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  • Mercado brasileiro de vinhos finos: um flash do desafio

    Confira o crescimento da produção de vinhos brasileiros nos últimos anos e a difi culdade de concorrer com os produtos importados.

    por José Fernando Da Silva Protas

    fotos: Christian Burgos e Marcelo Copellofotos: Christian Burgos e Marcelo Copello
    fotos: Christian Burgos e Marcelo Copellofotos: Christian Burgos e Marcelo Copello

    A agroindústria do vinho nacional, centrada no Sul do país, assumiu historicamente a exclusividade da produção e abastecimento da demanda do mercado interno brasileiro.

    #R#

    Mais recentemente, especialmente a partir da década de 80, começaram a ocorrer investimentos com a implantação e a modernização das vinícolas (setor industrial), motivados por um mercado interno com potencial para produtos de melhor qualidade (vinhos finos) e de maior preço. No mesmo período, a agroindústria de suco conseguiu se destacar pela qualidade e singularidade do produto elaborado, vindo a conquistar mercados internacionais exigentes.

    Paralelamente, verificou-se um intenso processo de implantação e modernização tecnológica das vinícolas e processadoras de suco. Porém, o setor de produção vitícola (produção agrícola) não participou da mudança com a velocidade e objetividade necessárias, embora já houvesse tecnologias disponíveis capazes de promover uma melhora significativa da produção. Como conseqüência desse quadro, a qualidade da matéria-prima nacional (uvas para processamento) tem apresentado potencial enológico inferior ao dos concorrentes, prejudicando sua capacidade competitiva no atual contexto de mercado globalizado.

    Participação dos Vinhos Importados e Nacionais no Mercado Brasileiro de Vinhos Finos, 2001/2005 (1000 litros)
    País20012002200320042005
    Argentina 2.618.001
    3,94%
    3.884.432
    6,96%
    5.863.683
    10,37%
    11.210.771
    17,44%
    11.981.135
    17,22%
    Chile5.175.898
    7,77%
    6.206.675
    11,12%
    7.971.749
    14,11%
    11.160.061
    17,36%
    11.685.418
    16,79%
    Outros

    27.397.927 41,19%

    16.463.321 29,50%15.493.907 27,41%16.786.455 26,18%17.271.782 24,82%
    Nacionais31.327.391 47,10%29.258.639
    52,42%
    27.189.888 48,11%25.121.136 39,00%28.650.377 41,17%
    TOTAL66.519.217
    100,00%
    55.813.067
    100,00%
    56.519.227
    100,00%
    64.278.423
    100,00%
    69.588.712
    100,00%

    Relativamente à estrutura produtiva e mercadológica, o setor vinícola brasileiro, concentrado no Estado do Rio Grande do Sul, apresenta uma característica atípica relativamente aos países tradicionais produtores de vinhos e derivados da uva e do vinho, pois, enquanto naqueles são admitidos apenas produtos originários de variedades de uvas finas (Vitis vinifera), no Brasil, além desses, existem produtos originários de variedades americanas (Vitis labrusca e Vitis bourquina) e híbridas, que representam mais de 80% do volume total de produção dessa cadeia produtiva, o que evidencia a existência de uma dualidade estrutural no setor.

    O segmento de vinhos finos (vinhos tranqüilos e espumantes), com o processo de abertura da economia brasileira, tem enfrentado uma forte concorrência registrando-se taxas significativas de crescimento das importações de vinhos de mesa. No período de 2001-2005, a participação dos vinhos importados no mercado brasileiro de vinhos finos passou de 53% para 59% (tabela 1), sendo que, em 1994 essa mesma participação era de 31,6%. Por outro lado, fica evidente o espaço conquistado pela Argentina e pelo Chile no mercado brasileiro, em detrimento dos demais países exportadores, em especial dos europeus. Esse quadro se revela ainda mais preocupante quando confrontado especificamente com as estatísticas referentes à comercialização do vinho fino nacional (tabela 2 na próxima página), verificandose, no período 2001-2005, uma queda no volume absoluto comercializado de 15,5%, sendo que, quando analisado o período de 1999-2004, a queda foi de 47%; portanto, a perda de competitividade dos vinhos finos brasileiros no mercado interno, embora com uma inversão de tendência em 2005, tem se mostrado inexorável.

    Com base na tabela 2, chama a atenção o significativo incremento verificado na comercialização dos espumantes, sobretudo dos "tipo moscatel", que no período apresentou um crescimento no volume comercializado de 122,2%. Da mesma forma, o crescimento consistente verificado nos volumes comercializados dos espumantes (Brut e Demi-Sec), que no período foi de 41,3%, também é significativo, podendo ser considerado fato raro, mesmo tratando-se de volumes absolutos relativamente pequenos. Este parece ser um dos segmentos dentro da cadeia vitivinícola com grandes possibilidades de crescimento, pois, além do potencial de expansão do mercado interno, há o reconhecimento internacional quanto à qualidade dos espumantes brasileiros, fator decisivo para sua inclusão na pauta de exportação de produtos brasileiros.

    #Q#

    Marcelo Copello

    Entretanto, o incremento do consumo dos produtos vitivinícolas nacionais e as nossas chances de ingresso no mercado internacional, além dos aspectos promocionais e outros, passa necessariamente por um ajuste nas políticas setoriais. Apenas para abordar parte dessa questão, vejamos alguns aspectos relativos à política tributária e seu desdobramento na nossa competitividade. Um estudo desenvolvido em 2005, no âmbito do Plano de Desenvolvimento Estratégico do Rio Grande do Sul - Visão 2025, apresenta a seguinte configuração relativamente à tributação incidente sobre a produção de uma garrafa de vinho no Brasil: Vinhos de Mesa: entre 36,5 e 47,2%; Vinhos Finos: entre 37,1 e 47,9 e Vinhos Espumantes: entre 38,1 e 49,2, do preço ao consumidor. Já na Argentina, esse valor é de cerca de 21% e no Chile 19%, segundo o mesmo estudo. Com essa carga tributária a onerar os custos de produção, além de outros fatores também de ordem política (cotas com imposto de importação diferenciados para o Chile, isenção de tributação para os países do Mercosul, incentivos via subsídios por parte dos países exportadores, entre outros), criou-se um cenário onde o Brasil perdeu a capacidade competitiva, tanto para vender o produto nacional no exterior quanto para se manter competitivo no próprio mercado interno.

    Comercialização de vinhos, espumantes e sucos de uva do Rio Grande do Sul, 2001/2005 (1000 litros).
    Vinhos20012002200320042005
    vinhos de mesa223.591.164227.379.872217.040.188224.750.461270.671.067
    vinhos especiais299.819270.365205.270 66.989 285.987
    vinhos viníferas25.910.072 25.259.850 23.211.22119.727.44921.906.759
    TOTAL DE VINHOS55.054.665 257.539.419 246.303.596 250.003.353296.704.627
    champanhes4.021.737 3.741.548 4.775.864 4.805.280 5.682.526
    moscatéis477.531525.997594.038671.8741.061.092
    TOTAL DE ESPUMANTES4.499.2684.267.5455.369.9025.477.1546.743.618
    TOTAL DE SUCO DE UVA21.574.676 19.034.81017.779.37720.778.355 30.602.544

    É evidente que os gostos e preferências dos consumidores, aliados ao poder de compra, influenciam e por vezes determinam a escolha dos produtos a serem consumidos. Entretanto, no caso do mercado brasileiro de vinhos finos, verifica-se, independentemente de ainda haver quem valorize o "status" de produto estrangeiro, com freqüência a oferta de vinhos importados a preços inferiores aos dos nacionais.

    Portanto, o crescimento da venda dos vinhos importados no mercado interno brasileiro é absolutamente lógico, principalmente considerando que somos um mercado em formação, pouco exigente, onde, na maioria das vezes, a qualidade do produto, por falta de conhecimento, assume importância secundária na escolha do consumidor.

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