"Nossa filosofia não é fazer vinhos internacionais"

O enólogo Enrique Tirado, da Concha y Toro, revela detalhes da produção do ícone Don Melchor e fala sobre o futuro da indústria chilena


Piti RealiNa história da indústria chilena de vinhos, a Concha Y Toro ocupa um capítulo à parte. Alguns indícios levam a conclusão de que o ícone da vinícola, o Don Melchor, pode ser, em breve, o primeiro vinho do País a conquistar o título de melhor do mundo. Esse vinho top é tratado como uma empresa à parte dentro do grupo, pois sua missão não é pequena: Representar o melhor da tipicidade do terroir chileno. Em visita recente ao Brasil, Enrique Tirado recebeu ADEGA para uma entrevista exclusiva, regada a uma degustação vertical das últimas safras do Don Melchor. Enquanto preparava a decantação de alguns vinhos, e nos servia, ele respondia questões sobre a inserção da Concha Y Toro no mercado internacional e revelava a casta do futuro no País de Neruda: a Syrah.

Quais são os vinhos ícones da Concha Y Toro?
Temos um vinho ícone da Concha Y Toro, que é o Don Melchor. Ele faz parte da história vitivinícola chilena. Para ele, temos uma área exclusiva com predominância de Cabernet Sauvignon. Para sua produção, também temos Merlot e Cabernet Franc plantados. Já o Almaviva faz parte de uma joint venture que produz um vinho em estilo francês, mais para um bordeaux com a cara do Chile. Desde a mescla de seus varietais, é um grande chileno, mas com todas as características de um francês.

Como é para a Concha Y Toro produzir o Don Melchor?
A primeira safra comercial foi em 1987, e atualmente é o flagship de nossa vinícola. Mesmo sendo uma empresa grande, possuímos pequenas equipes ligadas a determinados vinhos, que acompanham todo o processo, desde o vinhedo até o engarrafamento final. Na área técnica da empresa, há equipes segmentadas para determinadas linhas. No caso do Don Melchor, há uma equipe exclusiva, com um diretor técnico especial e um departamento técnico à parte.

Como se desenvolveu o Don Melchor?
Em seus cinco primeiros anos, havia uma expressão muito forte da fruta. Do quinto ao 15º ano, começamos a trabalhar um pouco mais dos aromas, da elegância, buscando uma complexidade maior. Deste ano em diante, houve uma grande revolução. Mesmo com toda sua complexidade, o frutado ficou menor. Agora ele está mais completo, pleno.

Como é a divulgação do Don Melchor?
Durante metade do meu tempo, trato das partes técnicas em relação à empresa. A outra metade se dá principalmente em comunicação e outras demandas menores. Como resultado desse processo, conseguimos sua inserção em diversos mercados, como Estados Unidos, Suíça, Alemanha, França, Inglaterra, Canadá e Brasil. A América Central também recebe o vinho, mas não em todas as suas safras.

“Se o mundo conhecer o Chile, vai consumir mais nosso vinho”, diz Tirado
fotos: Piti Reali
Para o enólogo, a Syrah é a uva do futuro no Chile

Qual é a participação do Brasil nas vendas do Don Melchor?
Mundialmente, o Brasil representa de 8% a 10% das vendas. Isso coloca o País em terceiro lugar, atrás de Canadá e Chile.

Muitos apontam que a colheita de 1993 era a melhor e custava apenas US$ 18 a garrafa, enquanto hoje a garrafa passa dos US$100. Por quê?
O aumento do sistema de barricas e o encargo da produção foram alguns fatores responsáveis pelo incremento no custo. Mesmo assim, tudo isto está atrelado ao aumento da qualidade da produção, que também exigiu um investimento maior da vinícola. E por último estamos falando de oferta e procura. Hoje o Don Melchor está entre os melhores vinhos do mundo.

Que trabalho tem sido feito para transformar o Chile em uma região reconhecida internacionalmente na produção de vinhos?
Creio que há um grande potencial no Chile para produzir excelentes vinhos. E isso já está acontecendo nos últimos anos. Penso que ainda falta muito trabalho em comunicação, na divulgação do Chile, de seu povo e de seus vinhedos. Se o mundo conhecer nosso País, vai começar a consumir mais nosso vinho. O Chile realmente tem uma produção muito boa de vinhos, só falta divulgá-los para os outros Países.

Quais vinhos serão revelações?
Os do Vale do Limarí e Leyda estão se destacando bastante. As regiões mais antigas, apesar de terem muita história, começam a se comunicar com a uva Carmenére. E ela tem capacidade de produzir um vinho com qualidade superior. Seguramente, com essa uva podemos produzir grandes vinhos. Tanto que sua assemblage com a Cabernet Sauvignon tem gerado ótimos resultados. Isso ocorre porque a Cabernet Sauvignon tem a força dos taninos e a Carmenére, suavidade e doçura. Mas ainda assim não está pronta para substituir a Merlot em suas tradicionais assemblages com Cabernet Sauvignon. Isso poderia ser melhor trabalhado.

“A cada colheita, tudo começa do zero”, afirma Tirado

Como você situa o Chile no contexto dos países do Novo Mundo, que estão crescendo no mercado mundial?
Acredito que países emergentes como Argentina e África do Sul têm um grande potencial. Entretanto, todos são conhecidos por serem bons produtores de vinhos comuns, reconhecidos mundialmente. Nossa filosofia não é fazer vinhos internacionais, mas vinhos que expressem o Chile, toda sua origem e seus vinhedos. Queremos adquirir qualidades para desenvolver um vinho que atinja uma boa inserção internacional.

Qual é a uva do futuro no Chile?
Na Concha Y Toro trabalhamos com mais de 40 tipos de uvas. Acredito que o futuro pertença a Syrah. Ela tem um potencial muito grande. É uma variedade que não está a tanto tempo aqui, como a Carmenére, mas já mostra uma boa desenvoltura. E atualmente temos alguns planos para a uva Syrah.

Qual é o futuro do Don Melchor?
Não dá para deitar sobre os louros passados. A cada ano de colheita tudo começa do zero, temos que cuidar mais do vinho, temos que armar, todos os anos, uma grande estrutura para analisá- lo e melhorá-lo.

Que tipos de informações alimentam as decisões produtivas?
Tomamos as melhores decisões possíveis. Ligamos o solo, o clima e o vinhedo em uma coisa só. Se é possível trabalhar com todos esses elementos integrados, sua informação será direcionada para o que vier depois: A fermentação, o tempo de estágio nas barricas, o melhor tratamento para se dar ao vinho, etc. Fazemos análise de tudo o que se passa nos vinhedos, acompanhando todo o processo, minuciosamente. E a tecnologia, é claro, é uma forte aliada em todo esse contexto.

Christian Burgos E Luiz Gastão Bolonhez

Publicado em 18 de Outubro de 2007 às 12:34


Entrevista

Artigo publicado nesta revista