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  • Degustação: Tokaji e mais

    por Sílvia Mascella Rosa

    Estereótipos nem sempre são maus. Os vinhos Tokaji são um exemplo disso. Eles são tudo aquilo que se diz sobre eles, e mais. No entanto, o estereótipo que nos dá a idéia de que a Hungria não faz outros vinhos senão os Tokaji é que está errado. O país ficou muitos anos escondido por trás da cortina de ferro comunista, mas sua tradição vinícola já era conhecida em toda a Europa oriental. Nos últimos anos, como parte da Comunidade Econômica Européia, a Hungria tem tido a possibilidade de ganhar novos mercados consumidores com bons vinhos que vão além dos Tokaji, seu néctar mais especial.

    Em uma degustação ocorrida na Vinheria Percussi, foram provados dez vinhos húngaros, somente três deles eram os tradicionais brancos de uva botritizada. Cinco deles eram tintos, um rosé e dois brancos secos.

    Um dos produtores, Yanos Konyari, estava presente durante a prova e contou que em sua empresa, considerada jovem pelos padrões das vinícolas húngaras por ter somente 32 anos, a grande maioria dos vinhos são tintos. Isso se deve à sua localização, perto no lago Balaton, na região centro-oeste do país, uma região menos favorecida pelo ataque da Botrytis cinerea, mas ainda assim favorável ao plantio de cepas como a Merlot, a Cabernet Franc e a tradicional húngara Kekfrankos (variedade local da Blaufrankisch austríaca).

    A degustação começou com um Chardonnay 2007 da Konyari, com coloração muito brilhante e aroma intenso de frutas frescas, incluindo peras maduras. Na boca é muito fresco e com acidez extremamente agradável. 50% do vinho é envelhecido em carvalho húngaro por seis meses. Mas a madeira, na mistura final não compromete os aromas e sabores. O outro branco apresentado foi o Szarhegy 2006, também da Konyari. Esse vinho é uma combinação de uvas onde prevalecem a Harslevelu e a Sauvignon Blanc. Com 13.6% de álcool, é surpreendentemente arredondado e aromático, com uma agradável mistura floral. Na boca seu final é curto e fresco.

    Para não fugir à regra, até mesmo a Hungria está fazendo seu vinhos rosados e tivemos a chance de provar, acompanhando um tartar de salmão com pinholes, um rosé do ano de 2007 preparado com partes iguais de Cabernet Franc e  Merlot. O estilo do vinho é mais de novo mundo do que os próprios húngaros gostariam de admitir. Muito fresco e com aromas sugestivos de morangos silvestres, o vinho tem pouco tanino, mas está bem equilibrado, sem amargor que comprometa o frescor da bebida.

    Entre os quatro vinhos tintos provados o mais leve foi o Janoshegui Kekfrankos, de 2006. A uva, que guarda alguma similaridade com a francesa Gamay, produz um vinho agradável, ligeiramente ácido e fácil de beber.

    Em seguida provamos dois vinhos tintos que são assemblages das uvas Cabernet Franc, Merlot e Cabernet Sauvignon. O primeiro, Loliense Sigillum 2006, da Konyari, envelheceu por 13 meses em barricas de carvalho e estava recém engarrafado. Para um vinho assim jovem ele já apresentava um agradável aroma de especiarias, onde os cravos se destacavam  mais, e um pouco de ameixas doces no paladar já arredondado. Segundo o produtor é um vinho com bom potencial de envelhecimento. Tem 13,5% de álcool e taninos em boa evolução. A grande surpresa da noite foi o Csaba Cuvée 2003 Reserva, do produtor Vesztergombi, da região de Szekszard, 2 mil quilómetros ao sul de Budapeste. É um vinho de coloração rubi profunda, com aromas intensos de chocolate, especiarias. Só é feito em anos onde a produção da uvas é de muito boa qualidade, e passa 24 meses envelhecendo em pequenos barris de carvalho. Todo esse cuidado tem seu preço. Na Europa ele custa aproximadamente 50 euros. Mas seu sabor intenso, encorpado, de taninos bem estruturados, é uma tentação para quem pode pagar e uma surpresa vinda da Hungria.

    O último vinho tinto foi o Sessio 2006, um varietal de Merlot com 14% de álcool. Tem aromas ricos de eucalipto e um pouco de mentol, mas na boca revela sabores de cerejas amargas e frutas vermelhas frescas.

    Os dois Tokaji provados ao final da refeição tinham a mesma quantidade de puttonyos (seis), mas a semelhança terminava aí. O Hetszolo Tokaji Aszu de 1999 foi preparado somente com as uvas brancas Harslevelu, responsável pela maciez da grande maioria dos Tokaji. Os seis puttonyos garantem a presença de 160g por litro de açúcar residual, no entanto, suas surpreendentes características aromáticas e de paladar não permitem que o vinho seja em nada enjoativo. Ao contrário, seus ricos aromas florais e de mel, são encantadores. Na boca o dulçor vem acompanhado de um fundo de casca de laranja e camomila surpreendentes. Com 11,5% de álcool, é um vinho que pode envelhecer por 50 anos, mas seria uma tristeza levar tanto tempo para bebê-lo.

    A vinícola espanhola Vega Sicília é a proprietária da Oremus na Hungria e o vinho provado foi o Oremus Tokaji Aszu 2000, preparado com 70% de uvas Furmint, 20% de Harslevelu e 10% de Muscat de Lunel. De coloração mais clara do que o anterior, tem um aroma mais jovial, de casca de limão e pêssego. Na boca revela-se untuoso, encorpado e muito limpo, com sabor de mel, um pouco de especiarias e damascos. Tem um final longo e elegante, com um ligeiro toque de acidez garantido pela uva Furmit. Fez um excelente par com o levíssimo tiramissú servido para fechar a degustação.

    Infelizmente, a grande maioria dos vinhos provados ainda não têm importador no Brasil, embora algumas safras do Oremus possam ser encontradas na Mistral, mas se a oportunidade aparecer, não deixe de prová-los.

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