Revista ADEGA

Sinônimo de Elegância

Vinda de Borgonha, a complexa uva francesa conquistou paladares com seus aromas

Luiz Gastão Bolonhez em 23 de Julho de 2008 às 12:17

Billie Partsn Pieces/FLICKR

A Pinot Noir é uma das uvas mais complexas do mundo do vinho. Manuseá-la nas vinhas exige muito trabalho e, para prová-la, é necessário uma compreensão diferente das que temos normalmente sobre outros vinhos tintos. Por isso, nada mais natural que a revista ADEGA dedique suas páginas para discursar sobre ela. A missão aqui é falar de maneira ampla sobre o papel da Pinot Noir na produção de vinhos tintos, sem esquecer de mencionar que essa nobre uva é a responsável e, muitas vezes, a espinha dorsal de um dos vinhos mais singulares do planeta, o Champagne.

Na produção de tintos, ela dificilmente é blended com outras uvas, tendo sua fama calcada em varietais. Os vinhos tintos a base da Pinot Noir são, de uma maneira geral, sensuais, pálidos, perfumadamente doces e muitas vezes para reflexão. Por esses motivos e pelo seu caráter de exclusividade, esses nobres fermentados foram os protagonistas na tela do cinema no filme Sideways.

A uva Pinot Noir é o contraponto da especialíssima Cabernet Sauvignon que, francesa como ela, conquistou o mundo inteiro e é hoje sinônimo de vinho tinto. Enquanto a CS produz caldos encorpados, profundos e com muita intensidade, a Pinot Noir sempre traz exemplares com mais aromas e uma elegância que não consegue ser alcançada por nenhuma outra uva. Uma das mais significativas diferenças entre as duas está no desenvolvimento na vinha. Enquanto a Pinot Noir necessita de clima frio e tem maturação mais rápida, a CS consegue se desenvolver bem em climas quentes e é uma das mais tardias a amadurecer. A difícil adequação da Pinot Noir às condições climáticas é uma das razões de não termos muitas regiões do mundo com vinhos destacados. Clima quente produz vinhos que beiram a marmelada, perdendo todo o seu caráter.

Em adição a essas características, a Pinot Noir tem, normalmente, menos taninos e pigmentos que uvas como a própria Cabernet ou até mesmo Syrah, produzindo quase sempre vinhos mais claros. Não há como negar que, tanto no processo de desenvolvimento da vinha quanto no processo de vinificação, essa uva requer muito mais trabalho e dedicação se comparada com qualquer outra que produz vinhos tintos.

Borgonha
O berço da Pinot Noir é a maravilhosa Borgonha. Esta província localizada a sudeste de Paris tem como principal região na produção de vinhos a Côte D'Or (encosta dourada), dividida entre Côte de Beaune, sul da principal cidade da Região Beaune, e a Côte de Nuits, ao norte. A primeira produz, além de tintos fantásticos, os melhores vinhos bancos do planeta, todos a partir da Chardonnay. Ainda na região, a Côte Chalonnaise, localizada ao sul Beaune, produz excelentes vinhos.

As evidências nos dizem que a Pinot Noir é cultivada na Borgonha há mais de dois milênios - registros dessa uva datam do século IV a.C. Existem alguns indícios do seu cultivo desde o século IV d.C., mas oficialmente seu primeiro registro data do ano 1375. Vinte anos depois, um fato importante: Felipe O Atrevido, Duque da Borgonha, emitiu um documento que proibia o plantio da inferior Gamay na Côte D'Or a favor da Pinot Noir.

Uma das dificuldades para precisar sua idade é a instabilidade genética. De acordo com especialistas, a família Pinot é uma só, ou seja, Pinot Noir, Pinot Blanc e Pinot Gris têm o mesmo DNA. Um recente estudo publicado pela Universidade de Davis, na Califórnia, realizado em conjunto com especialistas franceses, diz que pelo menos 16 variedades atuais de uvas viníferas têm como antecessora a Pinot Noir, tais como, Chardonnay, Gamay Noir, La Melon de Bourgogne (mais conhecida como Muscadet) e Auxerrois (mais conhecida como Malbec).

É na Côte de Nuits que vamos encontrar os vinhos mais nobres do mundo. Essa Côte vai da comuna de Corgoloin até a comuna de Chenove. Nela, podemos descobrir desde os Grand Crus, Premieur Crus, os Comunais ou Village (por exemplo, Chambolle Musigny AOC - Appelation D'Origine Controlée) e bons genéricos Borgonhas AOCs.

Do sul para o norte, as AOCs mais imponentes e disputadas são: Nuits- St-Georges, excelentes Premier Crus; Vosne-Romanée, nessa comuna é produzido o vinho mais cobiçado do mundo, o Romanée Conti, que chega a custar mais de R$ 10 mil uma garrafa, além dos Richebourg, dos Echezaux, dentre outros; Vougeot, aqui temos o famoso Clos de Vougeot - "ator principal" do célebre filme A Festa de Babete; Chambolle Musigny, os famosos Musigny e o espetacular Bonnes Mares são os destaques; Morey-St-Denis, com o monumental quarteto de Clos - de Lambrays, de La Roche, St-Denis e de Tart; e Gevrey-Chambertin, com o estupendo Chambertin - favorito de Napoleão Bonaparte.

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Na Côte de Beaune temos, ao norte da cidade de Beaune, os únicos Grand Crus da região, a família Corton, com destaque para o Le Corton, Corton Clos du Roi e o Corton Les Bressandes. Ao sul de Beaune estão alguns espetaculares Premier Crus de Savigny-Lès-Beaune (La Dominode e Les Narbotons), Beaune (por exemplo, Lês Greves), Pommard (Les Pézerolles e Les Grands Epenots), Volnay (Clos dês Chênes, Taille Pieds e Les Brouillards) e a menos famosa Monthelie (Les Champs Fulliot).

Dos AOCs temos excelentes Pommard e Volnay básicos, bons Haut Côtes de Beaune e agradáveis Monthelie.

Charlie Chalk/FLICKR
Clos de Vougeot: seu vinho foi "ator principal" do célebre filme A Festa de Babete

Os preços dos raríssimos Grand Cru da Borgonha tiveram um incremento de mais de 400% nos últimos dez anos devido a um único fenômeno: a oferta e a procura, pois a produção dos mesmos não pode aumentar. O bom para os enófilos é que, apesar de existirem na região os melhores vinhos produzidos a partir da Pinot Noir, outras partes do mundo produzem atualmente interessantes fermentados dessa uva - que é a mais complexa do planeta. Os destaques são os Estados Unidos, principalmente Califórnia e Oregon; a Nova Zelândia, sobretudo a Ilha do Sul; o Chile, com ênfase para os Vale de Santo Antônio (Leyda), Casablanca e Limarí - todos a poucos quilômetros do Oceano Pacífico; e recentemente a Argentina, que surpreende com vinhos tanto de Mendoza quanto do Rio Negro (Patagônia). Na África do Sul, apesar de serem mais raros, pode-se encontrar excelentes exemplares.

Outras Regiões da França
Podemos encontrar alguns bons Pinot Noir fora da Borgonha, mas digamos que, com exceção do Vale do Loire, são raros. Sancerre é uma sub-região do Loire especializada em Pinot Noir. Sua localização geográfica é estratégica. Do topo da lindíssima pequena comuna de Sancerre avistase a Borgonha, ou seja, realmente seu posicionamento do ponto de vista vitivinícola é intimamente relacionado a uva em destaque.

Os Sancerre (tintos) são elaborados a base da Pinot Noir e muito apreciáveis. De uma maneira geral, são mais rústicos e menos elegantes, porém com uma boa tipicidade e marcante caráter. Dos vinhos mais raros provados e descobertos nos últimos doze meses, os destaques vão para a Alsácia - reconhecidamente famosa como uma região especializada em brancos, mas com confiáveis Pinot Noir; e a Provence, mais especificamente Coteaux du Verdon, onde os vinhos apresentam marcante elegância; e por último, o Languedoc-Roussillon, ainda muito em caráter experimental.

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Jr Ball/FLICKR

Europa
Há uma boa oferta de bons Pinot Noir por vários países da Europa. Na Itália, por exemplo, os melhores são da região da Úmbria. Encontramos algumas boas garrafas também na Toscana. Na Espanha é difícil achar alguma coisa. O que temos hoje são alguns experimentos. O mesmo está acontecendo em Portugal, que já produz considerável quantidade dessa uva, porém, com mais ênfase de uso em cortes.

A Alemanha, com uma quantidade restrita de vinhos tintos, tem na Pinot Noir uma de suas principais uvas, mas ainda sem a expressão necessária, principalmente se comparado com a excelente qualidade dos brancos. A vizinha Áustria, um fenômeno nos vinhos doces e muito bem postada em brancos secos, vem despontando com excelentes fermentados a partir da Pinot Noir. Os exemplares de Kamptal são excelentes e melhoram a cada dia.

A Suíça - principalmente nos Cantões de língua francesa, Valais e Vaud - produz em larga escala Pinot Noir de bom custo/beneficio, porém, de média complexidade se comparados com exemplares do resto do mundo. No Cantão de Neuchâtel, podemos encontrar bons tintos com essa nobre uva da Borgonha. Outros vários países da Europa produzem vinhos de Pinot Noir, mas, de uma maneira geral, sem destaques e com uma presença incipiente no Brasil.

Estados Unidos
Sem dúvida os Estados Unidos estão entre as grandes potências na produção de especiais vinhos a base da estrela da Borgonha. Os Pinot Noir de estirpe da América são espetaculares e talvez os únicos a rivalizar em qualidade e finesse com os top da França, claro que mantendo as devidas proporções. Se levarmos em consideração o quesito custo/benefício, com certeza esse país passa para o topo da lista.

Napa e Sonoma, dentro da Califórnia e Willamete Valley, no Estado de Oregon, são as regiões que mais se destacam. A sub-região de Carneros é uma das jóias da América na produção de grandes Pinot Noir com hectares tanto em Napa (em maior volume) quanto em Sonoma. Neste último está o Russian River Valley, pequeno espaço de terra de onde saem os mais espetaculares vinhos Pinot Noir fora da Borgonha.

Nova Zelândia
Impressionante o que um bom planejamento e foco, após análise profunda, podem gerar de resultados. Esse pequeno país concluiu após inúmeros estudos que tanto Ilha Norte quanto Ilha Sul tinham condições climáticas adequadas para o desenvolvimento dessa uva. Hoje, a Nova Zelândia é uma potência na produção de deliciosos caldos com Pinot Noir.

Ao Norte da Ilha Sul temos a região de Marlborough com excelentes vinhos, mas ao Sul está localizada a região de Central Otago, que produz os mais disputados exemplares do país. Ao Sul da Ilha Norte temos, em Wairarapa e Martinborough, os destaques na produção de grandes fermentados desta uva. Além dessas destacadas regiões, podemos encontrar bons Pinot Noirs por todo o país.

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Michale Major/FLICKR

Chile
É notório o que esse pequeno mas extenso país está realizando na produção de vinhos. Os vinhos top do Chile são disputados em todo o mundo e cada vez estão mais completos. A CS é a espinha dorsal dos principais vinhos desta terra e, ultimamente, vem surpreendendo o mundo com estupendos e surpreendentes Carmènere. Esse povo parece incansável na busca de bons vinhos e não deixou por menos. Desenvolveu em três específicas regiões plantações de Pinot Noir que, para a felicidade dos enófilos, vêm produzindo deliciosos exemplares.

As três regiões em questão são Casablanca, a leste de Valparaiso, Vale de Santo Antonio, ao sul de Valparaiso, e o Vale de Limarí, a cerca de 400 quilômetros ao norte de Santiago. Casablanca está consolidada e já leva tempo produzindo bons fermentados desta uva, mas o Vale de Santo Antonio, onde está incrustada a sub-região de Leyda, tem mostrado, talvez, os mais espetaculares Pinot Noir de toda a América do Sul. O Vale de Limarí, também novo, recentemente vem apresentando bons vinhos a base da uva - uma das que mais crescem no plantio nos últimos cinco anos.

Temos uma quarta região super nova, um pouco ao norte da cidade litorânea de Viña del Mar, que é muito promissora, trata-se de Manzanar, onde a Pinot Noir vem demonstrando excelente adaptação. As primeiras colheitas ainda não estão engarrafadas, mas as provas iniciais são de entusiasmar.

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Argentina
Ainda mais surpreendente que o Chile, pois começou mais tarde e já colhe resultados impressionantes. Mendoza, coração vitivínicola do país, tem certa dificuldade na produção de bons Pinot Noirs, mas quando falamos de vinhos de alta gama, já temos algumas raridades.

A surpresa mais intrigante vem da região de Rio Negro, na Patagônia, onde há alguns anos alguns produtores começaram a obter bons resultados. Um dos produtores está colocando no mercado vinhos de altíssima expressão. O mais interessante é que a pessoa em questão é italiano e com relação direta na produção de CS. Estamos falando de Piero Incisa della Rochetta, sobrinho de Nicollo, proprietário do majestoso Supertoscano Cabernet Based, Sassicaia. Podemos esperar com muito otimismo excelentes Pinot Noir de nosso vizinho.

Pink Fish/FLICKR

África do Sul
Longe de ser a especialidade desse intrigante país, a Pinot Noir tem feito um papel muito interessante por lá, principalmente nas regiões mais a leste da Cidade do Cabo. As regiões que se destacam na produção desses vinhos são Walker Bay, com ênfase para Hermanus e Paarl, que tem colocado bons exemplares no mercado nos últimos anos, sempre com mais corpo e, principalmente, mais álcool.

A porcentagem da Pinot Noir em relação ao total de território plantado na África do Sul é de 0,6%, mesmo assim, o Guia John Platter 2008 (o mais renomado do país) elegeu um Pinot Noir de Walker Bay como Wine of the Year. Com esse resultado, podemos ficar ainda mais crédulos que a uva que reina na Borgonha pode ser também majestade na África.

Austrália, Canadá,
Uruguai e Brasil

Para finalizar, temos quatro países que também têm concentrado esforços em produzir vinhos tintos a base desta uva. Dentre os quais o mais destacado é a Austrália, que não tem especialidade em Pinot Noir, mas vem produzindo bons exemplares a bons preços. Nunca provei grandes expoentes desse país, mas algumas agradáveis garrafas na fase básica.

O Canadá vem produzindo vinhos de média a boa qualidade e, ultimamente, realizou marcantes saltos neste quesito. O país está subindo a ladeira. Nosso vizinho Uruguai, um país pequeno, mas com boa tradição na produção de vinhos, tem colocado a Pinot Noir no mapa. Os primeiros resultados são interessantes, mas o tempo dirá o real potencial da região.

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Por último, nosso Brasil tem tido uma boa performance na produção da uva em questão, mas tudo que é difícil no mundo inteiro aqui é potencializado devido a quase ausência de climas adequados. Além de boas garrafas provenientes do Rio Grande do Sul, temos agora um novo player no cenário. Santa Catarina vem despontado com bons exemplares nos últimos anos. Em nossa 30ª edição, a repórter especial Sílvia Mascella Rosa comentou o quão especial é o Quinta da Neve Pinot Noir 2006, dos arredores de São Joaquim, na Serra Catarinense.

Grande degustação
Foi com grande alegria e prazer que nós da Revista ADEGA degustamos mais de 80 Pinot Noirs das mais diversas regiões vitivinícolas do mundo. Selecionamos vinhos das regiões mais significativas. É um prazer mesmo, pois quem procura exemplares cheios de charme, elegância e unicidade, não pode perder a oportunidade de conhecer caldos dessa uva que é a mais especial dentre todas.


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Artigo publicado nesta revista


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