Revista ADEGA

A Arte de Baco

Descubra o que há em comum entre as artes plásticas e o vinho e deguste luz, cores, formas e volumes

Marcelo Copello em 24 de Julho de 2007 às 05:59

Piti RealiO mármore estava lá, eu só tirei alguns pedaços” Auguste Rodin.

O vinho nunca esteve tão presente na cultura do homem como no mundo contemporâneo. A bebida de Baco não está só nas adegas, restaurantes e taças, mas também no cinema, na literatura, na arquitetura e em muitas outras manifestações culturais, como nas artes plásticas.

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É possível comparar um quadro do austríaco Gustav Klimt a um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia? Ou achar semelhanças entre a catedral Sagrada Família de Gaudí, em Barcelona, e um Porto Vintage jovem? E ainda, relembrar a estátua de Davi, de Michelangelo, ao degustar uma safra antiga de um dos grandes tintos de Bordeaux? E quem sabe a arte dadaísta de Tristan Tzara não pede para ser acompanhada por um potente Shiraz australiano? Não importa a obra ou a garrafa escolhidas, as afinidades entre as artes e o nobre fermentado existem e são muitas. São históricas, estéticas e conceituais.

Hoje vinhos com rótulos artísticos não são novidades, nem exposições de arte que têm o vinho como tema, mas quando uma pequena vinícola no interior de Santa Catarina recebe uma exposição de obras originais de uma artista do quilate de Camille Claudel, é sinal de que as últimas fronteiras entre vinho e arte estão se liquefazendo. A catarinense Villa Francione abriu, em Junho, a exposição “Camille Claudel - a sombra de Rodin”, em parceria com Dona Lily Marinho e o governo estadual. A exposição recebe um público de cerca de 150 visitantes por dia. Só não comporta mais visiantes por questões de segurança.

Tais fenômenos são mero diletantismo ou existe um real vínculo entre a arte e o nobre fermentado? ADEGA mostra que sim. Vinho e arte possuem afinidades históricas, estéticas e conceituais. Vejamos:

Os Primórdios
Nos primórdios da civilização a arte não tinha vínculos com a beleza, era um instrumento de dominação da natureza. As danças tribais ou pinturas rupestres, por exemplo, criavam um sentimento de poder nos caçadores sobre suas presas. Acreditavam que a representação pictórica de um cervo sendo abatido, por exemplo, garantia uma boa caça. Semelhante função tinha o vinho, ao qual se atribuíam qualidades mágicas e divinas. A “bebida dos deuses” podia curar, através de inúmeros remédios e poções dos quais era o ingrediente principal, e ainda levar quem a consumia a conversar com as divindades, por seus efeitos inebriantes.

Estes efeitos também são historicamente relacionados com a criação artística. O vinho inspira o artista. A frase de Plínio “in vino veritas”, simboliza tal fenômeno, mostrando que o vinho traz lucidez e nos faz pensar mais claramente. Segundo o filósofo alemão Nietzsche, em sua obra A Origem da Tragédia, o vinho e o espírito dionisíaco são a fonte de toda a criação artística.

No mundo contemporâneo
Hoje é sabido que o vinho é muito mais que uma mera bebida alcoólica e que as artes visuais vão bem além da representação dos seres ou objetos. Mas, mesmo após milênios de civilização, a dificuldade em definir uma função para a arte e em descrever objetivamente vinhos persiste. A arte já foi descrita como um substituto da vida, uma transformação simbólica do mundo e uma maneira de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante. Para o dramaturgo inglês Oscar Wilde, “o objetivo da arte é simplesmente criar um estado de espírito”, enquanto para pintor alemão Paul Klee, “a arte torna visível o invisível”.

Tal dificuldade reside no caráter não verbal das artes visuais e da emoção causada por uma taça de nobre fermentado. A linguagem humana primal é o verbo, porém, o caráter visual da arte e olfato-gustativo dos vinhos não pressupõe a mediação de palavras. Por mais que críticos de arte e de vinhos tentem se aproximar, palavras jamais fornecerão uma descrição plena das sensações causadas por uma escultura ou um gole de nossa bebida.

Vinho e Arte – Freud explica
Por outro lado, não podemos esquecer que nos vinhos a descrição verbal das sensações é muito utilizada em avaliações e pela crítica especializada, por exemplo. Também este aspecto aproxima o vinho da arte. Comparar os aromas de um vinho a frutas ou especiarias, por exemplo, que não estão presentes em sua composição, é um exercício de abstração, no qual precisamos elaborar imagens destes objetos em nossas mentes. Este processo cognitivo, de criar mentalmente uma realidade, é a base da arte.

Piti RealiOutro ponto em comum é um certo caráter de luxo dispensável à vida. Para Sigmund Freud, “as satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões em contraste com a realidade”. Aparentemente, se o pai da psicanálise colocasse uma garrafa de Château d’Yquem no divã, veria apenas suco de uva fermentado... Sob este prisma, tanto vinho quanto arte podem cair facilmente no campo dos supérfluos, de tudo que não é sobrevivência material mais urgente.

Artes visuais e vinho também compartilham do que pode ser chamado de uma simultaneidade em relação aos sentidos. Ao observar uma pintura ou apresentar um vinho ao palato, a vivência estética é integral. Sentimos o todo antes de analisarmos cada parte. Ao primeiro olhar, vê-se a “Monalisa” em sua totalidade, instantaneamente tem-se uma impressão geral, só depois observamos cada detalhe de seu olhar e de seu sorriso. O mesmo se dá com um vinho. O primeiro gole nos diz tudo ao mesmo tempo, em seguida isolamos mentalmente e analisamos as sensações de acidez, doçura etc. O contato inicial com o líquido e com obra é dionisíaco, o da espontaneidade, e apenas depois, Apolo, a razão, tem lugar. Um exemplo oposto seria a literatura. Ao ler um livro, em cada capítulo saboreamos uma parte da obra, para apenas ao final da última página termos noção do todo. Desta forma, enquanto na literatura pensamos primeiro e depois sentimos, no vinho e na arte sentimos e depois pensamos.

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Um tempo e um lugar
Arte e vinho também trazem em comum o fato de serem uma expressão, simultaneamente, pessoal, de um tempo e de um lugar. Como disse Paulo Francis, “o segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreita que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro”. Um artista só pode exprimir a experiência daquilo que é de seu tempo e de suas origens. Esta força também está presente nos vinhos. Os exemplares mais notáveis são justamente os que melhor refletem seu terroir, sua origem, trazendo em si o gosto de uma terra e de um tempo. Vinho e arte são, ao mesmo tempo, uma expressão individual, do artista e do enólogo; geográfica, o local do vinhedo está para o vinho, como a cidade onde o artista vive e sua bagagem cultural estão para sua obra; e de um tempo, as técnicas e o estilo de uma época refletem-se, igualmente, nos vinhos e nas obras de arte.

Piti RealiOs vinhos representam-nos tão bem lugares ou períodos históricos, quanto obras de arte, como pinturas, esculturas, peças de arquitetura etc. Vinhos não apenas refletem os estilos de cada época, como também os influenciam. É possível, por exemplo, conceber o chamado “Grande Século” (Le Grand Siècle, século XVII) sem o Champagne? A alegria, o júbilo, o contentamento e o ar leve que encontramos nas melhores pinturas daquele período, certamente foram movidos a muitas taças da então nova bebida efervescente.

Diferentemente da maioria dos objetos de arte, o vinho sofre por sua efemeridade. Uma garrafa pode ser guardada décadas, mas é como uma pintura coberta por um manto, que não poderá ser apreciada enquanto estiver oculta. Uma vez aberta a garrafa, esta se comporta como uma escultura de gelo, tem vida extremamente curta. Desta forma, a enologia é uma arte sem museu, que sobrevive apenas na memória dos que a experimentaram.

Um paralelo entre o vinho e as artes visuais
A relação entre arte e vinho pode ser vista de forma ainda mais íntima. Como um exercício de pura diversão, podemos traçar um paralelo entre os elementos e conceitos fundamentais das artes visuais com o vinho.

Numa livre interpretação de vários teóricos das artes, os elementos podem ser enumerados como: ponto, linha, plano, volume (também chamado de profundidade), luz (e sombra), e cor. É ainda interessante analisar os conceitos de equilíbrio e de forma (ou estética) conteúdo (ou conceito). Vejamos cada um deles.

Para Wassily Kandinsky, mestre russo da pintura abstrata, o ponto é o átomo, a partícula mínima e indivisível de toda a obra. No vinho este elemento mínimo também de formato pontual, seria a uva, sua matéria-prima básica. Os bagos da fruta são o ponto de partida de qualquer vinho.

Na arte, a linha, uma derivação do ponto, define o contorno e dá forma ao que se quer representar. No vinho, informe enquanto líquido, este papel é desempenhado primeiramente pela garrafa, sua vitrine primária, e depois pela taça, a moldura onde será exposto.

O plano em uma pintura, por exemplo, seria inicialmente a própria tela, que sustenta fisicamente a obra. Em um vinho, os pilares de sustentação, que também chamamos de estrutura, são a acidez, os taninos, o álcool e os açúcares. Um vinho com boa presença destes fatores terá, então, uma sólida estrutura.

A noção de volume, ou profundidade, em uma obra de arte, pode ser definida como a ilusão de, em uma tela plana, criar a impressão de perspectiva, em que os objetos têm volume ou estão localizados a distâncias diferentes do olhar. Nos vinhos, esta sensação pode ser igualmente experimentada pelo paladar. O seu corpo dá peso à bebida, e sugere a profundidade em seus sabores. Um Beujolais Nouveau será, então, um vinho raso, enquanto um Barolo terá certamente mais profundidade.

O que num quadro chamamos de luz, em um vinho será sua acidez, que lhe dá brilho visual e vivacidade no palato. Desta forma o Champagne, com sua grande acidez, é um vinho, sem dúvida, luminoso. A noção de sombra, ou escuridão, pode ser associada à tanicidade dos vinhos. O tanino dá aspereza e cor escura aos vinhos, tornando-os fechados ao visual e ao paladar.

A cor, em todas as suas matizes, em um vinho, pode ser associada à assemblage (mistura de uvas) que o compõe e no leque de aromas e sabores resultantes. O riqueza do colorido de um Chagall pode ser comparada à diversidade e intensidade de sabores e aromas de um Gewürztraminer da Alsacia, por exemplo.

A noção de equilíbrio é análoga para as artes e para os vinhos. A simetria da “Última Ceia”, de Da Vinci, por exemplo, pode ser comparada à redondez nos vinhos. Um exemplar equilibrado seria aqueleno qual os teores de ácidos e taninos (que dão aspereza), e os teores de álcool e açúcares (que emprestam maciez) estivesse balanceados, de forma que o resultado fosse equilibrado, redondo no paladar, sem arestas.

Finalmente, o dualismo “forma x conteúdo”, tão discutido na arte, no vinho pode ser visto como: de um lado a forma ou estética, representada pelas leis da físico-química, as técnicas de elaboração da bebida e tendências do mercado para o qual ela se dirige; de outro lado, como “conteúdo ou conceito”, o terroir, a dose de paixão humana dada pelo enólogo e a contribuição divina, manifestada na qualidade da safra daquele ano.

Estas associações são livres. Não espero que todos concordem com elas. Cada amante dos vinhos e das artes terá sua visão pessoal sobre o tema e poderá criar as suas. O que espero mostrar é que vinho e arte têm muito em comum, mesmo compartilhando de funções um pouco vagas e de difícil descrição. Digamos que vinho e arte não servem para nada, a não ser mudar o mundo.


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