Vinhos irresponsáveis

Ergo, bibamos!


foto e ilustração: Big Box of the ArtO vinho é mais velho do que a História: nascido na Ásia Menor, em tempos imemoriais, veio de copo em copo até a boca do consumidor atual. Ou do bolso, pois é também um bom negócio. Mas fiquemos na liturgia: bebê-lo é um prazer, degustá-lo uma arte. Supõe sensibilidade e serenidade. Tempo. Para a cerimônia do vinho, a palavra amanhã já é urgência. O vinho é cor, presença, aroma e vertigem.

De tal forma que foi a partir dele que surgiu o brinde. Para os romanos, sua simples chegada já supunha o despertar dos sentidos clássicos: visão, tato, olfato, paladar... Faltava apenas a audição. Por isso, e para despertá-la, batiam-se as taças (de estanho e cobre), o que produzia forte estalido; a seguir, reduziram-se os decibéis pela sinfonia do cristal . Mesmo assim, era pouco: faltava o calor da voz humana. Passou-se, então, a dizer o brinde. E é assim que, em francês, se diz santé; em inglês, cheers; os napolitanos dizem salute e figli maschi; os suecos dizem skoll; os árabes, sah-tem, e nós dizemos saúde.

Nós??
Sim, em geral. Mas proponho uma variável: quando você sentir que, entre o seu olhar e o dela se acendeu um fósforo, como a pupila do gato quando risca um topázio na franja da madrugada, levante o seu copo e diga, devagarinho, com uma patrulhinha fazendo ronda: a nós que nos bastamos. Três minutos depois, deite falação, mostrando sabedoria: defenda os brancos, escolhendo os príncipes: o Gewürztraminer, por exemplo, um vinho com aroma de madrugada, intenso, frutado, doce e seco.

Regiões de origem: na França, a Alsácia; na Alemanha, a Renânia. Continue pelos Chardonnay: há os franceses, mas também os excelentes americanos, australianos, neozelandeses, chilenos, argentinos, belos brancos, enfim, nascidos da costela da uva-madrinha do champagne. É um vinho seco, delicado, cor de âmbar, querendo ouro. Ambos acompanham comidas leves: peixes, galinha, saladas, queijos etc. O Gewurz, como é chamado pelos íntimos, vai bem solteiro, também: num fim de manhã ou na franja da tarde, sempre bem gelado, Neruda ao alcance da mão.

Está rolando um clima?
Vá em frente. Já que estamos falando de monsenhores - e não de cardeais - convoque um Beaujolais, mas com ar displicente, assim como quem escolhe uma bermuda em Miami.Até porque ele é o mais mulato dos tintos, o único tinto do hemisfério norte que é colhido, engarrafado e servido no mesmo ano da colheita. Por isso, é um vinho adolescente, "namorado" de ocasião de qualquer prato não-sofisticado: carpaccio, pizza, tiragosto, sanduíche mesmo.

Logo após proválo, vem à boca um sabor de amora, cereja, às vezes banana. Sua cor é violácea, querendo o rubi. Região de origem; a Borgonha Meridional, na França. Mas chega de discurso. A gente só deveria falar de vinho para bebê-lo, sem "falar" de boca cheia. Por isso, eleve a sua taça com a elegância de um samurai desembainhando a espada e, para pasmo dos demais, brinde em latim: ergo, bibamos. E não diga mais nenhuma palavra para não cair no ridículo.

* Reinaldo Paes Barreto, é membro fundador da confraria "Os Companheiros da Boa Mesa"

Reinaldo Paes Barreto

Publicado em 14 de Fevereiro de 2006 às 07:42


Crônica

Artigo publicado nesta revista