Rara e tânica, variedade da Emilia-Romagna vai dos vinhos secos aos passitos e laranjas

por Júlio César Kunz
Ao nos colocarmos na posição de alunos, é como se voltássemos no tempo. Subitamente, tudo o que acreditávamos saber se dissipa em uma nuvem de dúvidas e inseguranças. A primeira pergunta que surge é: “Será que isso será cobrado na prova?” Como professor, procuro tranquilizar os estudantes, enfatizando que o mais importante é o aprendizado. Contudo, quando estou na posição de avaliado, a perspectiva muda completamente.
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Em 2025, participei da formação para Embaixador de Vinhos da Itália na Vinitaly International Academy, em Verona. Surgiram diversas dúvidas: qual profundidade de conhecimento seria exigida sobre uvas clássicas? Qual o nível de detalhamento sobre DOC e DOCG de prestígio? Quais uvas e regiões menos conhecidas poderiam ser abordadas? Qual seria a abordagem na degustação às cegas?
Estava particularmente ansioso pelas sessões de degustação conduzidas por Sarah Heller, a mais jovem a conquistar o título de Master of Wine. Na primeira prática, sem prévias explicações, foram servidos dois vinhos às cegas, os quais deveríamos descrever, buscando compreender seu método de elaboração e identificar a uva e região de origem. Diante de um vinho branco de coloração palha, com intensidade média de aromas de maçã e pera amarela, notas florais, alta acidez e uma textura levemente granulada em um corpo médio alto envolvente, além de boa complexidade com frutas cítricas e uma nota herbácea, imaginei estar diante de um Soave Superiore DOCG. No entanto, tratava-se de um Albana.
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Albana! Seria possível que uma variedade tão rara fosse abordada na prova? O burburinho se espalhou entre os colegas, que, apesar de experientes, demonstravam apreensão quanto à avaliação. A sua área de menos de mil hectares cultivados na Itália concentra-se quase em sua totalidade na região da Emilia-Romagna, mais conhecida aqui pelos seus Lambruscos. Entretanto, destaca-se por ser a base da primeira Denominazione di Origine Controllata e Garantita (DOCG) italiana para vinhos brancos, a Romagna Albana DOCG, na qual a uva deve compor no mínimo 95% do corte. Hoje, essa DOCG é estampada no rótulo de cerca de um milhão de garrafas por ano, abrangendo os mais diversos estilos.
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Dentro da DOCG Romagna Albana, destaca-se a comuna de Bertinoro, considerada um cru — um terraço situado a cerca de 250 metros de altitude, onde essa variedade branca expressa seu melhor equilíbrio e potencial. A origem do nome “Albana” possivelmente remonta à palavra latina alba, que significa “branca”, refletindo a cor das uvas. Entretanto, a lenda mais encantadora sobre a denominação de Bertinoro envolve Galla Placídia (392–450), filha do imperador Teodósio. Segundo a tradição, ao degustar o vinho local servido em uma simples taça de cerâmica, ela teria exclamado que tal néctar merecia ser “bebido em ouro” (berti in oro), originando assim o nome da comuna.
Geneticamente, a Albana é descendente da Garganega e possui relação com a rara variedade Trebbianina, que contava com apenas 30 hectares cultivados, conforme dados de 2016. Essas conexões genéticas são fundamentais para compreender características compartilhadas entre os vinhos. Por exemplo, ao degustar um Albana às cegas, é compreensível associá-lo a um Soave, como fiz, dada a acidez e versatilidade semelhantes. No entanto, a Albana distingue-se por ser uma das uvas brancas mais tânicas da Itália, característica que pode variar conforme o método de vinificação.
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A textura granulada dos vinhos de Albana é uma de suas marcas registradas, conferindo-lhes tanto diferenciação quanto versatilidade. Tradicionalmente, os estilos passito eram mais comuns, apresentando coloração dourada tendendo ao âmbar e aromas intensos de frutas secas. A versão passito riserva deve ser elaborada a partir de uvas afetadas pela botrytis cinerea (podridão nobre) em algum nível, resultando em vinhos de complexidade aromática notável.
Nos últimos anos, observa-se uma tendência crescente na produção de vinhos secos de Albana, que mantêm a característica levemente tânica, contribuindo para a sua estrutura. Dependendo do ponto de colheita, alguns exemplares podem apresentar acidez moderada e maior teor alcoólico, resultando em uma textura mais untuosa, lembrando cera de abelha. Bem como perfis mais frutados ou mais florais, de acordo com as variações de terroir. Com o advento dos vinhos laranja, surgiram interpretações da Albana fermentadas em ânforas, oferecendo uma textura ainda mais intensa e complexidade surpreendente, reforçando sua reputação como um “vinho tinto disfarçado de branco”.
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Em suma, a Albana é uma joia da viticultura italiana que, apesar de sua produção limitada, oferece, além da oportunidade de fugir do óbvio, uma riqueza de estilos e sabores que merecem ser explorados e apreciados.