Uma breve história do azeite

O óleo de oliva influenciou decisivamente alguns momentos históricos


Irina Jurinac/SXC

Como e quando surgiu o azeite não se sabe ao certo. O mais provável é que a primeira vez que se extraiu o óleo do fruto do zambujeiro (oliveira selvagem) tenha sido acidentalmente, como a maioria das invenções. Sabe-se, contudo, que foram encontrados caroços de azeitona da Era Paleolítica na França e em Biblos; há indícios da existência de oliveiras na Península Ibérica desde o Neolítico; o código de Hamurabi já regulamentava seu comércio cerca de quatro mil anos atrás; e já se comercializava o óleo há três mil anos no Egito.

Segundo opinião corrente, a azeitona é originária da Ásia Menor, mais precisamente entre o Cáucaso e o planalto iraniano, tendo se espalhado pela Grécia, Itália, França, Mesopotâmia, Península Ibérica, Norte da África e ilhas do Mediterrâneo, sobretudo em Creta. A difusão do azeite pelo do interior destas regiões atravessou diversos acontecimentos históricos.

Creta

Sólon instituiu uma lei de proteção à oliveira

No Palácio de Cnossos foram encontrados depósitos com enormes ânforas de cerâmica para armazenar azeite. A olivicultura representava a base econômica da ilha, que exportava o produto para todo o Mediterrâneo. Os cretenses utilizavam o óleo não só para a alimentação, mas também terapeuticamente e para ofertas religiosas. Com sua decadência, os fenícios e cartagineses passaram a controlar este comércio.

Grécia

A oliveira representava símbolo de paz e sabedoria. Por isso, Sólon (639- 559 a.C.), um dos sete sábios da Grécia antiga, introduziu a primeira lei de proteção à oliveira, que proibia o corte da árvore e a exportação de qualquer produto agrícola que não fosse o azeite, além criar de regras para o plantio. A civilização grega usava o azeite para diversas finalidades, como na medicina, em perfumes, no culto aos mortos, como lubrificantes para armas e na iluminação. Também era utilizado como alimento, pois eles consideravam seu valor nutritivo maior que o do trigo e do vinho. Os gregos levaram a árvore para a Itália no século VIII a.C.

O exército de Aníbal, general cartaginês, derrotou os romanos usando uma "arma secreta"

Império Romano

Antes de sua disseminação pelo Império, o óleo de oliva foi o principal responsável por uma derrota histórica dos romanos. Dizem que, graças ao azeite, Aníbal, general de Cartago, venceu a batalha do rio Trébia, em 218 a.C. Era um inverno rigoroso, quando o cartaginês ordenou que sua tropa aplicasse azeite sobre o corpo para resistir ao frio. Assim, cavaleiros foram enviados ao acampamento romano como forma de provocação. Ao atravessarem o rio, sem o "segredo" de Aníbal, os romanos chegaram fragilizados e foram derrotados.

Apesar desse episódio, a olivicultura se desenvolveu no Império Romano tornando- se um de seus principais comércios. Expandiu-se para suas colônias do norte da África, península Ibérica e sul da França. Nesse período, aperfeiçoouse a tecnologia e foram escritas grandes obras de agronomia, tudo em prol do cultivo. O mercado do óleo também possuía uma organização impecável e os únicos habilitados a negociar eram os "negotiatores olearii" e o comércio realizado na "arcam olearia", onde o azeite era classificado em cinco variedades, sendo o produto extraído de azeitonas ainda verdes o de maior qualidade.

Invasões Bárbaras

No final do século IV, as invasões bárbaras devastam cidades e campos. Instalando-se em novas regiões, os bárbaros, muitas vezes, modificavam o uso da terra. Nestes períodos de guerras, a agricultura foi deixada de lado e também as oliveiras, que morriam ou voltavam a ser selvagens. No século V, os poucos olivais que restaram eram cultivados em pequena escala, o que fez do azeite um produto escasso, usado como moeda de troca. Nessa época, os monastérios começaram a recuperar seus enormes terrenos e a cultivar as azeitonas, com o óleo destinado, principalmente, à liturgia e combustível para as lamparinas.

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fotos: Wikipédia
A cultura árabe teve influência fundamental no cultivo da oliveira

Expansão Árabe

Com a invasão da península Ibérica e a chegada à França; a ocupação no século IX, das ilhas Baleares, Córsega, Sardenha e Sicília, chegando ao Sul da Itália, os conhecimentos de cultura agrícola do mundo árabe foram difundidos: técnicas de enxerto, poda, irrigação e prensagem. Sob domínio mouro, a Espanha se tornou grande produtora de azeite, assim como os países do norte da África e Oriente Médio. Com a tomada de Constantinopla pelos otomanos, o óleo ganha extrema importância para o comércio entre o Mediterrâneo e os mares do Norte. É, então, utilizado para conservação de outros produtos, nas lamparinas e para produzir sabão.

Peste

No século XIV, a população européia foi dizimada pelas epidemias de peste. Além disso, o continente passou por alterações climáticas que causaram mudanças na agricultura.

Por isso, a olivicultura se concentrou na região Mediterrânea, com clima mais propício. Oliveiras se espalharam pela Itália, com grande auxílio da família Médici, que cedeu terras para o governo, na Toscana, com intuito de transformá-las em olivais ou vinhedos. Nos séculos seguintes, o cultivo foi evoluindo e se difundindo. Assim, foi levado pelos espanhóis para as Índias Orientais e, mais tarde, para a América.

O cultivo foi introduzido nos Estados Unidos nos tempos coloniais pelos jesuítas e chegou ao México no século XVII. O azeite passou por diversos estudos, adaptações, novas técnicas de poda, prensagem, mecanização da colheita etc, melhorando assim sua qualidade e alcançando o status que possui hoje.

João Calderón

Publicado em 22 de Outubro de 2008 às 14:16


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Artigo publicado nesta revista