Estrutura antiga, construção moderna

O resultado do desafiador projeto arquitetônico implementado nas Bodegas Callia


Christian Burgos
Velha bodega dentro da nova. A sacada é antiga, data do início do século passado. A nova bodega foi construída entre 2002 e 2003

Chove pouco nos 241 hectares da vinícola argentina Bodegas Callia. Localizada no Vale de Tulum, província de San Juan, ela é cercada pelos vales Cerro Pie de Palo e Cerro Chico Del Zonda. Ali, a 630 metros acima do nível do mar, a temperatura média é de 17°C e os solos são aluviais - formando as condições perfeitas para a obtenção de vinhos intensos e frutados.

Pie de Palo, um vale delimitado por duas serras, impunha sérias dificuldades para a construção da vinícola. Em 1977, o local sofreu um terremoto que destruiu praticamente tudo. O abalo foi tão intenso que quase atingiu magnitude grau oito na Escala Richter. Por conta disso, foram tomadas precauções até maiores daquelas dos países que sofrem constantemente com esses fenômenos. Cada edifício é sismo-resistente, ou seja, não sofre nenhuma alteração com movimentos de terra.

Esse, porém, não foi o maior desafio do projeto, mas sim a vontade de preservar muitas das características do espaço onde antes funcionava uma tradicional vinícola, projetada com tanques de lagares de cimento e cuja construção data do início do século passado. A intenção era encher o lugar de vida, mas manter muitos aspectos da estrutura, inclusive sua magia e mistério.

fotos:
O objetivo do projeto foi o de acompanhar a paisagem recriando as cores de seu cenário natural

Cores
Outro objetivo foi o de acompanhar a paisagem recriando as cores de seu cenário natural. No acesso principal da vinícola, por exemplo, os visitantes são recebidos com o azul das serras de Pie de Palo. Em sua construção foram utilizadas pedras da região dispostas uma por uma, como faziam os Incas em seu antigo sistema. Para selecionar, cortar e dar vida a elas foi contratado o "picapedrero" peruano Percy Cuellar.

Na entrada da vinícola, o azul do céu das serras de Pie de Palo

As dunas características do local também serviram de inspiração: as paredes têm tonalidade de areia. Já as de uma sala privada de degustação, localizada no primeiro subsolo, foram pintadas com vinho tinto. Há também uma outra sala de degustação, mas pública, que fica em uma parte preservada da vinícola original.

No subsolo da vinícola, sala privada de degustação

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Os tanques de aço inoxidável comportam até 4,3 milhões de litro

Estrutura
Além da bodega original, a nova vinícola abriga uma nave de tanques de sete mil m² com capacidade para até 4,3 milhões de litros. Eles são feitos de aço inoxidável e o tamanho varia conforme o tipo de vinho que irão armazenar. A essa nave foi agregada uma outra, de fracionamento, que comporta até 4,2 milhões de garrafas. Nesta planta de engarrafamento há um depósito de produtos prontos, outro de insumos, dois laboratórios, uma praça de manobras ou doc de cargas e bombas de deslocamento positivo para evitar o contato do oxigênio com o vinho. Todos os aparelhos são de última geração e a temperatura é controlada em toda a área.

No edifício em que ficam os escritórios e arquivos da vinícola, as janelas, de vidros fixos, misturam-se com a paisagem externa confundindo quem as observa. No setor há uma galeria perimetral de três metros que tem a função de fazer um pouco de sombra em uma região banhada dia após dia pelo sol. Além desse recurso, foram plantados no entorno dos edifícios eucaliptos, álamos, arbustos baixos e aguaribays.

Tudo isso para alcançar a maior ambição da Bodegas Callia: produzir os melhores vinhos de San Juan e o melhor Syrah da Argentina.

Redação

Publicado em 23 de Julho de 2008 às 12:28


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista