O milagre de Santiago de Compostela

"Com pão e vinho se faz um bom caminho" (provérbio anônimo)


fotos: Mariana Mansur
A "Fonte de Irache" oferece vinho gratuito aos peregrinos. Encontrei a torneira seca

Vinho é história. E espírito. No parisiense Les Ambassadeurs, duas estrelas no conceituado Guia Michelin, me despedi da gastronomia dos aristocratas e dos vinhos mais caros aos connosseiurs para iniciar, a pé, o Caminho de Santiago de Compostela, no sul do país. Com mochila às costas e cajado na mão, deixei de lado os prazeres da boa vida para me apegar ao estoicismo dos cristãos medievais. Tinha recebido dezenas de descrições dos "menus do peregrino", oferecidos a preços baixos para atrair os viajantes. Nos restaurantes ou bares, uma cesta de pães, dois pratos e uma sobremesa viriam junto com vinho ou água por apenas seis euros. Não esperava deparar com nenhum exemplar da nouvelle cousine à mesa, nem com a cozinha vanguardista espanhola. Talvez uma cozinha de terroir no melhor estilo "farta brutos" dos vizinhos portugueses (termo equivalente ao nosso "prato de pedreiro"), mais condizente com a condição financeira e física dos peregrinos. Dos vinhos, não esperava cruzar com nenhum rótulo prestigiado das regiões produtoras que atravessaria, especialmente Rioja. Talvez vinhos rústicos de família, servidos em jarros de barro ou garrafas reutilizadas inúmeras vezes.

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fotos: Mariana Mansur
Fachado do albergue de Bercianos del Camino

Após alguns dias de caminhada e refeições à base de carne, peixe e massa, cheguei a um dos pontos considerados emblemáticos pelos caminhantes, a "Fonte de Irache", construída em 1991 pela bodega do mesmo nome com a intenção de oferecer aos peregrinos, gratuitamente, todo o vinho que pudessem beber. Basta abrir uma das duas torneiras - a outra é de água - e se deliciar diretamente na fonte. Quando a esmola é demais o santo desconfia. Não tinha nenhuma pretensão de degustar um vinho excepcional de Navarra, ainda mais naquelas circunstâncias. Isso não me impediu de ficar imensamente infeliz ao perceber que não havia vinho lá. E ainda mais após ler um comunicado afixado na parede, alertando aos passantes que para chegar com saúde a Santiago deveriam provar o vinho de Irache. Conheci raras pessoas mais supersticiosas do que eu. Claro que acreditei na ameaça. Se tivesse comprado uma latinha de vinho na máquina ao lado, talvez me poupasse de uma lesão no joelho esquerdo e de dezenas de bolhas nos pés que quase acabaram com a minha aventura.

Segui adiante, rezando para que nada de mal me acontecesse. Mas a benção - ou maldição - do vinho me acompanhava dia-a-dia. O ditado "com pão e vinho se faz um bom caminho" parece slogan publicitário das vinícolas espanholas que estão na rota de peregrinação, mas transcende o hábito moderno da degustação e encontra respaldo nas características medicinais da bebida, já observadas pelo grego Hipócrates, centenas de anos antes de Cristo. "O vinho é uma bebida substancialmente maravilhosa apropriada ao homem, na saúde e na doença, se o administrarmos na justa medida, segundo a constituição de cada um", disse o pai da medicina. Taninos selvagens, jogo de forças desordenadas, notas de aroma e sabores estranhos ao mundo convencional da bebida disputavam as anotações em meu diário de viagem. Mas, como disse o dramaturgo Eurípedes, conterrâneo de Hipócrates, "o vinho foi dado ao homem para acalmar suas fadigas". E eu, um gourmet e enófilo penitente, pretendia ter forças para pagar todos os meus pecados - incluindo os da gula - e me livrar da ameaça de Irache a qualquer custo.

fotos: Mariana Mansur
Eu, um gourmet e enófilo penitente no Caminho de Santiago

Após algumas semanas de refeições ainda à base de carne, peixe e massa, e vinhos que animavam o corpo e desanimavam o espírito, cheguei a um vilarejo chamado Bercianos del Camino, tão pequeno que poderia ser atravessado de ponta a ponta em poucos minutos. Na chegada, fui saudado por um homem sorridente que me conduziu ao único albergue do pueblo. Era o hospitaleiro. Muito religioso, disse que o pagamento era donativo e a refeição, comunitária. No único armazém existente, cometi uma heresia e comprei um vinho em embalagem Tetra Pack, a única opção disponível. Na "sala de jantar", duas mesas de madeira eram compartilhadas por dezenas de peregrinos. Fiquei assustado com a quantidade de Tetra Packs. Antes do "banquete", orações em espanhol e a tradicional canção do peregrino entoada em francês. Logo, pratos de salada e macarronada com pedaços de embutidos, preparados pelos hospitaleiros, circulavam entre pessoas famintas. Ressabiado, aceitei em um copo de plástico a "dádiva de Dionísio". Imaginei que o deus grego estivesse no Olimpo dando gargalhadas da minha sorte. Mas sua alegria durou pouco. No primeiro gole, aquele vinho parecia mais elegante do que o "Château Margaux 1982" degustado no Les Ambassadeurs. Na sobremesa, era melhor do que o mítico "Chateau d´Yquem 1976". O caminho de Santiago de Compostela é cheio de histórias misteriosas, de encontros com anjos e demônios e dos mais diversos milagres. A partir daquele dia, eu tinha meu próprio milagre. Pessoal e intransferível. Um brinde a Santiago!!!

Fábio Farah

Publicado em 21 de Agosto de 2006 às 14:12


Crônica

Artigo publicado nesta revista