O Classicismo da terra do Amarone Classico

Pinturas de estátuas de estilo greco-romano, afrescos com inspirações em deuses mitológicos. A Bertani mostra todo o classicismo do Vêneto


Foto: Divulgação

Verona, ao norte da Itália, na região de Vêneto, foi um dos berços do Renascimento, movimento humanista que marcou o final do período medieval e o início da modernidade. A milenar cidade, que fica numa das mais vistosas regiões da Itália, é cortada pelas águas verdes do rio Adige e por um sem números de construções que sobrevivem pelos séculos desde os primeiros anos da era cristã. Fundada por celtas, foi incorporada ao império romano no ano 89 e passou a fazer parte da Itália em 1866.

É nesta terra de tantos encantos, palco de artistas de toda parte, onde se encontra a vinícola Bertani. O Vêneto também é casa de um dos vinhos mais celebres da Itália, o Amarone – cuja tradução seria “amargão”. Este vinho é produzido a partir das parcelas secas (através de um processo milenar) de três variedades de uva: Corvina, Rondinella e Molinara. Assim, o Amarone é marca registrada, um mito da região.

O início da história da propriedade remete aos anos 1000 e por lá passaram diversas famílias. A cantina de Novare, o prédio principal, por exemplo, só começou a ser erguida no século XVIII. Porém, a casa Bertani foi fundada em 1857, pelos irmãos Gaetano e Giovanbattista Bertani, em Valpantena (vale localizado a leste de Verona) e três anos mais tarde veio outra adega, a Grezzana (no vale do mesmo nome), local da atual sede da empresa.

Ela sempre foi uma firma familiar, ainda que tenha crescido fincando raízes por toda Itália, através da aquisição de quintas e vinhas em áreas de vinhos clássicos importantes, como Vapolicella, Soave e Valpantena. A história do vinho da Bertani começa quando, durante sua estada na França, o mais velho dos dois irmãos conhece o professor Guyot, referência no cenário vitivinícola europeu, com quem aprende, além de técnicas mais avançadas de produção, o conceito de terroir. A cantina Novare só foi comprada pelos Bertani em 1957 para ser a sede de seu Amarone.

O edifício principal, de clara matiz classicista, é marcado por duas linhas de arquitetura: a toscana, no térreo, e a jônica no piso superior

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Palácio Novare

O palácio de Novare é o nome que recebe a construção principal, que fica no meio de um vale verde delimitado por morros arborizados ao redor das vinhas. Ele é um dos exemplos mais interessantes da região de Vapolicella, seja pela arquitetura, seja pela riqueza e originalidade da decoração.

O complexo compreende um edifício principal com asa baixa, que termina em duas fachadas simétricas. Em cima da asa leste está a torre do sino da capela (dedicada a São Caetano). A construção da planta inteira – ou seja, o edifício principal, a capela e as adegas – se deu na primeira metade do século XVIII, pelo arquiteto Adriano Cristofoli, encomendada pelo primeiro proprietário, Giacomo Fattori.

A construção tinha um propósito claro de autoafirmação para Cristofoli, pois ele tinha sido recém condecorado conde. Assim, o corpo central da construção tem uma clara matiz classicista. O jardim na frente seria para ocultar o lado rústico das alas laterais, menos aristocráticas, separando as áreas de lazer das dedicadas à agricultura.

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O afresco do teto ilustra as quatro estações do ano e a passagem do tempo, com representações de Flora, Zéfiro e o carro de Apolo

O edifício principal tem três andares e é constituído de uma arquitetura quadrada marcada por duas linhas: a toscana, no piso térreo, e a jônica, no superior. A fachada é concluída com uma empena (que contém o brasão de armas adicionado pela família Trezza, que também foi proprietária do local), sobre a qual estão cinco estátuas de deuses mitológicos. As estátuas do jardim são atribuídas ao escultor Lorenzo Muttoni.

Interior

O interior do palácio sofreu muitas alterações ao longo do tempo, e sobraram apenas vestígios das decorações do século XVII, ou mais recentemente dos séculos XIX e XX.

O salão de Grazie, onde existem dois emblemas da família Mosconi (que também foi proprietária do local), compreende dois andares de altura, dividido por grades de madeira pintada que os divide em duas faixas horizontais sobrepostas.

A parte de baixo é dominada pelo uso de imitação de pedra polida. Nos recessos pintouse estátuas (monocromáticas) que representam as artes: arquitetura, escultura, pintura, geometria, astronomia e música.

No parte superior, há uma arquitetura que dá uma conotação de perspectiva do todo. Nas laterais, existem pinturas monocromáticas das estátuas da “Fartura” e da “Justiça”. Enquanto isso, há pinturas de sátiros acima das portas para lembrar as quatro estações.

Os autores das pinturas dos afrescos são artistas quatrocentistas da região da Emília Romagna, como Prospero Pesci e Joseph Valliani, dito Pistoiese

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A passagem do tempo no afresco

As quatro estações do ano e a passagem do tempo (clara referência ao contexto agrícola) são os temas principais do afresco no teto. Em seu centro, sentado entre flores coloridas, está Flora (deusa das flores e da natureza) e abaixo, à sua esquerda, estão a primavera e o verão, pintados com cores quentes e brilhantes. No lado oposto, em cores contrastantes, representadas por nuvens escuras, estão o outono e o inverno.

Entre todos está Zéfiro (deus dos ventos, marido de Flora), que paira no ar, seguido pelos anjos festivos. No fundo, pode-se ver o carro de Apolo. Os autores destas pinturas foram artistas da Emília Romagna. A decoração das duas faixas horizontais foi atribuída ao pintor quatrocentista Prospero Pesci, da escola de Filippo Maccari, enquanto o afresco central no teto foi atribuído a Joseph Valliani, chamado de Pistoiese.

O jardim

No final do século XVIII, difundiu-se em Verona complexos naturalísticos em harmonia com a moda da época (Romantismo), que viu prevalecer os jardins ingleses (paisagismo romântico, plantas exóticas, caminhos, lugares isolados, falsos sítios arqueológicos) sobre os italianos, predominantemente verdes e regulares.

O terreno atrás da casa teve dois destinos, com um jardim e um bosque, onde foi construído um o lago com uma ilha no meio, onde colocou-se taxodium (uma árvore tolerante a inundações) e uma casinha chinesa. Além dessas árvores exóticas e alguns cedros do Líbano, o bosque é constituído majoritariamente de espécies nativas. Infelizmente, do “jardim de plantas exóticas” – como foi descrito em 1820 e inspirou o pintor Dall’Oca Bianca – não restou muito, devido aos danos sofridos durante a II Guerra Mundial.

A casa chinesa se encontra sobre um banco da lagoa e foi construída por sugestão do poeta Pindemonte, que foi influenciado por algumas fontes e pastagens em uma visita à França, onde ele costumava passar férias quando convidado por amigos como Jean Jacques Rousseau, por exemplo.

Durante as tardes, o jardim era usado para ler ou para passear. À noite, se prestava aos jogos, como xadrez, ou momentos de desfrute do som da harpa, tocada pelas filhas da condessa. No bosque também há uma geladeira construída no século XVIII e usada até a primeira metade do século passado. A fonte que alimenta o lago é chamada de Tesa.

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Adega

As adegas são construídas totalmente em alvenaria. O chão é feito de lajes de pedra de Santo Ambrósio, formando uma série de pilares de pedra de 50 cm de altura. Dessa forma, o piso é preservado da umidade, pois os buracos permitem uma ventilação adequada, determinada por dois túneis de escoamento que cobrem cem metros de ambos os lados das adegas.

Arte

A arte pulsa intensamente em Verona, assim como nas veias da Itália de uma maneira geral. A cidade, entre tantos artistas e grandes homens, foi casa de um gênio em especial, Dante Alighieri, pai do idioma italiano e maior escritor do país. Lá, o criador da Divina Comédia viveu entre 1311 e 1318, alguns dos últimos anos de sua vida (morreu em 1321). A cidade proporcionaria ao artista a inspiração que ele precisava para continuar sua obra inestimável.

Revisou e concluiu nesta terra o Inferno (poema épico e uma das principais obras de Dante). Sob um bombardeio de polêmicas e em meio a grande efervescência política, ele se exilou em Verona e relançou as bases do humanismo, que ajudou a mudar o modo como o homem via si mesmo. Contribuição para a eternidade, que se nota ainda hoje em todo mundo, a começar na arquitetura da vinícola Bertani, feliz produto do meio.

Felipe De Queiroz

Publicado em 12 de Maio de 2010 às 08:37


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista