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  • Especial | Entrevista com Steven Spurrier

    Um vidente acertou as previsões

    por Redação

    Decanter

    Depois do evento, algumas pessoas tentaram lhe intimidar por ter feito aquilo?
    Dos nove degustadores, o único que tentou me intimidar de alguma maneira foi a Madame Odette Kahn, publisher da revista La Revue du Vin de France. Ela claramente percebeu que a França estava ameaçada pelos resultados e me acusou de ter manipulado a degustação e pediu as anotações de volta. Entretanto, todos os outros degustadores foram muito criticados quando voltaram às suas regiões vinícolas. Aubert de Villaine ainda hoje não fala sobre a maneira como foi tratado por seus "superiores" na Borgonha, Pierre Tari foi "convidado" a renunciar ao cargo de prefeito de Margaux, Pierre Bréjoux quase perdeu seu emprego no INAO francês, e Jean-Claude Vrinat, dono do restaurante francês Taillevent, foi convidado a se retirar do sindicato dos restaurantes. Isso já dá uma ideia de como a França estava presa ao passado quando se fala de vinhos. No entanto, devo dar um crédito a eles por isso, pois nenhum deles direcionou esses ataques a mim, uma vez que tinham consciência de que a degustação havia sido feita de maneira honesta e honrada.

    Você sofreu algum tipo de ameaça dos participantes?
    Naquele período só recebi ameaças verbais de Odette Kahn, mas, um ano depois, fui praticamente expulso da adega de Ramonet-Prudhon por ele me culpar pelo Chateau Montelena ter vencido o Bâtard-Montrachet dele. Eu era cliente dele e depois disso ele nunca mais me vendeu uma garrafa de vinho!

    Qual seria a próxima grande revolução do mundo vitivinícola?
    É impossível dizer, e eu não acredito que irão acontecer muitas revoluções. O vinho não precisa de revoluções, precisa apenas que sua qualidade seja reconhecida.

    "Fui expulso da adega de Ramonet- Prudhon por ele me culpar pela derrota de seu vinho"

    Você acha que se ocorresse hoje, um evento assim teria o mesmo desfecho?
    Não seria um resultado tão revolucionário. Isso foi apenas o primeiro "racha" na supremacia francesa, representando o Velho Mundo. Mas pense no efeito que a degustação de Chadwick, em Berlim, teve na reputação dele próprio e dos vinhos chilenos. Esse tipo de degustação é importante porque informa o público. Um vinho que não é comentado quase não "existe". A informação, publicidade, é a chave do sucesso.

    O julgamento ocorreu com base em notas de avaliação dos jurados. Você acredita que isso também fez com que o público prestasse mais atenção às notas e desse espaço para o surgimento de experts como Parker?
    Numa visão geral, sim. Os resultados estiveram em foco por anos, mas o Parker foi o primeiro a dar autoridade e veracidade à pontuação. Atualmente, a pontuação que um vinho atinge é mais importante que as notas de degustação, o que é um problema.

    Como aquele evento mudou a sua vida?
    Logo depois que me casei, em 1968, tendo deixado o comércio de vinhos em Londres e mudado para o sul da França, onde eu e minha mulher construímos uma casa, eu fui a uma vidente que leu minha mão e disse: "daqui a dois anos você vai mudar de vida e é possível que tenha fama duradoura". Em 1970, mudamos para Paris e em 76 eu planejei o Julgamento, então ela estava certa em ambas as previsões. O evento não mudou por completo minha vida. O vinho tem sido minha pedra angular há 50 anos. O que aconteceu foi que fiquei conhecido.

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