproveitou o encontro do grupo dos principais produtores de Portugal no Brasil para fazer uma viagem pelas suas regiões vinícolas mais famosas

Christian Burgos em 29 de Março de 2011 às 07:05

divulgação
Região dos Vinhos Verdes. Verde dos vinhos ou verde da paisagem?

O G7 é um grupo de importantes produtores portugueses que, desde o início dos anos 1990, promovem os vinhos de seu país mundo afora. No Brasil, os almoços do G7 foram, durante anos, a abertura não oficial da Expovinis para a imprensa especializada - eram o início de gala da maior feira de vinhos do país.

Recentemente, todas as cinco empresas do G7 estiveram no Brasil para mais um encontro com a imprensa, para divulgar o nome do vinho português em nosso mercado. Num mundo em que a capacidade de se reinventar para atravessar mudanças e evoluir sem perder seus valores originais é valorizado, o G7 é um exemplo a ser seguido e a prova de que a verdadeira tradição só se alcança com firmeza de propósito e perseverança.

O G7 reúne hoje cinco das mais prestigiadas vinícolas de Portugal - Aliança, Aveleda, Bacalhôa, José Maria da Fonseca e Messias - e que juntas cobrem as sete principais regiões vitivinícolas de Portugal: Alentejo, Bairrada, Dão, Douro, Lisboa, Península de Setúbal e Vinhos Verdes.

Sendo assim, aproveitamos esta rica conversa para fazer um passeio guiado pelo vinho português, conduzido por alguns de seus maiores guias.

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Minho, na parte noroeste de Portugal, onde fica a DO Vinhos Verdes, é uma das regiões mais tradicionais do país

Vinhos Verdes
Começando do norte de Portugal, a região demarcada dos Vinhos Verdes e seu vinho recebem este nome em homenagem às paisagens e vales férteis e verdes - segundo alguns especialistas -, ou pela característica de colheita prematura de suas uvas, responsável por sua característica acidez e delicioso frescor - segundo outros.

Além do frescor, o Vinho Verde apresenta tipicamente uma ligeira efervescência dando-lhe uma personalidade única e muito bem adaptada para harmonizar com peixes (não há como não ter em mente uma deliciosa sardinha acompanhada de Vinho Verde).

Rui Cunha
Cidade do Porto, que deu nome ao vinho mais famoso de Portugal

As castas típicas dessa região são o Alvarinho, Loureiro, Arinto e Trajadura. Martin Guedes, da vinícola Aveleda, chama a atenção para novidades na tradicional região dos Vinho Verdes: "Estamos produzindo vinhos mais Premium. A casta Alvarinho é fantástica e muito concentrada, o que nos permite fazer vinhos diferenciados. Agora estamos lançando os Vinhos Verdes rosés, que têm um estilo muito interessante, pois combinam a fruta do vinho rosé com a acidez que dos Vinhos Verdes".

DA GÊNESE AO BRASIL
O grupo foi formado em 1992 como caminho natural dos encontros com os proprietários e dirigentes de vinícolas que, unidos pela amizade, realizavam, em um sábado por mês, cada vez em uma vinícola, almoços e degustações de vinhos. "Este foi o período de grande transformação dos vinhos portugueses", conta Mário Neves, da Aliança.
Messias Vigário, das Caves Messias, aponta o princípio básico que os norteia: "Consideramos que juntos se faz melhor do que sozinhos, e tínhamos como ponto de partida o bom relacionamento entre as empresas. Sempre ouve uma dinâmica nos associados". Mas o objetivo, acima de tudo, era "unir empresas que representassem bem o que há de melhor em Portugal, num programa de construção de imagem no exterior", explica Neves.
Inicialmente o grupo apontou para vários países, mas seu foco hoje encontra-se no Brasil, Canadá e Estados Unidos, países que, embora tenham diferentes níveis de conhecimento sobre os vinhos portugueses, têm volume expressivo de consumo e muito potencial para os produtos de Portugal. António Maria da Fonseca, da José Maria da Fonseca, esclarece que "o Brasil tem um ótimo nível de conhecimento de Portugal. Nos Estados Unidos, há pessoas que não sabem sequer onde é Portugal, quanto mais as regiões e suas castas. No Brasil, partimos de um estágio de desenvolvimento muito mais à frente".
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Douro
Ainda no norte de Portugal, encontramos uma das mais especiais regiões produtoras do mundo, o Douro. Berço do Vinho do Porto, o Douro, nos últimos anos vem conseguindo se reinventar sem alterar sua tradição. Seus vinhos de mesa (não confundir com vinhos de mesa no Brasil - em Portugal, vinhos de mesa são vinhos tranquilos feitos de uvas vitisviniferas), sobretudo os tintos, certamente integrarão as grandes coleções de vinho de nosso século.

Vista da região do Douro, com seus socalcos

Visitar o Douro é sempre maravilhoso e, quando pensamos na região, logo surge em mente as encostas ao longo do rio, com seus famosos socalcos - patamares feitos pelo homem onde estão plantadas as vinhas. Esse sistema e a natureza de seu solo resultam naturalmente em baixa produção e, como ressalta Messias, "no Douro, o custo de produção é caríssimo e as condições se transformam completamente num raio de um quilômetro".

Um dos grandes atributo dos tintos do Douro é a harmonia entre maturação e acidez, que resulta em vinhos fortes e elegantes ao mesmo tempo, e cujos melhores representantes têm uma invejável longevidade. A novidade nesta região é a expansão de suas fronteiras rumo à Espanha, uma área mais ampla conhecida como Douro Superior, onde, segundo Messias, "os vinhos são mais maduros e têm uma identidade um pouco diferente dos vinhos do Douro. Quando caminhamos mais ao Douro Superior nos aproximamos das características dos vinhos do Alentejo".

Na região seria um sacrilégio não aproveitar seu mais nobre representante, o grande e único, Vinho do Porto, delicioso em qualquer de seus estilos, mas majestoso em seus Vintages, com destaque para as recentes safras de 2000 (histórica), a potente 2005, a elegante 2004 e "safra milagrosa" de 2007.

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Palácio de Buçaco, um dos grandes atrativos da Bairrada

Bairrada
Caminhando para o sul, encontramos a Bairrada, uma região extremamente pequena onde se destaca a casta tinta Baga, que é de difícil cultivo e de grande personalidade. Mário Neves aponta que, "na Inglaterra, a Baga é a casta portuguesa mais reconhecida. Lá há verdadeiros apaixonados por ela."

Durante anos, alguns bons produtores lutaram contra a produção de vinhos com baixa qualidade na região e provaram que era possível produzir grandes exemplares a partir de sua casta ícone, cujos taninos e acidez propiciam vinhos muito adequados a enogastronomia. Recentemente, foi liberada a utilização de outras castas na região, com destaque para Touriga Nacional, Tinta Roriz, Syrah e Cabernet Sauvignon. E Neves aposta que ouviremos falar muito bem da Merlot, "pois a Bairrada é uma região influenciada pelo mar e com temperaturas amenas. E a casta Syrah também tem dado alguns vinhos especiais".

Num passeio pela região, a possibilidade de se deleitar num almoço com o famoso "leitão da Bairrada" ou numa refeição rápida com seu "sandes de leitão" é imperdível.

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Dão
Vizinho a Bairrada temos uma das mais tradicionais regiões de Portugal, o Dão. Ela encerra uma riqueza turística muito especial. Hospedar-se e jantar na Quinta das Lágrimas e visitar a Universidade de Coimbra são obrigações em qualquer viagem que se preze. Mas o Dão reserva outros tesouros.

fotos: divulgação

Berço da Touriga Nacional, o Dão foi a região que selecionou menor número de castas para plantação e, juntamente com a Touriga, destacamos as tintas Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, e as brancas Encruzado, Verdelho e Malvasia Fina.

Para Messias, "o Dão é a terra da Touriga Nacional, é a região em que Touriga não atinge maturações tão grandes como Douro e Alentejo, mas consegue maturação mais equilibrada do que a Bairrada".

Torre de Belém, um dos cartões postais de Lisboa

Lisboa
Antigamente conhecida como Estremadura, hoje a região recebe seu nome por sua proximidade com a capital do país, que em algumas situações vem literalmente envolvendo e engolindo seus vinhedos. A DO Lisboa engloba as sub-regiões Encostas D'Aire, Óbidos, Alenquer, Arruda, Bucelas, Carcavelos, Colares e Torres Vedras.

O turismo é certamente uma vocação do lugar, seja saindo de Lisboa, seja hospedando-se em municípios vizinhos como a encantadora Vila de Óbidos, uma cidade murada medieval conservada. Pertencente à Bacalhôa Vinhos, do grupo Aliança, o Buddha Éden também vai surpreender quem visitar este enorme jardim budista em Loridos.

As sub-regiões da DO Lisboa são um caleidoscópio de características distintas, desde zonas mais quentes até um clima mais influenciado pelo mar; desde vinhos potentes a elegantes; de brancos a tintos; de castas internacionais - que aí se adaptaram muito bem - às castas típicas de Portugal - que aí encontram expressões especiais. Explorar as diversas tipicidades de seus melhores vinhos é fonte de grande prazer e descobertas.

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Alentejo
Esta grande região portuguesa já tem seus vinhos de qualidade reconhecidos pelos enófi los brasileiros e representou um grande avanço na moderna vitivinicultura portuguesa. Para Mário Neves, "os vinhos são excelentes, mas buscam seu estilo". O que provavelmente ele quer dizer é que o estilo do vinho alentejano - embora com marcada tipicidade devido a seu clima quente e extensas planícies, e que, por muitos anos destacou-se pela riqueza de fruta madura e potência -, nos últimos anos vem encontrando nuances diferentes.

Os vinhos cresceram muito na direção do equilíbrio, harmonia e boa acidez, e isso se deve tanto à mão dos enólogos quanto ao natural ganho de equilíbrio das vinhas ao passo que envelhecem. O produtor alentejano é, ao mesmo tempo, tradicionalista e vanguardista, usando castas tradicionais portuguesas e dispondo de instalações modernas, tecnologia e espírito para fazer experiências.

Nos últimos anos, exemplares de vinhos de Alicante Bouschet vêm encantando o mundo e fazendo com que os alentejanos a tenham "naturalizado" como casta da região. Mário Neves concorda: "Se calhar, será provavelmente a variedade de uvas mais adaptada ao clima do Alentejo". Mas ele adverte que as novidades não devem parar por aí. "Outra variedade que fará grandes vinhos será a Garnacha, porque é muito típica de regiões com climas de temperatura muito elevadas. Temos que continuar a fazer muita pesquisa", garante Neves. Nas castas tipicamente portuguesas, destaque para as tintas Trincadeira, Aragonês e Alfrocheiro; e as brancas Arinto e Fernão Pires.

Diversidade das regiões portuguesas cria vinhos singulares

Uma viagem ao Alentejo é obrigatória para quem quer diz que conhece os vinhos de Portugal. A possibilidade de alternar noites em belíssimos hotéis dentro da histórica cidade murada de Évora, com pousadas em vinícolas e mesmo noites em um barco na grande Barragem de Alqueva, une-se a saborosa e rica gastronomia da região. Tudo isso regado a alguns dos mais deliciosos vinhos do país.

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fotos: divulgação
O estuário do Tejo limita, ao norte, a Penínsulta de Setúbal, separando a região de Lisboa

Península de Setúbal
A oeste do Alentejo, as antigas Terras de Sado, rebatizadas como Península de Setúbal, estão experimentando um crescimento grande no mercado interno de Portugal por sua boa relação qualidade e preço. António Maria da Fonseca ressalta que, por muito tempo, "a região viveu da experiência de dois ou três produtores e, portanto, viveu mais das marcas desses produtores do que da região que - estando mais próxima do mar - produz vinhos mais frescos e complexos a partir da casta Castelão". Ele acrescenta ainda que a região "tem ganhado notoriedade e se desenvolvido também com o surgimento de novos produtores".

Seu vinho ícone, o Moscatel de Setúbal, é um dos três grandes fortificados portugueses e, para muitos, só não é tão conhecido quanto o Vinho do Porto e o Vinho Madeira pelo fato de os ingleses não terem ido 300 quilômetros mais ao sul.

AS CASTAS PORTUGUESAS E A TOURIGA NACIONAL
No último ano, o tema da Touriga nacional como flagship de Portugal ganhou especial destaque. A nação deveria investir seus esforços em uma só casta? As opiniões são diversas e todas bem fundamentadas, e unânimes na exortação da personalidade da Touriga Nacional.
Para o jovem António Maria da Fonseca, "a Touriga Nacional é uma das melhores castas de Portugal, mas, ao contrário de outras castas que se tornaram flagships, é uma casta que se expressa com rendimentos realmente baixos", dificultando uma grande ampliação de oferta com manutenção de alta qualidade.
Já Mário Neves explica que "Portugal tem que construir uma referência no mundo e este tipo de referência se dá apenas com nome de regiões, produtores ou castas". Para Messias Vigário, o "vinho português é um vinho de corte, e precisamos decidir se vamos puxar regiões, uvas ou produtores. Mas, se a decisão for puxar uvas, certamente devera será a Touriga Nacional". "Mas, ao contrário do que estamos fazendo em Portugal, não deveríamos insistir em fazer varietais 100 por cento", aponta Mário Neves, lembrando que a legislação vitivinícola muda de um país para outro, mas a maioria das regiões permite que um vinho seja rotulado como varietal contendo até 25% de outras castas predefinidas. Isso permite "temperar" o varietal de uma determinada casta com as qualidades de outras.


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Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 65 · Março/2011 · Julgamento de Paris

Bastidores da degustação que abalou o mundo


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