Bebendo estrelas pelo mundo

Uma viagem pelas regiões que produzem espumantes. De Champagne, na França, passando pela Itália, Espanha e chegando na Serra Gaúcha. Variedades e sabores.


"Ora direis, beber estrelas", uma paródia sobre o verso tão conhecido de Olavo Bilac, que se aplica aos champagnes. Associado quase sempre a festas e comemorações, o champagne é "a bebida que traz um pedaço do céu para a terra", nas palavras de Chiquinho Scarpa. A magia do champagne provém tanto de suas borbulhas quando de seus aromas e sabores.


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Champagne

Todo champagne é um espumante, mas apenas os espumantes produzidos na região de Champagne - a região vinícola situada mais ao Norte da França, distante cerca de 145 km a nordeste de Paris - podem ser chamados de champagne. Os vinhos espumantes representam hoje cerca de 10% da produção mundial de vinhos e a região de Champagne produz em torno de 10% dos espumantes do mundo, o que equivale a cerca de 1% dos vinhos produzidos.

O champagne (a palavra é masculina pois se trata de um vinho) é o vinho mais conhecido e imitado no mundo inteiro e, no entanto, é imutável. O verdadeiro champagne pode ser produzido a partir de apenas três castas: Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier. E, necessariamente, com a segunda fermentação feita na própria garrafa num processo chamado de champenoise ou tradicional*.

O solo em Champagne é predominantemente calcário e poroso o que faz com que as raízes das vinhas tenham que penetrar muito fundo para obter a água de que necessitam para sobreviver. O clima é extremamente rude, sendo que em um mesmo dia ocorrem alterações bruscas entre chuva e sol, a média anual de dias com chuva é superior a duzentos. O inverno é bastante rigoroso, o que aumenta a qualidade das uvas. A colheita é feita muito cedo de forma que o vinho base produzido tenha elevada acidez e baixo teor alcoólico (entre 10 e 11 graus de álcool).

Para manter um padrão próprio, cada uma das casas produtoras de champagne faz uma assemblage com vinhos das castas autorizadas, misturando também vinhos de dois, três ou quatro anos. Algumas casas de Champagne chegam a utilizar até cinqüenta vinhos distintos.

A região da Champagne, compreende as cidades de Reims, famosa por sua catedral gótica do Século XIII, de Epernay e de Aÿ, dentre outras menos conhecidas. Séculos atrás os vinhos da região apresentavam um sério problema: insistiam em criar bolinhas. O vinho tranqüilo feito no outono começava a criar bolinhas na primavera quando o tempo esquentava. O champagne que conhecemos hoje começou a existir quando os produtores pararam de tentar evitar essa segunda fermentação em garrafa e passaram a explorar o resultado e a controlar o processo da segunda fermentação, dando origem ao método tradicional de produção de espumantes.

Alguns champagnes são produzidos a partir de uvas Pinot Noir (ou de Pinot Noir e Pinot Meunier), sendo conhecidos como blanc de noir. Outros utilizam apenas a casta Chardonnay e são chamados de blanc de blancs. Já os espumantes franceses produzidos fora da Champagne são chamados de "Mousseux", destacando-se os do Loire, da Alsácia e da Borgonha.

Com o apoio de um grande marketing, muitas vezes feito de forma espontânea por seus apreciadores, o champagne se difundiu pelo mundo quase sempre associado a comemorações, festas e alegria. A cantora Tina Turner declarou: "Todas as vezes que eu bebo champagne, eu rio ou eu choro... Fico tão emotiva! Eu amo champagne".

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Espumantes pelo mundo

Sparkling, Sekt, Cava, Franciacorta, Asti, Prosecco, muitos são os nomes dos espumantes ao redor do mundo, sendo que em muitos países são chamados apenas de espumantes sem um nome que os identifique e diferencie. Muitos países produzem vinhos espumantes.

Alguns infelizmente são difíceis de serem encontrados no Bra-sil, como os espumantes da Nova Zelândia (de Pinot Noir), da Austrália e da África do Sul.

Cava

A Espanha abriga uma das regiões pioneiras na produção de vinhos espumantes fora da região de Champagne, pois produz excelentes espumantes desde o início do século XIX.

A Espanha tem uma DO (denominação de origem) de espumantes chamada Cava - muito peculiar por se espalhar por diversas regiões do país. Os Cava começaram a ser produzidos no Penedés com as uvas Macabeo, Xarel-lo e Parellada.

Hoje, são produzidos em quase toda a Espanha e, além das castas citadas, podem utilizar outras variedades brancas (Chardonnay e Malvasia Riojana) ou tintas (Garnacha, Monastrel, Pinot Noir e Trepat).

Os Cava rivalizam em qualidade com o champagne, embora ainda não tenham a mesma tradição e difusão. No Brasil, infelizmente, a variedade é pequena e apenas os Cava mais simples são facilmente encontrados.

Franciacorta

A Itália produz espumantes em diversas regiões, sendo conhecidos o Prosecco, os Asti e o Franciacorta. Sem dúvida, os melhores espumantes da Bota, os Franciacorta, ganharam sua Denominazione di Origine Controllata e Garantita (DOCG) em 1995, situada na Lombardia, a 75 km a leste de Milão, próximo à cidade de Brescia.

Lá, o solo calcário, semelhante ao de Champagne, permite o desenvolvimento adequado das vinhas.

As uvas permitidas são as brancas Chardonnay e Pinot Bianco, e a tinta Pinot Nero (ou Pinot Noir). O método de elaboração é obrigatoriamente o clássico champenoise, com a segunda fermentação na garrafa.

O amadurecimento mínimo obrigatório é de 25 meses, sendo 18 destes meses com o líquido em contato com suas borras, o que lhe dá mais cremosidade e complexidade aromática. Para exemplares que ostentam a safra no rótulo este período mínimo é de 37 meses, com 30 sob as borras. O estilo geral é de espumantes secos (Brut ou Nature), sérios e estruturados, que rivalizam com os melhores champagnes.

A Itália também produz o Asti, um espumante adocicado (Demi-Sec) feito a partir da casta Moscato Branco (Moscatel). A DOCG Asti compreende 52 comunas das províncias de Asti, Cuneo e Alessandria.

Asti

O Asti é um espumante aromático por excelência, obtido a partir de uma técnica inventada e aperfeiçoada no Piemonte que permite ao vinho conservar o frescor e o aroma das uvas de que provêm.

O Asti é produzido a partir de um processo próprio, todo especial*. O aroma predominante é o da própria uva (Moscatel), com toques de mel, laranja e flores. Adocicado e com baixo teor alcoólico é um vinho que harmoniza muito bem com tortas e bolos, sendo o vinho ideal para acompanhar um bolo de noiva bastante confeitado.

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Prosecco

Hoje temos o Prosecco como substituto do vinho de garrafa azul. É muito popular entre os que estão se iniciando no mundo dos vinhos. O nome Prosecco vem da uva, cultivada principalmente na Itália, em Valdobbiadene e em Conegliano (cidades localizadas na Província de Treviso, próximo à Veneza, e que formam a DOC Conegliano-Valdobbiadene). Lá, a uva Prosecco é utilizada para produzir cerca de 20 milhões de garrafas de espumantes ao ano, pelo método Charmat*. Em sua maioria são bebidas simples e baratas, leves e com um teor de açúcar um pouco maior.

O Prosecco ficou tão popular no Brasil que quase virou sinônimo de espumante. Recentemente, num casamento em que estavam sendo servindo um Champagne Grand Cru, ao ser perguntado o que estava sendo servido, um dos garçons respondeu: "É um Prosecco". Quem não se recorda da ganhadora de um Big Brother Brasil que só tomava Prosecco, ou de uma novela em que a personagem principal tomava Prosecco a toda hora?

Como Prosecco é uma uva, que pode ser cultivada em outros locais, já é possível encontrar Prossecos da Serra Gaúcha. O Prosecco nacional é melhor que a maioria dos italianos encontrados a baixo preço no mercado brasileiro.

Espumantes Brasileiros

Noel Rosa compôs, em 1933, o samba "Seja Breve" que tem a seguinte estrofe: "Eu me ajoelho e fico de mãos postas / Só pra ver você virar as costas / E quando vejo que você vai longe / Eu comemoro a sua ausência com Champagne / (Deus lhe acompanhe!)".

Naquela época o Brasil já produzia vinhos, mas apenas os vinhos mais simples ou "de garrafão". Hoje a viticultura nacional está melhorando sua qualidade a olhos vistos e fica patente de que a grande vocação da Serra Gaúcha é para a produção de espumantes. O espumante brasileiro ainda não tem um nome próprio, mas se destaca como o melhor da América do Sul. O espumante sem dúvida é o grande vinho nacional.

O Brasil também produz espumante Moscatel (tipo Asti) de muito boa qualidade, mas que é pouco valorizado pelos conhecedores de vinho. Trata-se de um espumante Demi-Sec muito fresco, com um padrão de qualidade elevado e uniforme que combina muito bem com sobremesas à base de morangos, tortas e bolos confeitados. Uma harmonização curiosa, porém muito interessante, e que surpreende é do espumante Moscatel com biscoito champagne e morango natural.

*Leia nesta mesma edição, em "Escola do Vinho", tudo sobre o processo de elaboração dos diversos tipos de vinhos espumantes.

Rodrigo Rodrigues

Publicado em 19 de Dezembro de 2005 às 12:39


Universidade do vinho

Artigo publicado nesta revista