Corte ou monocasta: saiba como cada estilo influencia sabor, tradição e mercado
por Redação

Você prefere vinhos blends ou varietais? A dúvida é comum entre consumidores e ajuda a entender não só o estilo do vinho, mas também sua história, tradição e até o comportamento do mercado. Regiões clássicas como Bordeaux e Borgonha são exemplos emblemáticos dessas duas abordagens na produção vinícola.
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Bordeaux, lar de rótulos lendários como o Pétrus, construiu sua reputação a partir dos vinhos de corte, nos quais a Cabernet Sauvignon costuma dividir espaço com Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot. Já a Borgonha, berço de ícones como o Romanée-Conti, é conhecida pelos varietais, com a Pinot Noir dominando os tintos e a Chardonnay sendo a base dos grandes brancos da região.
Mas afinal, de quantas uvas se faz uma garrafa de vinho? De apenas uma, como nos varietais, ou de um conjunto de castas criteriosamente escolhidas, como nos blends? Dados da Nielsen indicam que, nos Estados Unidos, as vendas de blends tintos cresceram 35% entre março e maio de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019 — desempenho superior ao dos varietais.
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Esse movimento levantou hipóteses sobre o comportamento do consumidor durante a pandemia de Covid-19. Com mais pessoas consumindo vinho em casa e dividindo a mesma garrafa entre gostos diferentes, os blends teriam ganhado espaço como opções mais “conciliadoras”. Ainda que seja apenas uma leitura de mercado, o fato é que, durante séculos, pouco se falava sobre as variedades de uva presentes em um vinho.
Nomes como Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Merlot e Sauvignon Blanc só se tornaram protagonistas nos rótulos a partir da segunda metade do século XX, quando produtores do Novo Mundo — especialmente nos Estados Unidos — passaram a estampar as castas como estratégia de comunicação e marketing. Antes disso, o padrão europeu priorizava o nome da região e da propriedade, como nas denominações de origem controlada (DOC).
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Um exemplo clássico é o Chablis, na Borgonha. Embora seja produzido exclusivamente com Chardonnay, o nome da uva não aparece no rótulo. É a região que indica a casta. Com o tempo, a prática do Novo Mundo ajudou os consumidores a associarem uvas a estilos, tornando os varietais populares globalmente.
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Vinhos clássicos do Velho Mundo, como os de Chablis, raramente informam a uva no rótulo. Já na América do Sul e em outras regiões emergentes, o nome da casta aparece como forma de orientar um consumidor cada vez mais interessado em variedades específicas.
Ainda assim, tanto os vinhos monovarietais quanto os blends são práticas antigas. Bordeaux é o maior exemplo do domínio dos cortes, enquanto a Borgonha sempre defendeu a pureza da Pinot Noir, considerada delicada demais para misturas.

Nem sempre. A legislação de cada país define a porcentagem mínima necessária para que um vinho seja considerado varietal. No Chile e na Nova Zelândia, por exemplo, é preciso que ao menos 75% do vinho seja elaborado com uma única casta. O restante pode ser completado com outras uvas, usadas de forma estratégica pelo enólogo para ajustar acidez, estrutura ou corpo — geralmente em proporções bem menores que o limite permitido.
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Definitivamente, não. Em regiões como Châteauneuf-du-Pape, no Vale do Rhône, até 13 variedades são autorizadas. Cabe ao produtor escolher quais usar e em que proporções, sempre buscando equilíbrio e harmonia. A lógica é combinar pontos fortes de diferentes uvas para criar um vinho mais completo, muitas vezes maior do que a soma de suas partes.
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Na maioria dos casos, a mistura acontece pouco antes do engarrafamento. Em exceções, como nos Vinhos do Porto, as uvas são prensadas juntas desde o início, formando um único mosto que será fermentado.
Os defensores dos varietais afirmam que eles expressam de forma mais direta o terroir — a combinação de solo, clima e homem. Já os entusiastas dos blends exaltam a arte milenar da assemblage, capaz de gerar vinhos complexos e consistentes. No fim, não há resposta certa: há grandes vinhos feitos de uma única uva e outros igualmente extraordinários criados a partir de várias.
Nos vinhos de corte, as proporções das uvas costumam variar de safra para safra. Isso acontece porque o clima afeta cada variedade de maneira diferente a cada ano. Para manter o estilo do vinho, produtores ajustam os cortes conforme o desempenho das uvas. Em regiões como Champagne, além de variar as proporções de Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier, também é permitido o uso de vinhos de safras anteriores para garantir constância.
No fim das contas, blends e varietais não competem entre si: eles coexistem, contam histórias diferentes e oferecem experiências únicas. O melhor caminho é provar e descobrir qual estilo mais agrada ao seu paladar.