1999: A bela última safra do século xx

Viaje pelas safras do champagne e acompanhe a degustação de alguns exemplares Vintage da interessante safra de 99, que começaram a ser lançados no início do ano passado e acabam de chegar ao Brasil.


Os champagnes que costumamos degustar são, em sua grande maioria, os famosos Brut. Quem não conhece o rótulo laranja da famosa casa Veuve Clicquot, também chamada por muitos de viúva?

Os champagnes Brut são os mais vendidos no mundo inteiro e os mais básicos dos champagnes. Nas casas de Champagne de maior prestígio, há normalmente os seguintes tipos: Brut (seco – elaborado com uvas de várias safras), Demi-Sec (adocicado, também com uvas de várias safras), Vintage ou Millésime (produzido a partir de uvas de uma única safra) e, por último, os chamados Luxury Cuvées, topo de linha das importantes casas de Champagne. Um exemplo de Luxury Cuvée é o imortalizado Dom Perignon. Além dos champagnes ‘brancos’, a maioria das casas produz também as deliciosas e caríssimas Rosés.

<p><img src="/media/legacy/edicoes/7/imagens/ESCOLADOVINHO3.jpg" alt="Mateusz Zdanko/Stock.Xchng" width="250" height="443" align="left" />“O vinho é composto de humor líquido e luz”. (Galileu Galilei). O que caracteriza a elaboração dos vinhos tintos é a extração de sua cor. Esta provém unicamente das cascas das uvas tintas, o que possibilita que os vinhos brancos sejam produzidos a partir tanto de uvas brancas quanto de tintas sem as cascas, enquanto os tintos, somente a partir de uvas tintas com as cascas.</p>A década de 90 começou com a notável safra de 90, que produziu alguns dos mais especiais exemplares dos últimos vinte e cinco anos, equiparada apenas à também renomada safra de 1985. Nos anos seguintes, após a safra de 90, só 1995 pode ser aclamada como uma safra muito boa. Em 1996 tivemos uma excepcional, que rivaliza com a primeira da década e pode também enfrentar em alguns casos a safra de 85. A de 1997 foi boa e 1998 promete ser uma safra diferenciada, apesar de termos um clima que variou muito na região.

A safra de 1999 foi muito esperada por todos em Champagne, pois, na ocasião, as vendas estavam em alta por causa da celebração do novo milênio e conseqüentemente os estoques em baixa. As preces de todos da região foram ouvidas e o resultado foi uma safra top, que pode ser considerada uma das melhores da década de 90, juntamente com as safras de 90 e 96.

Em 1999, o Inverno foi padrão e a Primavera instável - tempestades de granizo ocorreram entre abril e maio. Contudo, o Verão foi muito bom e em junho já se previa uma excelente e abundante safra. O resultado final foi uma excepcional safra. Salvo algumas exceções, devido a tempestades que prejudicaram a qualidade final das uvas quando da colheita. Mas, mesmo nesses casos, os resultados foram muito bons.

Os champagnes Vintage dessa interessante safra começaram a ser lançados no início do ano passado e estão começando a chegar ao Brasil. Os Luxury Cuvées, em sua grande maioria, ainda não foram lançados, o que nos deixa com água na boca. Se os Millésimes já chegam com pompa e circunstância, podemos imaginar o que teremos pela frente nos próximos meses e anos. Além dos champagnes degustados às cegas (menos o Rosé), por esse editor, que estão disponíveis no Brasil (ainda poucas importadoras receberam exemplares da 99), outros também foram degustados na bienal feira de vinhos, Vinexpo de Bordeaux, na França, em junho último. Podemos assegurar que estamos à frente de espumantes de altíssima expressão.

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Alguns reluzentes exemplares já disponíveis no Brasil:

Brut Vintage 1999 – Delbeck – Avizé – Champagne – La Pastina
Uma grata surpresa. Produzido por uma pequena casa, que hoje pertence ao grupo Vranken Pommery, em Avizé ao sul de Epernay. Com uma elegante e finíssima perlage. Amarelo palha. Seus aromas nos remetem à maçã madura e mel com toques de frutas secas, como amêndoas e avelãs. Na boca apresenta acidez marcante. É cheio, rico e com um bom ataque. Se for degustado agora tem que ser acompanhado por um prato com personalidade, pois tem ainda toques com certa rusticidade. Vai melhorar muito com dois anos de garrafa. Tem predominância de Pinot Noir em seu blend.

Grande Sendrée 1999 – Drappier – Urville - Champagne – ZahilO único do painel que tem a clássica designação de luxury cuvée, pois é o champagne top dessa interessante casa. Trata-se de um champagne de exceção. Seu perlage é juntamente com o Gosset a mais fina de todo painel (micro-borbulhas). Aromas minerais acompanhados de uma verdadeira salada de frutas com predominância de pêssegos e pêras. Na boca tem alegria, elegância e uma persistência incrível. Precisa de mais um ano de guarda para ‘acalmar’, pois ainda está um pouco ‘nervoso’ (seu dégorgement* foi realizado em junho do ano passado). Uma verdadeira experiência para quem planeja degustar um champagne refinado e diferente. Tem seguramente 15 anos pela frente.


Brut Millésime 1999 – Taittinger – Reims - Champagne – Expand Produzido no centro da lindíssima Reims nas caves subterrâneas da antiga Igreja de Saint Niçoise. De cor translúcida com toques esverdeados. A perlage menos fina do painel. No nariz apresentou muita intensidade. Muita fruta como pêra e maçã com um toque bem amanteigado. O mais intenso de todos e lembrou um vinho chardonnay de boa estirpe. Muito corpo e força com um final impressionante e longo.

Grand Millésime 1999 – Gosset – Aÿ - Champagne – Expand Apesar de não ser o topo de linha dessa pequena casa de Champagne, o Grand Millésime da Gosset sempre está entre os mais prestigiados exemplares de toda a região da Champagne e em muitos casos até supera seu irmão mais importante o Gosset Celebris, o luxury cuvée desse produtor. Produzido ao sul de Epernay, onde a safra de 99 foi ainda melhor, esse champagne de cor amarelo palha e de perlage muita fina, apresenta aromas de pêras, pêssegos e maçã. No palato mostra profundidade e um final muito longo. Mais um exemplar de champagne não convencional. Excelente. Pronto para ser consumido, mas tem muita vida pela frente.

Vintage Rosé 1999 – Veuve Clicquot Ponsardin – Reims - Champagne – LVMH O único Rosé do painel. Foi degustado solo. Perlage fina e elegante. Apresenta cor rosa marcante. Seus aromas lembram a finesse de um bom pinot noir. Sua boca é agradável e com muita personalidade. Toques de especiarias. Mostra que teremos ótimos champagnes Rosés nessa impressionante safra. Pronto para ser consumido, mas pede um prato com personalidade para acompanhá-lo. Uma delícia.

*Dégorgemet é um estágio do processo de produção do champagne (método clássico). Trata-se da remoção dos sedimentos no gargalo quando a ponta da garrafa é congelada. Isso acontece após a segunda fermentação e estágio de envelhecimento nas caves. Essa trabalhosa atividade antes era feita manualmente. Hoje na sua grande maioria é realizada com modernas máquinas. O dégorgement é realizado como estágio final, antes que o champagne vá ao mercado.

Confira Tabela de Notas na página 71.

Luiz Gastão Bolonhez

Publicado em 18 de Abril de 2006 às 10:35


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Revista ADEGA 7 · Maio/2006 · Escolha a sua safra