Nova ordem na corte de Saint-Emilion

Conheça a mais recente classificação dos vinhos da sub-região de Bordeaux que provocou a alegria de alguns produtores e a insatisfação de outros


Paisagem citadina em Saint-Emilion (Bordeaux - França)
Acaba de ser divulgada a nova classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion. A cada dez anos uma nova lista ordena os Châteaux desta importante sub-região de Bordeaux em quatro categorias de Grands Crus. A notícia movimentou a mídia especializada no mundo inteiro e, naturalmente, causou reações opostas nos produtores: alegria nos promovidos e desapontamento nos rebaixados, ou que esperavam subir de categoria. Já se fala até em possíveis ações legais de alguns Châteaux insatisfeitos, que com o resultado da classificação terão perdas significativas e seu faturamento. #R#

Saint-Emilion está localizada na margem direita do rio Dordogne, 50 quilômetros a leste da cidade de Bordeaux, na costa oeste da França. Lá, há mais de mil Châteaux e todos gostariam de ostentar nos rótulos de seus vinhos os dizeres "Premier Grand Cru Classé".

Os vinhos de Saint-Emilion são bem diferentes dos do Médoc, principal sub-região de Bordeaux, situada na margem esquerda do rio. Enquanto à esquerda a uva dominante é a Cabernet Sauvignon, em Saint-Emilion reina a Merlot, com importante presença também da Cabernet Franc. Como estas cepas são menos taninosas que a Cabernet Sauvignon, os vinhos de Saint-Emilion são geralmente mais fáceis de beber, mais carnudos, redondos, macios e amadurecem mais cedo que os do Médoc.

O clima em Saint-Émilion é menos marítimo e mais seco que o do Médoc, com maior gradiente diário de temperatura. Os solos são muito variados, com uma gama de terrenos que vai do rochoso, ao arenoso, calcário, argiloso, até solos de aluvião. É comum um mesmo vinhedo, de um mesmo Château, se estender por diferentes tipos de terreno. As melhores safras recentes que a região proporcionou foram: 1982, 1990, 1998, 2000, 2001 e 2003. Também foram boas: 1983, 1986, 1988, 1989, 1995, 1996 e 1999.

Os vinhos de Saint-Emilion ficaram de fora da famosa classificação de 1855, que ordenou os vinhos da margem esquerda em uma rígida hierarquia de Crus (de 1er a 5éme Grand Cru Classé). Apenas em 1955, Saint-Emilion viria a classificar seus vinhos, ordem que seria revista em 1969, 1986, 1996, e, finalmente, em 2006. Os vinhos são classificados em quatro denominações de origem, ou appellations: Saint-Emilion, Saint-Emilion Grand Cru, Saint-Emilion Grand Cru Classé e Saint- Emilion Prémier Cru Classé. A categoria de cima é dividida em duas: Prémier Cru Classe classe A e Prémier Cru Classe classe B. É importante ressaltar que existe uma grande diferença de qualidade média entre os vinhos das duas categorias de baixo e as de cima. Atenção especial aos "Saint-Emilion Grand Cru" e "Saint-Emilion Grand Cru Classé", já que apenas uma palavra os distingue.

fotos: Christian Bauer/Stock.Xchng

Essa eleição é promovida pelo Syndicat Viticole de Saint-Emilion, que segue severos critérios de qualidade e consistência (regularidade na qualidade de diversas safras), tipicidade, vinificação, manuseio dos vinhedo, além de levar em conta o prestígio e o preço dos vinhos. Para a prova deste ano foram consideradas as safras de 1993 até 2002. O sindicato costuma ressaltar a ênfase dada à qualidade dos vinhos em uma óbvia crítica à classificação do Médoc, que em 1855 usou como único critério o prestígio e preço dos vinhos na hora de distribuir títulos de Grands Crus.

Resultado: a classificação de 2006 trouxe algumas mudanças. Como era esperado, o "Château Troplong- Mondot" foi promovido a Premier Grand Cru Classé classe B, junto com o "Château Pavie-Macquin", que não era um favorito. Desapontados ficaram os donos de alguns Châteaux como o "Château Figeac" e o "Château Berliquet", que almejavam uma promoção.

Como uma espécie de recado aos produtores para que não se descuidem da qualidade e não desanimem, alguns Châteaux que haviam sido rebaixados em 1996 recuperaram seu status, como no caso do "Château Grand-Corbin- Despagne". No total, a classificação de 2006 selecionou 61 Crus Classés, sendo 15 "Premiers". Além dos novos Premiers já mencionados, as outras promoções foram (todas para Grand Cru Classé): "Château Bellefont-Belcier", "Château Destieux", "Château Fleur Cardinale", "Château Grand Corbin", "Château Grand Corbin-Despagne", "Château Monbousquet".

Os que perderam o status de Grand Crus Classes foram: "Château Bellevue", "Château Cadet Bom", "Château Faurie de Souchard", "Château Guadet Saint- Julien", "Château La Marzelle", "Château La Tour du Pin Figeac", "Château La Tour du Pin Figeac", "Château Petit Faurie de Soutard", "Château Tertre Daugay", "Château Villemaurine" e "Château Yon Figeac". Veja a lista completa dos 61 novos Crus Classés no quadro a seguir.

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Marccelo Copello
Château Cheval Blanc: classe A

A lista completa dos Crus de Saint-Emilion 2006

PREMIERS GRANDS CRUS CLASSÉS

Classe A
Château Ausone
Château Cheval Blanc

PREMIERS GRANDS CRUS CLASSÉS
Classe B

Château Angélus
Château Beauséjour (Duffau- Lagarrosse)
Château Beau-Séjour-Bécot
Château Belair
Château Canon
Château Figeac
Château La Gaffelière
Château Magdelaine
Château Pavie
Château Pavie-Macquin
Château Troplong-Mondot
Château Trottevieille
Clos Fourtet

GRANDS CRUS CLASSÉS
Château Balestard la Tonnelle
Château Bellefont-Belcier
Château Bergat
Château Berliquet
Château Cadet Piola
Château Canon la Gaffelière
Château Cap de Mourlin
Château Chauvin
Château Corbin
Château Corbin Michotte
Château Dassault
Château Destieux
Château Fleur-Cardinale
Château Fonplégade
Château Fonroque
Château Franc Mayne
Château Grand Corbin
Château Grand Corbin Despagne
Château Grand Mayne
Château Grand Pontet
Château Haut Corbin
Château Haut Sarpe
Château L’Arrosée
Château La Clotte
Château La Couspaude
Château La Dominique
Château La Serre
Château La Tour Figeac
Château Laniote
Château Larcis Ducasse
Château Larmande
Château Laroque
Château Laroze
Château Le Prieuré
Château Les Grandes Murailles
Château Matras
Château Monbousquet
Château Moulin du Cadet
Château Pavie-Decesse
Château Ripeau
Château Saint-Georges-Côte-Pavie
Château Soutard
Clos de l’Oratoire
Clos des Jacobins
Clos Saint-Martin
Couvent des Jacobins


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Abaixo testamos nove Saint-Emilions, sendo um Premier Grand Cru Classé classe A, um Premier Grand Cru Classé classe B, quatro Grands Crus Classés e três Saint-Emilion Grand Cru

Christian Bauer/Stock.Xchng

Château Cheval Blanc 2000, Saint- Emilion Premier Grand Cru Classé classe A (Moet Henessy do Brasil, R$ 2.240,00). Os 37 hectares de vinhedos do "Château Cheval Blanc" (CCB) são ocupados 66% por Cabernet Franc, 33% por Merlot e 1% por Malbec. A proporção de Cabernet Franc e Merlot varia a cada ano, sendo sempre próximas a 50% de cada, enquanto a Malbec, na maioria das vezes, não é utilizada. A Merlot contribui com corpo e a fruta. A Cabernet Franc dá o frescor e a elegância, marcas registradas do CCB, além de contribuir com complexidade aromática. O vinho amadurece de 14 a 20 meses em barris de carvalho 100% novos, de cinco diferentes tanoeiros. A grande safra 2000 gerou vinhos potentes em toda Bordeaux, que chegam ao ápice da qualidade. Este CCB é 50% de Merlot e 50% de Cabernet Franc. Sua cor é rubi escura com reflexos granada. No nariz a pureza e a complexidade chamam a atenção, com uma gama que vai de frutas maduras, notas da madeira (baunilha, tostados, café) a aromas de evolução como trufas, couro, além de especiarias e minerais. O paladar é largo, muito limpo e elegante, bem definido, com taninos finíssimos e prontos, completados por uma ótima acidez, que lhe dará longevidade. O que torna o CCB tão especial é a sua qualidade de reunir força e elegância, em um perfeito equilíbrio. Este 2000 confirma o status do CCB, que está no topo do Olimpo de Saint-Emilion não apenas pelo mito, que sempre adiciona emoção a qualquer degustação, mas principalmente por sua irrefutável e consistente qualidade.

Château Magdelaine 1999, Saint- Emilion Premier Grand Cru Classé classe B (Terroir, R$ 750). Sua composição, que varia de ano a ano, sempre privilegia a Merlot, que aparece com cerca de 75% do corte, completada com 15% de Cabernet Franc e 10% de Cabernet Sauvignon. Permanece 18 meses em barris 50% novos. Vermelho granada escuro com reflexos alaranjados. Aromas elegantes, complexos e com boa definição, já mais etéreos, mais ainda com toques de frescor e fruta, com cassis, e amoras pretas, escoltando toques de evolução, couro, tabaco, especiarias como noz moscada e tostados. Paladar de bom corpo, redondo, macio e aveludado, taninos finíssimos, acidez muito boa, profundidade, muito persistente. Tem histórico de grande longevidade. Grande vinho.

Château Larmande 2001, Grand Cru Classé (World Wine, R$ 293). Elaborado com 65% de Merlot, 30 % de Cabernet Franc e 5% de Cabernet Sauvignon, amadurecido de 15 a 18 meses em barris 1/3 novos, 1/3 de segundo uso e 1/3 de terceiro uso. Cor rubi violácea escura. Bom ataque aromático, com típicas frutas maduras (cassis, cerejas), tostados, chocolate, especiarias picantes e doces, toques de musgo e fundo mineral. Paladar de médio a bom corpo, macio com 13,5% de álcool, muito elegante, com boa acidez, taninos finos e firmes, longo. Está pronto, embora deva evoluir, boa compra.

Château Laroque 2000, Grand Cru Classé (World Wine, R$ 260). Os vinhedos do Château são compostos por 87% de Merlot, 11% de Cabernet Franc, 2% de Cabernet Sauvignon. Normalmente permanece 12 meses em barris 50% novos. Vermelho granada escuro com reflexos na transição entre violeta e granada. No nariz, as nuanças vegetais e de frutas maduras vem na frente, com musgo, amoras, tabaco, frescor de menta, couro novo, especiarias picantes (pimenta). Álcool sobressai um pouco no nariz. Paladar de médio-bom corpo, bom meio de boca, cheio e macio, com 13% de álcool, equilibrado na acidez correta, taninos prontos, elegante, média persistência. Muito agradável, em um ótimo momento aos seis anos de idade.

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garrafas: Marccelo Copello

Château Berliquet 2001, Grand Cru Classé (Casa do Porto, R$ 390). Os vinhedos do Château são compostos por 67% de Merlot, 25% de Cabernet Franc, 8% de Cabernet Sauvignon. Normalmente permanece de 14 a 16 meses em barris 80% novos. Cor rubi violácea escura. Aroma de boa definição, muita fruta madura (cassis, amora, cereja), elegante, madeira aparece bastante, com tostados, musgo, chocolate, baunilha. Paladar concentrado, sem exageros, e equilibrado, taninos macios, 13% de álcool, acidez muito boa, média persistência. Menos estrutura e profundidade que o famoso "Château Berliquet 2000", mas mais frutado, mais pronto e não menos elegante.

Château Berliquet 2002, Grand Cru Classé (Casa do Porto, R$ 330). Os vinhedos do Château são compostos por 67% de Merlot, 25% de Cabernet Franc, 8% de Cabernet Sauvignon. Normalmente permanece de 14 a 16 meses em barris 80% novos. Vermelho rubi violáceo escuro. Nariz com bom ataque e boa presença de fruta madura (ameixas), madeira bem colocada, especiarias doces, o lado mineral aparece mais que no 2001. Paladar de médio corpo, excelente acidez, estrutura de taninos presentes e muito finos, 13,5% de álcool.

Château Franc Grace-Dieu 2001, Grand Cru (Casa do Porto, R$ 198). Vermelho rubi com reflexos violáceos. Aromas de muito frescor e elegância, com frutas negras (cassis), tostados, fundo mineral. Entra bem no palato com bom meio de boca, de médio corpo, macio com 13,5% de álcool (que não aparece), taninos finos ainda presentes mas sem dor, acidez excelente que o torna leve e agradabilíssimo, no fim de boca aparecem a doçura de taninos e especiarias como baunilha.

Georgios M. W./Stock.XchngChâteau Plaisance 2001, Grand Cru (Casa do Porto, R$ 166). Corte no qual predomina a Merlot, com 13% de álcool. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aromas de boa intensidade, dominados pelo binômio fruta-madeira, com ameixas, especiarias doces, tostados, chocolate, tabaco. Paladar de médio a bom corpo, com taninos macios, acidez correta, longo. Um Saint-Emilion muito bem elaborado, em estilo mais moderno.

Château Haut-Badon 2003, Grand Cru, (Mistral, R$ 96,98). Vermelho na transição entre rubi e granada, com reflexos violáceos, entre claro e escuro. Aromas de boa intensidade com frutas na frente, especiarias picantes, tostados, toques de evolução e minerais. Paladar de leve a médio corpo, com 12,5% de álcool, acidez sobressai e o torna muito agradável e fácil de beber.

Tabela de notas
Extraordinário ( de 95 a 100 pontos)
(93 a 94)
Excelente (90 a 92)
(88 a 89)

Muito Bom

(85 a 87)
(83 a 84)
Bom (80 a 82)
(76 a 79)
Médio (70 a 79) (70 a 75)
- Fraco (50 a 69) (50 a 69)
= Beber
= Beber ou Guardar
= Guardar
Obs: preços aproximados no varejo, sujeitos à variação.
Marcelo Copello

Publicado em 25 de Outubro de 2006 às 13:38


Grands Châteaux

Artigo publicado nesta revista