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    Encravada na DOC que leva o nome do papa que criou os cantos gregorianos, Feudi di San Gregório cultua, mas também rompe com as tradições da região, porém sempre em harmonia

    por Arnaldo Grizzo

    Divulgação
    Arquiteto japonês, Hikaru Mori, e designers italianos, Massimo e Lella Vignelli, foram responsáveis pelos desenhos

    O que se espera de uma viagem pela Itália? Especialmente para o sul da bota, uma região que, mais do que cultivar suas tradições, as venera? Casas típicas, construções antigas, uma história rica que se descobre em cada canto, embaixo de cada pedra, que remonta a um passado que lemos nos livros da escola ainda no primário.
    O sul da Itália é um mundo a parte. Até mesmo o idioma falado pelos habitantes da região não é o mesmo italiano do norte. O orgulho de se viver naquelas terras, que muitos consideram atrasadas em relação ao resto do país, reflete-se nessas "línguas próprias", que criam canções exultando o espírito do seu povo.
    A região de Nápoles é a maior prova disso. É uma terra que remonta a tempos do começo da civilização, que teve um pouco de sua história gravada com a trágica erupção do Vesúvio (em agosto do ano 79 da era cristã) e soterrou Pompeia. Todo o entorno ainda guarda tradições antiquíssimas, de épocas ainda mais remotas.
    Próximo de Nápoles fica Avellino. Dentro dessa província está a DOC de San Gregório, cujas terras pertenciam à igreja e as vinhas já eram cultivadas há muito tempo. O nome da denominação de origem é uma homenagem a Gregório Magno, papa de 590 a 604, que compilou os cânticos que deram origem aos famosos cantos gregorianos. E é nas colinas da vila de Sorbo Serpico, dentro desta DOC, que está uma vinícola "nova" que, ao mesmo tempo que busca se enquadrar na paisagem do sul da Itália, encontrou uma maneira de se destacar, trazendo novos elementos para esta região tão tradicionalista.

    INFLUÊNCIA ORIENTAL
    A vinícola Feudi di San Gregório é inovadora e, pode-se dizer, nova. Ela foi fundada em 1986. Há 24 anos, o casal Enzo Eroclino e Mirella Capaldo deram início a este projeto sui generis, que ganhou formas finais (pouco convencionais para os padrões italianos) em 2004. Para dar corpo ao projeto, eles chamaram o arquiteto japonês Hikaru Mori, que desenhou a estrutura arquitetônica do local, e também os designers italianos Massimo e Lella Vignelli, que desenharam os arredores e interior da vinícola, além de criarem os rótulos de seus vinhos.
    O desejo da Feudi de San Gregório é ser um marco na revolução do vinho do sul da Itália, que ficou desprestigiado durante muitos anos, perdendo terreno para regiões mais ao norte como Toscana e Piemonte. E, além de se focar no trabalho das vinhas autóctones da região, os proprietários investiram muito na sua marca e na montagem de uma estrutura que representasse esse espírito renovador.
    Sendo assim, as formas retas e simples moldadas por Hikaru Mori criaram um projeto arquitetônico futurístico, que se destaca na paisagem de solo vulcânico. Exterior e interior conversam em harmonia e a influência oriental se nota também nos jardins de ervas, especiarias e rosas, nos caminhos de pedra, no uso da água para criar mini lagos e cascatas.

    #Q#
    Divulgação
    Todo o desenho da vinícola possui clara influência oriental

    HARMONIA E BIENAL
    Dentro da vinícola há uma longa fileira de barricas de carvalho reservadas para armazenar os vinhos tintos e um espaço dedicado a produção dos espumantes (feitos pelo método clássico), que são ambientes que relembram a riqueza da tradição vitivinícola da região. A estrutura, que se encontra em sua maior parte subterrânea, está integrada ao ambiente, visando um mínimo impacto ambiental.
    Há ainda uma sala cercada de vidraças, onde se pode ter uma vista privilegiada de todas as barricas, e que a Feudi di San Gregório quer que seja, além de um local de degustação, um ponto de encontro, debates, descobertas e meditação - um laboratório de ideias e conhecimento. Tamanhas inovações chegaram a ser apresentadas na mostra internacional de arquitetura de 2010 na Bienal de Veneza, uma das mais importantes do mundo.

    Inovações propostas o projeto da vinícola
    foram apresentadas na Bienal de Veneza

    Divulgação

    RESTAURANTE, WINEBAR E CANTO GREGORIANO?
    Dentro do projeto da vinícola ainda se destaca o restaurante Marennà, que já ganhou uma estrela do Guia Michelin em 2009. Ou seja, além do desenho retilíneo, aconchegante que, devido às grandes janelas de vidro, privilegiam o panorama encantador da região, a comida também é um dos pontos altos.
    Depois, há também o winebar da vinícola, situado dentro do Volcano Buono. A belíssima arquitetura do local é de autoria do arquiteto Renzo Piano. A proposta é não somente ser um simples ponto de encontro de degustação, mas uma experiência refinada de degustação no interior desta "adega de autor", onde todos participam de uma troca de experiências e sensações.
    Por fim, dentro da adega, cercado de barricas de carvalho, acontecem alguns eventos musicais envolvendo degustações temáticas e música ao vivo. Além de seu nome estar diretamente ligado aos cantos gregorianos, que devem essa denominação ao papa Gregório Magno - que os selecionou e adaptou para utilização nas celebrações religiosas cristãs durante seu pontificado -, a vinícola tem como tradição promover eventos musicais, aproveitando o ambiente cercado de cultura. Porém, por mais moderna que as formas e conceitos da Feudi di San Gregório sejam, rompendo com as tradições, a vinícola representa verdadeiramente uma evolução dos costumes e crenças da região.

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