Mon Ami, Santô

"É para Paris que emigra a alma dos bons americanos quando morrem", Alberto Santos-Dumont


foto-montagem em arquivo pessoal
Além de inventor genial, Santos-Dumont era um enófilo e gourmet refinado

As crianças têm amigos invisíveis. Sentem prazer em "possuir" uma amizade exclusiva e não compartilhá-la com ninguém. Nem com os pais. Também tenho meus amigos invisíveis (espero não ter minha sanidade questionada depois de compartilhar essa experiência). Às vezes, discuto dramaturgia com William (Shakespeare), fumo charutos com Winston (Churchill) e converso amenidades com Marilyn (Monroe) ou Audrey (Hepburn). Mas, nas últimas semanas, troquei todos eles pela companhia do genial Alberto Santos-Dumont, ou Santô, como dizem os franceses. A comemoração do centenário do 14-bis, o primeiro vôo público - e comprovado - do "mais pesado que o ar", foi o início de nossa convivência. "Prefiro os balões. O vôo é mais tranqüilo", confidenciou-me Alberto. E aproveitou para contar sobre seu primeiro passeio aéreo, ao lado do balonista Alexis Machuron, aos 24 anos. Assim que ele ouviu os sinos do Ângelus lá embaixo, anunciando o meio-dia, disse ao seu guia: "Está no horário do almoço". Para surpresa do francês, o brasileiro retirou da mala ovos cozidos, rosbife, frango, queijos, fruta, sorvete, doces. "Deve ser um hábito brasileiro andar com a refeição na mala. Hábito estranho", teria pensado o balonista, antes de se render ao prazer gastronômico. "A melhor parte foi o champagne. Os flocos de neve se formavam nas taças", contoume Alberto. Para encerrar o banquete aéreo: licor e café brasileiro.

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Eu sabia que, além de inventor genial, Santos-Dumont era um gourmet sofisticado. Em seu apartamento, no Elysée Palace Hotel, ele promovia, para deleite de seus comensais, "jantares aéreos". As cadeiras tinham três metros de altura e, para se sentar, era preciso utilizar uma escada portátil. Durante o banquete, uma pequena aeronave fazia evoluções no teto. "A idéia surgiu de seu primeiro vôo?", perguntei. "A sensibilidade nas alturas é mais refinada. Quis usar esse conceito na gastronomia", respondeu Alberto, para em seguida falar sobre a Baladeuse, o primeiro carro aéreo portátil do mundo. Com ele, o inventor podia sair da frente de seu apartamento e voar até seus restaurantes preferidos: La Grande Cascade e Maxim´s. Ele gostava de comemorar suas conquistas aeronáuticas cercado por pratos deliciosos, excelentes vinhos e ótimas companhias. Os maîtres conheciam seu prato favorito: Linguado.

fotos: Mariana Mansur
Maxim's: ícone da Belle Époque
fotos: Mariana Mansur
Elysée Palace Hotel: palco dos "jantares aéreos"

Em nossos encontros, Alberto estava elegante. O terno escuro sempre impecável. As golas altas e a gravata vermelha. O chapéu Panamá e o relógio de pulso Cartier. "Eu tinha problemas para conferir o tempo de vôo. Desenhei esse instrumento e meu amigo Louis o construiu", disse-me ele, que ditou a moda em Paris no início do século XX. Reservado, nunca gesticulava. Quase nunca. Certa vez, ele me falou sobre o dia em que contornou a Torre Eiffel com o dirigível nº 6 e venceu o prêmio Deutsch. Gesticulou tanto que notei, em seu braço, uma pulseira com um pingente. "Uma medalha de São Benedito para proteção contra acidentes. Presente da Princesa Isabel", revelou o inventor. Contou-me em detalhes como conheceu a condessa d´Eu, filha de Dom Pedro II exilada na França após a queda da monarquia no Brasil. Em uma experiência com o dirigível nº 5, um vento inesperado e o fim do combustível o forçaram a uma aterrissagem sobre um castanheiro do parque do Barão de Rothschild. "Estou com sede", disse a um jardineiro que surgiu em seu socorro. Minutos depois, os serviçais do aristocrata surgiram com um balde de gelo e uma garrafa de champagne. Enquanto ele se "recuperava" do acidente, algumas pessoas chegaram até a árvore com uma cesta de piquenique. Era um almoço oferecido pela Princesa Isabel, que morava na propriedade ao lado. "Fui agradecer a gentileza", revelou- me.

arquivo pessoal
O aviador fascina os franceses com suas proezas

Em nosso último encontro, conversamos sobre nossa infância, em cidades quase vizinhas, no interior de São Paulo. "Uma vez ganhei um concurso de pipas. A minha era a maior delas", contei-lhe. "Eu gostava de fazer pequenos balões de papel nas festas juninas", disse-me, com o olhar distante. Conferiu o horário pelo relógio de pulso. "Preciso ir, tenho um jantar com Aída, la première aerochauffeuse du monde. Em Paris. Você sabia que é para lá que as almas das pessoas boas vão quando morrem?", despediu-se, subindo no Demoiselle. Sorri de contentamento após aquela revelação. "Au Revoir, mon ami Santô", despedi-me. Era na Cidade-Luz que eu gostaria de passar a eternidade.

Fábio Farah

Publicado em 14 de Dezembro de 2006 às 08:25


Crônica

Artigo publicado nesta revista