Uma viagem pelos vinhos da Itália

O enoturismo é uma forte tendência no mercado do vinho. Cada vez mais, ao redor do mundo, vinícolas oferecem hospedagem e restaurantes a seus visitantes.


O vinho tem, como uma de suas maiores qualidades, a capacidade de ser a expressão de um local e um tempo. O bom vinho expressa o solo e o clima que lhe deram origem, tornado-se único. Nada mais natural para os adeptos de Baco, portanto, do que visitar vinícolas e vinhedos, buscando assim conhecer o contexto que gerou seus vinhos prediletos.

O segundo maior produtor e exportador mundial de vinhos, a Itália é, de Norte a Sul, um grande vinhedo e excelente opção para o turismo enológico. Essa antiga civilização no cultivo da vinha é, contudo, uma das mais recentes na descoberta de seu inesgotável potencial vinícola. O dito renascimento do vinho italiano só teve início no final dos anos 1970, e ainda está em curso em todo o país.

Os números do vinho na Itália são astronômicos. A produção ronda a casa dos 4,4 bilhões de litros anuais, logo atrás da França, com 4,7 bilhões de litros. A hierarquia também se mantém nos volumes de exportações (respectivamente 1,55 e 1,39 bilhão de litros) e no consumo doméstico (respectivamente 48 e 47 litros per capita/ano). Além disso, a bota mediterrânea é campeã no número de castas autoctonas cultivadas, e na variedade de rótulos comercializados.

As regiões vinícolas italianas de maior prestígio são o Piemonte e a Toscana. Mas estas são responsáveis, juntas, por apenas 10% do vinho produzido na bota mediterrânea. Há muito a descobrir em outras regiões. Lugares como Úmbria e Campânia, guardam surpresas maravilhosas e já produzem exemplares da mais alta qualidade, reconhecida mundialmente.

A revista ADEGA esteve in loco conferindo de perto essa revolução. Eis aqui o relato da viagem:

A Úmbria é uma pequena região, localizada bem no centro do país, entre a Toscana, Marche e Lazio, conhecida por cidades turísticas, como Perugia, Assisi e Orvietto e famosa por ter sido o berço da vitivinicultura etrusca na Itália. O potencial vinícola é enorme, mas ainda mal explorado.

Os 8,5 mil Km2 da região são intensamente cultivados com oliveiras e vinhas. Seus 16,5 mil hectares de vinhedos produzem anualmente quase 100 milhões de litros do fermentado. As colinas dominam 70% da paisagem, enquanto os restantes 30% são de montanhas. Os solos são tão variados (com areia, argila, calcário,abaresíduos vulcânicos, pedras e conchas) que tornam obrigatório um cuidadoso estudo do solo para a produção de vinhos de alta qualidade. O clima é de invernos brandos e verões quentes, mas ventilados e secos. As chuvas são bem distribuídas ao longo do ano com predominância na Primavera. Historicamente as uvas brancas prevalecem, com 57% do total cultivado. Destacam-se Trebbiano, Malvasia, Verdello, Verdicchio e Canaiolo Bianco. As principais tintas são Sangiovese, Montepulciano, Ciliegiolo, Canaiolo Nero, Sagrantino e Barbera. Daqui saem alguns vinhos tradicionais como o Orvietto, Sagrantino de Montefalco e o Torgiano Rosso Riserva.

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Lá visitei o mais importante e inovador produtor da região: Falesco. Esta empresa foi criada em 1979 pelos irmãos Renzo e Riccardo Cotarella. O currículo da dupla impõe respeito. O primeiro é administrador e braço direito do marquês Piero Antinori, grande nome dos vinhos da Toscana e precursor do renascimento enológico italiano. O segundo é hoje um dos mais respeitados enólogos do mundo, consultor de 60 vinícolas.

Localizada no vale do rio Tevere, que divide Úmbria do Lazio, a Falesco produz 4 milhões de garrafas ao ano, possui 265 hectares de vinhedos próprios e mais 90 hectares arrendados. Um investimento de 30 milhões de euros foi feito, parte dele em uma nova e moderníssima cantina em Montecchio, próxima a Orvieto, com capacidade para cinco milhões de garrafas. Além disso, os Cotarella, com o apoio da Università della Tuscia, em Viterbo, desenvolvem um trabalho de pesquisa do solo da região e de seleção de clones de uvas, mantendo um vinhedo experimental com 32 variedades, como Tannat, Carménère, Nero d´Avola, Malbec, Primitivo e Monteúlciano.

Riccardo Cotarella, que nos recebeu pessoalmente, mostrou cada etapa da elaboração de seus vinhos. Adepto da tecnologia de ponta, Cotarella sentenciou: "a enologia hoje é uma ciência". Dentre as muitas novidades tecnológicas que aperfeiçoou e utiliza uma chamou a atenção: o "refrigerador contínuo". O suco das uvas brancas é resfriado a 2oC, passa depois de 6 a 16 horas em contato com suas cascas, para maior extração dos elementos de aroma e sabor. "Se vinificássemos só a polpa os vinhos seriam todos iguais, pois a polpa é só água, açúcar e ácidos. O caráter está nas cascas", explica. Os tintos passam por um processo semelhante, mas a uma temperatura mais alta (12oC), para que nenhum amargor seja extraído, depois seguem para de 20 a 30 dias de maceração fermentativa. O resultado pode ser atestado na personalidade e altíssimo dos vinhos provados (trazidos pela World Wine):

Ferentano 2003, branco da uva autoctona Roscetto, permanece 20 horas em contato com as cascas antes de fermentar em barris onde permanece por 4 meses. Amarelo dourado, com aromas de frutas maduras (abaresíduos caxi, manga, laranja), flores amarelas, tostados, baunilha, manteiga, minerais, paladar untuoso, fresco e longo.

Vitiano 2004, o tinto de bom custo benefício da casa, 34% Sangiovese, 33% Cabernet Sauvignon e 33% Merlot, com 3 meses em carvalho, aromas frutados com toques de pimenta, violetas, ervas, frescor, paladar macio de médio corpo, média persistência.

Montiano 2001, feito no Lazio, região vizinha, em solos vulcânicos. Merlot 100%, limpo, elegante e delicado nos aromas, com toques florais, minerais, tostados, especiarias doces, café, defumados, melaço, geléias, paladar de muita pureza, boa acidez, madeira bem colocada, taninos muito finos aparecem com certa doçura no fim de boca. Grande vinho.

Marciliano 2001, 70% Cabernet Sauvignon e 30% Cabernet Franc, ainda jovem e fechado, rubi violáceo escuro, aromas concentrados de frutas maduras, rapadura, especiarias, paladar estruturado e com aresta de taninos, que precisam de mais tempo em garrafa para se resolver e se integrar melhor a madeira.

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De lá rumei para a Campânia, no sul do país. Esta região fica na costa do mar Tirreno e suas principais cidades são Nápoles (a capital), Salerno, Pompéia, Benevento e Caserta. Essa parte da Itália já foi conhecida como fornecedora do mosto meridionale,mosto do sul que seria misturado aos vinhos do norte para dar-lhes mais cor e corpo. A Campânia também foi a principal produtora de vinhos do Império Romano. Era daqui o Opimiano, mais célebre vinho da antiguidade, da safra de 121 a.C. A região foi devastada pelas lavas do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. cessando sua primazia na vitivinicultura italiana.

Hoje os 13,5 mil Km2 da Campânia abrigam 41 mil hectares de vinhedos, que geram ao ano 200 milhões de litros do fermentado. O relevo é composto por 35% de montanhas, 50% de colinas e 15% de planícies. O número de produtores de vinho ainda é imenso e dominado por micro-propriedades pertencentes a camponeses.

Na última década a região tem recuperado o prestígio por suas privilegiadas condições naturais: boa exposição ao sol, invernos moderados e verões mornos, clima temperado com chuvas concentradas no outono e inverno. Os solos são profundos, permeáveis e com boa fertilidade.

Os vinhedos, em sua maioria ainda em pérgola, são dominados pelas uvas brancas, como a Trebbiano, Malvasia Bianca di Candia, Falanghina, Fiano e Greco. Estas dão origem a alguns vinhos bastante típicos como o Greco di Tufo e o Fiano di Avelino. Algumas tintas também têm tradição, como a Aglianico (também denominada Vitis Helenica, é a uva mais antiga da Itália, proveniente da Grécia). Essa uva muito escura dá origem ao Taurasi, tinto mais tradicional e único DOCG da região. A Aglianico é uma casta que demora a amadurecer e que se não for bem trabalhada gera vinhos rústicos, de taninos duros.

A Feudi di San Gregorio, fundado em 1986 pelas famílias Capaldo e Ercolino, é a empresa mais premiada do sul da Itália. O projeto engloba três vinícolas, na Campania (Feudi di San Gregorio), na Puglia (Ognissole) e na Basilicata (Vigne di Mezzo) totalizando cerca de 300 hectares de vinhedos, alguns de vinhas centenárias, prefiloxéricas. A produção de 3,5 milhões de garrafas é capitaneada por ninguém menos que o já citado Riccardo Cotarella. Não por acaso existe uma afinidade de conceito com a Falesco: usar tecnologia de ponta para valorizar o território e as uvas locais. Isso fica flagrante ao conhecermos a nova sede da empresa em Sorbo Serpico, próxima ao monte Serpico, em Avelino. A arquitetura é moderna, o restaurante de alta classe e a cantina tem todo o equipamento necessário para transformar as uvas autoctonas em produtos que agragam modernidade a um contexto milenar.

Dentre os vários vinhos degustados no local destacam-se (trazidos pela World Wine):
Fiano di Avelino 2004, amarelo palha esverdeado, aromas de frutas frescas (maçã verde, pêssego), minerais, leve e fresco, com 12,5%.

Taurasi Piano di Montevergine Riserva 1999, com 18 meses em barricas francesas novas. Rubi-granada escuro, boa complexidade, algo animal, couro, amaixas maduras, musgo, tabaco, toques minerais, frutas secas, paladar robusto, com uma montanha de taninos, quente (com 14%). Melhor da prova neste produtor, para guarda.

Serpico 2003, um IGT feito com 100% de uvas Aglianico, em parte de vinhas seculares, com 18 meses em barricas francesas novas. Rubi violáceo muito escuro, traz certa doçura nos aromas, concentrados, mostrando tostados, menta, geléia de cereja, especiarias, musgo, cacau, paladar encorpado, longo, mas com taninos a resolver.

Patrimo 2002 um 100% Merlot, com 18 meses em barricas francesas novas, roxo na cor, ótimo ataque no nariz, com vegetais, alcaçuz, menta, framboesas, morangos, baunilha, café, bom volume de boca, com taninos aveludados, profundos, longos.

Também provados:
Albente 2004
Cutizzi 2004
Campanaro 2004
Trigaio 2004
Rubrato 2003
Ognisole Primitivo di Manduria 2004
Ognisole Vigna Cannudi 2004
Vigne di Mezzo Aglianico de Vulture 2003
Efesto 2004
Taurasi 2001

Tabela de notas
Extraordinário ( de 95 a 100 pontos)
Excelente (90 a 94)
Muito Bom (85 a 89)
Bom (80 a 84)
Médio (70 a 79)
- Fraco (50 a 69)
= Beber
= Beber ou Guardar
= Guardar
= Best Buy (bom custo-benefício)
Obs: preços aproximados no varejo, sujeitos à variação.
Marcelo Copello

Publicado em 9 de Fevereiro de 2006 às 14:36


Enoturismo

Artigo publicado nesta revista