História, papado, terroir e regras definiram um dos vinhos mais famosos do mundo
por Arnaldo Grizzo e Eduardo Milan

Desde 1937, as garrafas de Châteauneuf-du-Pape exibem em alto-relevo as chaves cruzadas de São Pedro sob a tiara papal, símbolo direto da ligação entre o vinho e a história da Igreja Católica. Localizada ao sul do Vale do Rhône, a denominação é hoje uma das mais prestigiadas do mundo, mas sua trajetória começou muito antes do reconhecimento oficial.
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A viticultura na região remonta ao século XII, quando o vilarejo ainda se chamava Châteauneuf Calcernier. A relação com o papado teve início em 1309, quando o papa Clemente V transferiu a sede da Igreja para Avignon. Décadas depois, o nome Châteauneuf-du-Pape só seria oficializado, em 1893, consolidando o vínculo histórico entre religião e vinho.

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Foi durante o papado de João XXII que um castelo foi construído no alto da colina da vila, servindo como residência de verão e centro de produção do chamado Vin du Pape. Estima-se que cerca de três mil litros anuais fossem destinados ao consumo papal e a emissários reais, ajudando a espalhar a reputação dos vinhos locais por toda a Europa.
Mesmo com o fim do período papal em Avignon e os conflitos do Grande Cisma do Ocidente, os vinhos de Châteauneuf-du-Pape já estavam consagrados. O castelo acabou saqueado nos séculos seguintes, restando hoje apenas ruínas, mas a fama da região resistiu às crises políticas e religiosas.
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No século XIX, a proximidade com o rio Rhône facilitou o comércio, e produtores como o Château La Nerthe passaram a engarrafar seus vinhos. Em 1863, porém, a filoxera devastou os vinhedos: em 1880 restavam apenas 200 hectares produtivos. A reconstrução trouxe diversidade, com a consolidação de múltiplas castas — hoje são 18 autorizadas.
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A organização moderna da denominação deve muito ao Barão Le Roy, fundador do INAO. Em 1923, ele criou o sindicato de produtores e estabeleceu regras rígidas de produção, que serviram de base para as futuras AOCs francesas. Em 1937, oficializou também a garrafa com o relevo papal, marca registrada da região.
Châteauneuf-du-Pape é hoje a maior AOC do sul do Rhône, com cerca de 3.200 hectares. Seus vinhos tintos são concentrados, potentes e especiados, fruto de rendimentos baixos, solos cobertos por galets — grandes pedras que acumulam calor — e clima quente. A produção anual gira em torno de 14 milhões de garrafas, sendo cerca de 95% tintos.
Entre os vinhedos mais emblemáticos está La Crau, onde a Grenache domina os cortes, acompanhada por Syrah, Mourvèdre e outras variedades que formam blends complexos e longevos. A região não produz rosés, mas admite uvas brancas em vinhos tintos, reforçando sua singularidade.
Produtores como Château de Beaucastel, Clos des Papes, Domaine du Vieux Télégraphe, Château Rayas e Château de la Nerthe ajudam a sustentar a reputação de Châteauneuf-du-Pape como um dos grandes ícones do vinho mundial, onde história, terroir e regulamentação caminham lado a lado.

A seguir, confira os melhores Châteauneuf-du-Pape degustados recentemente por ADEGA:
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