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  • A nova geografia do vinho no Brasil

    O país alargou as regiões produtoras de vinho para além dos paralelos convencionais e inovou ao provar que, como disse Pero Vaz de Caminha, nesta terra tudo dá, inclusive vinho em região árida

    por Euclides Penedo Borges

    Jesse Therrien/Stock.Xchng

    A literatura sobre vinhos finos no Brasil, antes de 1990, se restringia aos dados da Serra Gaúcha e às menções sobre a produção na fronteira com o Uruguai. Este início de milênio nos traz duas novidades notáveis, a saber, os vinhos da região mais árida do país, o vale do São Francisco, e os de sua região mais fria, o planalto de São Joaquim.

    #R#

    O próprio mapa enológico do Rio Grande do Sul, onde tudo começou, foi enriquecido com a consolidação da Campanha Gaúcha, o desenvolvimento da Serra do Sudeste e a inclusão dos Campos de Cima da Serra, no norte do estado.

    O planalto catarinense

    A aclimatação de variedades finas em São Joaquim e Bom Retiro, em Santa Catarina, na altitude de 1200 metros, e a implantação de vinícolas no local, fizeram do planalto de São Joaquim a mais nova área vinícola do Brasil. Baixas temperaturas invernais, amplitude térmica de 15 graus e solos pedregosos isentos de matéria orgânica, criaram uma expectativa favorável em torno da qualidade das uvas da região. A altitude elevada e o frio propiciarão a colheita das tintas em março, diferentemente da Serra Gaúcha que colhe em fevereiro, oferecendo uvas mais estruturadas e vinhos dotados de mais corpo e longevidade.

    A instalação local de maior porte - a Vinícola Villa Francione - está situada na estrada de São Joaquim para Lages e é administrada pelos herdeiros do empresário Dilor de Freitas, quem iniciou o empreendimento. O primeiro vinho da Francione, um branco da Chardonnay, foi apresentado em 2005. O seu primeiro Cabernet Sauvignon, que se apresenta mais alcoólico para os níveis brasileiros, estará no mercado entre 2006 e 2007.

    Campos de cima da serra

    No planalto do extremo norte do Rio Grande do Sul, a 1000 metros de altitude, ocorreu a implantação dos vinhedos de Campos de Cima da Serra, nas redondezas de Vacaria (RS). Por iniciativa do empresário Raul Anselmo Randon foram aclimatadas, desde 2000, as variedades Cabernet Sauvignon e Merlot.

    Um convênio de Randon com a família Miolo ensejou a elaboração de um interessante tinto Cabernet - Merlot sob a marca RAR, iniciais do nome do empresário. Os vinhos RAR de Campos de Cima já estão no mercado. É possível esperar uma expansão do vinhedo atual e, no futuro próximo, dependendo do sucesso dessa iniciativa, a fixação de outros produtores de uvas e vinhos finos nessa localidade gaúcha.

    A serra do sudeste

    divulgação
    Vinhedo no Vale do Rio São Francisco

    Incluindo as localidades de Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul, a serra do sudeste do Rio Grande do Sul apresenta ondulações pronunciadas, mas as altitudes não são elevadas, cerca de 600 m acima do nível do mar.

    Área de clima temperado e solos graníticos, a serra tem provado adequação no cultivo de uvas nobres, tintas como Cabernet Franc e Merlot, brancas como Sauvignon Blanc e Malvasia. A colheita atual da região produz o suficiente para originar 500 mil garrafas de tintos e brancos, vinificados, por enquanto, em instalações da Serra Gaúcha.

    A serra gaúcha

    Situada na latitude de 29 graus sul, essa região era o único pólo brasileiro de vinhos finos nos anos 70. Responsável por 90% do vinho produzido no Brasil, a Serra Gaúcha tem como centro o município de Bento Gonçalves, onde se encontra o Vale dos Vinhedos, e inclui outros municípios importantes como Garibaldi, Caxias do Sul e Flores da Cunha. A região encontra-se em altitudes entre 400 e 600 metros, solos areno- argilosos ácidos e a elevada pluviosidade de 1800 mm.

    Ainda que se desenvolva no momento um esforço para melhoria de qualidade, com troca das parreiras por espaldeiras e de uvas americanas comuns por uvas européias nobres, a proporção de uvas viníferas na Serra Gaúcha não passa de 15%.

    Em termos qualitativos a região se destaca por alguns de seus tintos mais cuidados e por seus espumantes.

    A campanha gaúcha

    Tendo os pampas como paisagem típica, a região fronteiriça do Brasil com o Uruguai dispõe de terrenos planos - ou pouco ondulados - a altitudes baixas, entre 100 e 200 m acima do nível do mar. Exibe clima temperado com verões quentes e secos, menos chuvosos que a Serra Gaúcha. Os terrenos, infelizmente, são medianamente férteis, o que leva, em geral, a vinhos menos estruturados.

    Nessa área, o principal pólo viti vinícola continua sendo Palomas, em Santana do Livramento, onde a empresa americana Almadén plantou, nos anos setenta, extensos vinhedos hoje pertencentes à multinacional Pernod-Rica

    Os vinhedos fronteiriços produzem uvas Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot entre as tintas e Riesling, Chardonnay e Gewürztraminer entre as brancas.

    Recentemente, nos municípios de Bagé e Candiota foram aclimatadas as castas portuguesas Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz. Consolida-se, assim, a Campanha Gaúcha como partícipe na geografia do vinho nacional.

    O Vale do São Francisco

    divulgação
    Vinhedo no Vale do Rio São Francisco

    Em torno do eixo Petrolina - Juazeiro o vale do Rio São Francisco apresenta terrenos planos, na altitude de 400 metros, com paisagem típica da caatinga. Localizado fora da faixa apropriada para o cultivo de uvas viníferas, o semi-árido apresenta baixa pluviosidade (menos de 500 mm) e forte insolação. O cultivo tornou-se possível graças à irrigação controlada com a água do rio. Seus solos areno-argilosos permeáveis têm se mostrado adequados para a aclimatação de videiras como Moscatel, Cabernet Sauvignon e Syrah. Na localidade de Santa Maria da Boa Vista, no lado pernambucano, a empresa Vinibrasil elabora vinhos tintos, roses, brancos e espumantes da linha Rio Sol. No município de Casa Nova, no lado baiano, as empresas Miolo e Lovara produzem brancos secos, brancos doces, tintos e espumantes da marca Terranova. Sem deixar de lado a marca Boticelli, pioneira de Santa Maria, onde também estão aclimatadas a Tannat, a Petit Syrah e a Ruby Cabernet. Como se vê, a geografia brasileira de vinhos finos ampliou- se e demonstra vitalidade.

    Mais de uma safra por ano
    pelo enólogo Luciano Manfroi

    O Vale do São Francisco possui uma área de 640.000 Km2 distribuída em 503 municípios. A região do Submédio São Francisco se estende de Remanso até Paulo Afonso (BA) e possui clima semi-árido tropical, com área de 230 mil hectares irrigáveis. Na região, a viticultura é desenvolvida sob características climáticas que a distingue das tradicionais.

    A cultura da videira, tanto para o consumo in natura quanto para a produção de vinhos, tem apresentado resultados satisfatórios em área plantada e rentabilidade. O consumidor de vinhos também tem se mostrado receptivo a produtos com origens - e características - diferentes. Fatores como nove meses de estiagem, alta luminosidade e baixa umidade relativa do ar garantem a produção de mais de uma safra por ano, dando ao país vantagens competitivas frente aos mercados externos.

    Os indicadores da vitivinicultura no Vale do Submédio São Francisco revelaram que em 2005 a região contava com o cultivo de 400 ha de videiras, com uma produção aproximada de seis milhões de litros de vinhos finos e derivados. As variedades tintas cultivadas são Shiraz, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Ruby Cabernet. Entre as brancas destacam-se Moscatéis, Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Moscato Canelli. No entanto, outras variedades estão testadas para a elaboração de vinhos, como Grenache, Barbera, Tempranillo, Trincadeira, Petit Verdot, Periquita, Flora, Colombard, Malvasia Bianca e Muscadelle.

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