Terra de reis

Quinta do Casal Branco, com mais de 200 anos de tradição, guarda resquícios intactos da arquitetura de épocas clássicas


fotos: Divulgação

Na cidadezinha de Almeirim - região centro-oeste de Portugal -, localizada a cerca de 100 quilômetros ao norte da capital Lisboa, fica a Quinta do Casal Branco.

O município, que pertence ao distrito de Santarém, fica na margem esquerda do mais emblemático rio português, o Tejo, e vem sendo - ao longo dos anos - destino de veraneio de afortunados que, por acaso ou planejamento, têm o privilégio de cruzarem os caminhos desta bela planície em Portugal. Incrustada em uma imensidão de vastos vinhedos e campos de trigo, cujos limites se perdem no horizonte, confundindo os olhos do mais atento observador, esta pequenina quinta no vale do Tejo seduz aos que por lá passam, não apenas por seus finos e elegantes vinhos.

Com 660 hectares, a Casal Branco - que há séculos se dedica à agricultura -, oferece, também, a seus visitantes uma experiência rica, brindando-lhes com deliciosas dozes de farta história e bela arquitetura.

Simetria da Quinta do Casal Branco impressiona

"Casa real"

A proximidade com Lisboa e os atrativos naturais de Almeirim fizeram deste lugar no Ribatejo um dos destinos preferidos da corte real lusitana. Nas agitadas temporadas de verão em que a nata da sociedade portuguesa se deslocava para a cidade, a Casal Branco - que desde 1775 pertence à família Cruz Sobral - era um dos pontos preferidos dos reis e rainhas daquela época.

D. Miguel era um dos que frequentavam o lugar. Segundo conta a história, o rei, que era um apaixonado por touradas, ia para a quinta desfrutar dos prazeres de seu passatempo preferido. Outra atividade esportiva muito popular entre os membros da corte há alguns séculos era a falcoaria, ou, como gostam de definir os amantes desta atividade, "a arte de caçar com falcões".

Desta época, restou um imponente pombal que, segundo estima-se, foi construído nos idos do século XVI. Trata-se de um exemplar raro do patrimônio português, tanto pelas suas dimensões como pelo traçado arquitetônico. Daí, obviamente, vem o nome de um de seus principais vinhos (Falcoaria).

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Casa Senhorial: beleza e tradição

A quinta do Casal Branco tem a qualidade de aliar, com rara sintonia, as maravilhas das belas paisagens da região com uma arquitetura de marcante bom gosto.

As linhas, cuidadosamente bem trabalhadas e preservadas ao longo dos anos, a custo de bastante esforço, refletem a preocupação desta vinícola com o patrimônio arquitetônico.

A Casa Senhorial é o melhor exemplo disso. Construída no início do século XX, a propriedade, que foi projetada pelo importante arquiteto português do século passado Álvaro Miranda, exibe beleza e tradição, e representa uma síntese histórica da arquitetura portuguesa.

No piso térreo, em lugar de destaque, encontra-se uma capela dedicada à Nossa Senhora Carmo, lugar de onde é possível contemplar obras de arte de rara beleza e valiosas imagens de conventos extintos.

fotos: Divulgação
Dos tempos da falcoaria restou apenas o pombal

Estilo

Este local da quinta, em especial, é um achado, que seduz seus visitantes com seus recantos charmosos, que remetem a uma época há muito passada, mas que nesta casa portuguesa renasce em cada pequeno detalhe, que compõe a magia e esplendor da construção. Vista de frente, a fachada impressiona pela simetria.

As partes esquerda e direita da construção parecem, lado a lado, um espelho uma do outra. As escadas, as numerosas janelas são cuidadosamente desenhadas, os lustres na varanda impressionam.

Tudo o que se vê de um lado, se observa do outro, em rigorosa sintonia de tamanho, proporção e posicionamento; exceção feita apenas a um humilde banquinho, que descansa solitário à esquerda da construção, sem um companheiro a lhe fazer companhia do outro lado. Um pequeno "deslize", que só serve, porém, para dar um pouco mais de graça e humanidade a este casarão que insiste em flertar com a perfeição.

Os magníficos jardins envolventes realçam o esplendor desta quinta. Amplos e suntuosos, eles reiteram o espírito clássico que impera na propriedade, atingindo, assim como a casa, um nível de harmonia que encanta até os mais desavisados visitantes.

Cercado por construções, os gramados da Casal Branco dão, por fim, um alívio providencial ao que poderia se tornar um excesso de concreto. Em uma visita, além de um passeio pelos vinhedos e pela casa, também é possível apreciar os belos cavalos Puro Sangue Lusitano da coudelaria da quinta, que é responsável por criar e adestrar animais que participam, com brilhantismo, de provas pelo mundo.

Por fim, na imensidão verde que marca o vale do Tejo, a Quinta do Casal Branco é um pequeno ponto de desequilíbrio. Um lugarejo no interior de Portugal onde, no final de cada tarde, o brilho intenso do sol no horizonte apaga dos olhos os limites que dividem céu e terra. Uma inspiração e tanto para aqueles que - seja na elaboração de maravilhosos vinhos ou no culto à arquitetura clássica - gostam de imitar os deuses.

Felipe De Queiroz

Publicado em 2 de Setembro de 2009 às 14:33


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista