Sem traição

Bodega Sottano segue fielmente as tradições e paisagens de Mendo


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A paisagem de Mendoza é singular. Árida, com vegetação predominantemente rasteira, que sobrevive na base da Cordilheira dos Andes. Local perfeito para a vitivinicultura. Em grandes extensões desse solo de pedra e argila, fl orescem as vinhas que tem dado fama a esta região argentina.
Bem próximo ao pé dos Andes, em um departamento de Mendoza, chamado Luján de Cuyo, no distrito de Perdriel, fica a Bodega Sottano, um edifício relativamente pequeno, simples, feito para não concorrer com a deslumbrante vista da Cordilheira e das plantações que se espalham pelos arredores. Era nisso que pensavam os irmãos Diego e Mauricio Sottano - que além de produtores de vinho, são arquitetos - na hora de projetar a vinícola.
Ao contrário de seu vinho mais famoso, o Judas, eles não traíram as tradições locais. Para quem não conhece a história, diz-se que a família produzia um vinho para consumo próprio, mas um dos irmãos resolveu colocá-lo no mercado. Logo o vinho se tornou um sucesso e então decidiram nomeá-lo Judas, devido à "traição" aos familiares.

Desenho
O desenho final da vinícola é de Mauricio. Em uma área de 2 hectares e mais 15 mil m2 de entorno, ele criou um edifício funcional e discreto, que começou a ser desenvolvido em 2003 e foi inaugurado em 2005. A empresa familiar - que conta com mais um irmão, Pablo -, contudo, é de 2001. Eles pertencem à terceira geração da família, que chegou à Mendoza em 1890, com Don Fioravante Sottano, que veio do Vêneto para a região. Ele foi um dos pioneiros da indústria vitivinícola local e passou seu legado ao filho, Miguel, que chegou a produzir 20 milhões de litros anualmente. Seus três filhos agora cuidam de tudo.

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Desenho simples e objetivo da bodega é de Mauricio Sottano que, além de produtor de vinhos, é arquiteto

Autóctone
"O projeto teve como premissa a imersão no contexto. Por isso, usaram-se materiais e cores predominantes na zona. E as formas são uma abstração das montanhas que se têm ao fundo. Todo o paisagismo se integrou com a flora autóctone", afirma Diego Sottano, ao explicar a inspiração para o projeto.
Em uma área em que predominam solos pedregosos e argila, os blocos para a construção da Sottano são de pedra com cor terrosa, lembrando a argila do chão. O projeto foi pensado também para atrair turistas. Assim, por todo o trajeto percorrido pelos visitantes, além do processo produtivo da vinícola, é possível apreciar a paisagem mendocina, especialmente da sala de degustação. De lá, observa-se toda a nave de tanques e o piso de vidro permite estar cinco metros acima da sala de barricas. A sala ainda tem espaço para receber obras de arte de artistas plásticos locais esporadicamente.

"As formas são uma abstração das montanhas que se têm ao fundo. Todo o paisagismo se integrou com a flora autóctone"


Jardins
Os jardins de 15 mil m2 compõem um cenário rico e consoante com a viticultura, somente com plantas autóctones, com cactos, inclusive. Tamanha beleza faz com que lá se realizem diversos eventos sociais e corporativos, sob o olhar das montanhas. O clima árido, com dias quentes e noites frias, que por vezes dá uma coloração outonal às plantas, reflete-se na construção sóbria, com tijolos levemente avermelhados.
Assim como o vinho que era apreciado somente pela família, a Bodega Sottano "se perde" na paisagem de Mendoza, em meio a seus vinhedos avermelhados - que estão a cerca de 1.000 metros de altura - e ao branco dos cumes dos Andes. Porém, dessa vez, sem "trair" ninguém e, sim, atrair, os irmãos Sottano criaram um lugar onde mais do que fazer seus vinhos, eles mostram que estão perfeitamente integrados às cores, ao panorama mendocino, que nunca trai os que nele confiam.

Arnaldo Grizzo

Publicado em 7 de Outubro de 2010 às 14:50


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Artigo publicado nesta revista