Revista ADEGA

Com novos olhos

Enoturismo no Uruguai

Maldonado, Canelones e Colônia... uma viagem pelo Uruguai dos vinhos

Por Orestes de Andrade Jr. em 29 de Junho de 2016 às 14:00

O Uruguai é o país da moda. O estilo de vida austero do presidente José Mujica, que doa 90% do seu salário para ONGs e pessoas carentes, tem chamado a atenção do mundo todo para o país da América do Sul. No ano passado, ele implementou uma lei que legalizou e regulou a produção, venda e consumo de maconha, além de também ter aprovado o casamento gay. Recentemente, Mujica ofereceu asilo a cinco detentos da prisão de Guantânamo, em Cuba.

Mas fora as medidas excêntricas e polêmicas do seu presidente, a nova tendência ainda a ser desvendada no Uruguai é o enoturismo. De produção vitivinícola centenária, o país do ano (2013), segundo a revista britânica “The Economist”, vive um momento de afirmação de novas vinícolas e da redescoberta de empresas tradicionais.

Fortemente influenciado pelo Rio da Prata e Oceânico Atlântico, o Uruguai tem as suas principais regiões produtoras de vinhos na costa sul – Maldonado, Canelones e Colônia. Situado entre os paralelos 30 e 35, a exemplo de Chile, Argentina, Austrália e África do Sul, o país possui, nas palavras de Juan Bouza, “a possibilidade de elaborar vinhos que possuem a energia do Novo Mundo e o refinamento do Velho Mundo”. É a terra do Tannat, sim, mas há muito mais por descobrir.

De Punta del Este é possível visitar outros pontos turísticos e vinícolas de Maldonado
De Punta del Este é possível visitar outros pontos turísticos e vinícolas de Maldonado

O Uruguai foi considerado o país do ano pela revista britânica “The Economist”

Pelas características do clima atlântico, especialmente a influência marítima, uma peculiaridade única na América Latina, o Uruguai é comparado com a região de Bordeaux, na França. Seu Rio da Prata é comumente equiparado ao estuário do Gironde. A maior região vitivinícola – Canelones – é dona de 60% da produção total. Fica bem no centro do país, ao sul, muito próxima da capital Montevidéu, que abriga 40% da população local com 3,4 milhões de moradores.

As demais regiões produtoras do sul do país ficam a menos de duas horas da capital – à oeste, Colônia (pela Rota 1) e, à leste, Maldonado (pela Rota 9). Dois dias são suficientes para visitar as vinícolas de Maldonado e ainda pegar uma praia em Punta del Este ou nos diversos balneários do seu entorno, com direito ao imperdível pôr do sol da Casapueblo. A região de Colônia merece três dias, pelo maior número de vinícolas e pela obrigatória visita à cidade histórica de Colônia do Sacramento, patrimônio da Humanidade pela Unesco.

O único inconveniente da viagem, percorrida por estradas bem conservadas, grande parte delas duplicadas, é a sinalização deficiente. Há apenas placas indicando a existência de uma “bodega” na estrada, mas sem mencionar o nome nem a distância. “O governo entende que mais informações tiram a atenção do motorista”, explica, resignada, Margarita Carrau, presidente do consórcio de pequenas vinícolas “Los Caminos del Vino – Bodegas Familiares del Uruguay”. A posse de um mapa ou de um GPS, portanto, é obrigatória.

Perto de Punta

Há pouco mais de uma década, nasceu uma nova região vitivinícola uruguaia, Maldonado, curiosamente ao lado do mais luxuoso balneário da América Latina – Punta del Este. O surgimento não foi por acaso. Na década de 1990, o expert espanhol Dr. Luis Hidalgo publicou um mapa recomendando as colinas da região como aptas a produzir vinhos de qualidade. Os pioneiros foram o casal Paula Pivel e Álvaro Lorenzo, que compraram 20 hectares na Serra de la Ballena – até então um amontoado de rochas. Eles plantaram os primeiros vinhedos em 2001, colheram a safra inaugural em 2005 e lançaram seus vinhos em 2007.

 

Vinhedos da Bodega Alto de la Ballena podem ser vistos do alto de uma colina

Os 8,5 hectares de vinhedos da Bodega Alto de la Ballena podem ser vistos do alto de uma colina, em um terraço de madeira coberto, onde os visitantes são recebidos para uma degustação de vinhos, pães, azeite de oliva e queijos. É de uma simplicidade fascinante. “A nossa proposta é dar um atendimento muito personalizado a todos que nos procuram. Aqui é possível desfrutar da paisagem e dos vinhos com tranquilidade”, diz Paula, que até 2003 trabalhava em um banco em Montevidéu. Seu marido veio do setor logístico. A paixão pelo vinho e o desejo de viverem mais próximos à natureza os levou até a Serra de la Ballena.

O terroir propício ao cultivo de uvas de alta gama e a proximidade com o turismo de Punta também os atraíram para a região. No início, Álvaro e Paula sonhavam em fazer o melhor Merlot do Uruguai. As condições climáticas, com a dose certa de umidade vinda do mar, aliada à brisa marinha intermitente, motivaram a lembrança com Bordeaux. Com um espaço projetado para o enoturismo, o número de visitantes ainda é pequeno. Cerca de 1,2 mil turistas vão até a Alto de la Ballena todos os anos – a maioria (85%) brasileiros. “No verão, recebemos europeus e americanos vindos de cruzeiros e, sobretudo, paulistas em veraneio em Punta. Vivemos do boca a boca, de divulgação na internet e de algumas indicações de agências”, informa Paula.

Cenário da Bodega Garzón remete à Toscana

Toscana uruguaia

O incremento na produção vitivinícola no Departamento de Maldonado ganhou musculatura em 2007 com o plantio de 240 hectares de vinhedos pelo argentino Alejandro Bulgheroni, proprietário da Bodega Garzón, do Grupo Agroland, o próximo destino obrigatório desta viagem. Com investimentos pesados, em pouco tempo ele se tornou referência na recepção de turistas no Uruguai. A vinícola ainda está em construção e, portanto, fechada para visitas. Então, os turistas são recebidos na belíssima e moderna planta butique de azeite de oliva extra virgem Colinas de Garzón, um projeto dos famosos arquitetos Bórmida & Yanzón, de Mendoza, na Argentina.



Pueblo Edén, a 40 quilômetros de Punta, tem a filosofia de “slow town”. Lá, vá comer no restaurante La Posta de Vaimaca e prove os pratos com cordeiro

A visita à planta de azeite de oliva extra virgem começa com a exibição de um filme de sete minutos no cinema do local. Depois, de maneira interativa e com o uso de recursos audiovisuais, é apresentado todo o processo de recebimento das azeitonas e a consequente produção do azeite. Em seguida, é possível escolher entre diversas atrações, como visitas guiadas com trator, voo de balão, passeio de bicicleta, piquenique nas oliveiras ou ao pôr do sol. As atividades são pensadas para toda a família. Enquanto os adultos degustam azeites de oliva e vinhos, por exemplo, as crianças desenham ou pintam garrafas, além de receberem refrescos, pães, queijos, amêndoas e bolachas.

O tour pelas oliveiras e pelos vinhedos remete à Toscana, na Itália. As parcelas de vinhedos não têm mais do que meio hectare, permitindo um manejo específico para cada uma, e são escoltadas por árvores, palmeiras e arbustos. As colinas em série – que ganharam o título de melhor paisagem olivícola do mundo em 2013, na Itália – formam uma vista esplêndida e panorâmica da região, pouquíssimo povoada. É um refúgio perfeito para quem procura o Uruguai rural, que parece ter parado no tempo.

Devagar

“Ande devagar, não voe”. Este é o aviso de boas-vindas na localidade com nome de paraíso, Pueblo Edén, a 40 quilômetros de Punta. Adepta do estilo “slow town”, o povoado tem velocidade máxima permitida de 30 km/h. Mais adiante, outra placa adverte: “aqui os únicos que voam são os pássaros”. É nesse ambiente que está instalado um restaurante de comida caseira inspirado na cultura Charrúa – La Posta de Vaimaca. O patriarca da família proprietária do restaurante, Hugo Marrero, explica que a ideia é buscar as raízes, resgatando receitas de avós, tios e de moradores da região. “Queremos uma cozinha mais natural possível”, diz ele. No menu, o cordeiro é a estrela, em vários cortes e opções. As carnes são assadas em um rústico forno à lenha.

A batata e a massa (de produção própria) são feitas no fogão à lenha, a poucos metros dos fregueses. A cozinha, tal qual as mais modernas de hoje, é totalmente visível, mas sem vidros. O calor do fogo e da gente se mistura no salão. A esposa de Marrero, Maria Inês Nuñes, revela que o segredo do sucesso do restaurante é a matéria-prima fresca, com origem no próprio local ou na vizinhança. O cordeiro é abatido num dia e consumido no outro, sem ser resfriado. Há 11 anos atraindo turistas europeus e brasileiros, La Posta de Vaimaca tem como principal tempero o amor em cozinhar. De um jeito simples, com muita energia e sabor.

Bodega Los Cerros de San Juan, em Colônia do Sacramento, é a mais antiga do Uruguai

Destino Colônia

Deixando Maldonado, voltando a Montevidéu e indo agora rumo à Colônia, as maravilhas se sucedem. A estrada de 5 quilômetros, boa parte dela uma espécie de corredor verde, que leva até a Bodega Los Cerros de San Juan, em Colônia do Sacramento, parece um túnel do tempo. A viagem ao passado remete há 160 anos, quando a família Lahusen, que veio da Alemanha, instalou-se na região. A mais antiga vinícola do Uruguai preserva a sua história. Os tanques ainda são de cimento, uma característica das vinícolas uruguaias mais tradicionais, só com revestimento epóxi. Em meio à natureza típica da região, o prédio da vinícola, em estilo colonial erguido em 1869, é um Monumento Histórico do Uruguai.

O mais impressionante dessa vinícola centenária está no subsolo. Um inédito sistema de refrigeração dos vinhos foi construído de forma artesanal. Os imigrantes alemães cavaram um porão debaixo da vinícola para armazenar água da chuva, principalmente no inverno. Nesse lugar, foram instalados canos de bronze por onde passava o vinho na época da vindima, garantindo a sua qualidade. As bombas eram ativadas por pedais. “Este teria sido o primeiro sistema de controle de temperatura de fermentação da história do vinho. Só há outros dois parecidos com este, na Itália e na Alemanha”, diz o enólogo Pablo Bieito. “Foi uma revolução para a época”, emenda o atual gerente da vinícola, Federico Caballero.

A Bodega Los Cerros de San Juan está acantonada em um povoado, que chegou a ter 1.000 moradores. Atualmente, os residentes são, em sua maioria, colaboradores da vinícola. Há uma padaria em plena atividade e o antigo armazém, totalmente preservado, serve para degustações aos visitantes e também como restaurante. O grupo empresarial argentino Cardón, que hoje comanda a tradicional vinícola, tem planos ousados para o local. A ideia é investir cada vez mais no enoturismo, por meio de um projeto imobiliário ligado à produção vitivinícola. Caballero conta que a intenção é ter um hotel com um spa temático. Um museu deve abrigar toda a história da estância e da vinícola.

A centenária Irurtia é pioneira na reconversão de vinhedos e investe pesado no enoturismo

Antiguidades

A próxima parada está instalada no km 0 do Rio da Prata, onde os rios Paraná e Uruguai se encontram. O Establecimiento Vitivinícola Irurtia, em Carmelo, na costa oeste do Uruguai, comemorou 100 anos em 2013. É uma das maiores vinícolas do país, pioneira na reconversão dos vinhedos. Nos anos 1950, Dante Irurtia, neto de Lorenzo Irurtia, o fundador da vinícola, foi o primeiro viticultor uruguaio a viajar à Europa (França e Itália) para conhecer a produção de vinhos de qualidade. Isso quando tinha apenas 10 hectares. A experiência o levou a plantar mais de 25 variedades de uva. “Ele queria ver quais se adaptavam melhor ao nosso terroir”, conta Maria Noel Irurtia, responsável pelo enoturismo da empresa. Uma rápida visita à sede da empresa é como recuperar a história vitivinícola do Uruguai. Os tanques de cimento, as barricas usadas há décadas, tudo convive com a modernização dos processos. Destaque para a coleção de carros antigos – uma paixão da família Irurtia – como um Chevrolet 1926 e o Jeep Wagoneer 1972, um dos primeiros veículos utilitários esportivos lançados no mundo.

Nos últimos quatro anos, o investimento no enoturismo virou prioridade, aproveitando a proximidade com vários hotéis reconhecidos em nível internacional, como o Four Seasons Resort, cinco estrelas, que tornou Carmelo uma atração turística valorizada para europeus e americanos. Três roteiros foram montados antes do centenário da vinícola, que atraiu 4 mil visitantes em 2013. A maioria dos visitantes são estrangeiros, especialmente aqueles oriundos de cruzeiros de Buenos Aires. Apesar da distância – a vinícola está a 235 quilômetros de Montevidéu e a 90 quilômetros de Colônia do Sacramento – os brasileiros (vindos sobretudo do centro do país) já superam os argentinos. Maria Noel Irurtia, que também tem uma agência de turismo em Carmelo, organiza visitas com caminhada ou carro antigo pelos vinhedos, passando por um mirante. A turnê segue por todas as etapas de elaboração de vinhos, culminando em uma degustação de produtos na cave da Irurtia, um encanto à parte.

Pousada e Restaurante Campotinto tem apenas quatro suítes e uma cabana de luxo, oferecendo piquenique gourmet em meio aos vinhedos e promovendo a experiência de colher, podar e realizar a vindima
Pousada e Restaurante Campotinto tem apenas quatro suítes e uma cabana de luxo, oferecendo piquenique gourmet em meio aos vinhedos e promovendo a experiência de colher, podar e realizar a vindima

Em Carmelo, o restaurante Campotinto e a Finca Narbona são imperdíveis

Comer e beber


Finca Narbona tem cinco suítes amplas, todas com nomes de uvas finas, decoradas de modo clássico com equipamentos modernos

O Uruguai é um país onde se bebe e come bem. Os uruguaios adoram carne (bovina e ovina), amam cavalos, praias e são fanáticos por futebol. E ainda têm uma relação afetiva com o vinho. O consumo per capita soma 33 litros. Esta paixão é que motiva a criação de um negócio como a Pousada e Restaurante Campotinto, que acaba de completar um ano, também em Carmelo. Com apenas quatro suítes e uma cabana de luxo, ao estilo africano, tem um só vinho (de grande qualidade), 100% Tannat, elaborado em parceria com a vizinha Bodega El Legado, mas mantém uma programação sedutora para os enófilos, que vêm da Argentina, do Brasil e da Europa. Oferece piquenique gourmet em meio aos vinhedos e promove a experiência de colher, podar e realizar a vindima. O restaurante é especialista em culinária italiana de boa qualidade, com ingredientes produzidos no local. Em breve, o cardápio deve incluir as comidas típicas do Uruguai. A adega, aliás, tem metade dos rótulos da região de Carmelo e outros 20 vinhos de 10 vinícolas uruguaias. O foco é todo no Tannat, ao gosto dos turistas.

Natural

Outra visita obrigatória na região é a vinícola, restaurante, hotel, granja... Finca Narbona, em Carmelo, a 7 quilômetros do Four Seasons Resort. Um lugar mágico, rústico, silencioso, onde a produção artesanal é regra. E o charme e bom gosto, presenças constantes em cada canto, em todos os detalhes. A propriedade tem mais de 100 anos. Depois de duas décadas abandonada, foi adquirida pelo empresário argentino Eduardo “Pacha” Canton, que restaurou o local, nos anos 1990, e manteve o nome da família Narbona, responsável pelo local até a década de 1970.

Primeiro, veio o restaurante de campo, com poucos pratos típicos e uma gastronomia local influenciada pelos alimentos de cada estação. Depois, foi iniciada uma pousada de luxo, com apenas dois quartos, no prédio original da antiga vinícola. Em 1993, foram replantados 10 hectares de vinhedos – nove de Tannat e um de Pinot Noir. Uma pequena vinícola foi armada em 2009.

O enoturismo, ativo há somente quatro anos, tem entre seus principais clientes os brasileiros. O sucesso fez a Finca Narbona investir em uma nova e moderna vinícola, que acaba de ser concluída, somada à contratação do consagrado consultor francês Michel Rolland, atuante desde 2011.

A estadia na fazenda Narbona é como estar no paraíso. O prazer ainda pode ser acrescido de produtos orgânicos feitos no próprio local, além de queijos de excelente reputação, doce de leite, iogurte, sorvete, mel, azeite de oliva, pão, massas e grappa. Todos acondicionados em embalagens retrôs. É como sonhar acordado. A noite é muito confortável em qualquer uma das cinco suítes amplas, todas com nomes de uvas finas, decoradas de modo clássico com equipamentos modernos. É como passar férias no campo com a comodidade da cidade. É o legítimo Uruguai natural.


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