Idealizados pelo lendário barão Philippe de Rotschild, os rótulos artísticos conquistaram as vinícolas do mundo
por Marcelo Copello

"O excelente vinho gera entusiasmo. E qualquer coisa que você faça com entusiasmo é geralmente bem-sucedida", disse o Barão Philippe de Rothschild.
Desde que ele chamou o artista cubista Jean Carlu para criar um rótulo para a safra de 1924 do Château Mouton Rothschild, a prática de colocar obras de arte em rótulos de vinho disseminou-se. A boa ideia do lendário barão foi salutarmente imitada nos quatro cantos do planeta, sob diversas formas.
Clique aqui e assista aos vídeos da Revista ADEGA no YouTube
Tudo começou numa época em que os grandes vinhos de Bordeaux saíam dos Châteaux em barris, para posteriormente serem engarrafados, rotulados e vendidos por negociantes. Sem controle direto sobre o resultado final, o produtor (o dono do Château) tinha pouco interesse na aparência do rótulo. O design era, então, deixado a cargo do comerciante.
Em 1924, o Château Mouton Rothschild (CMR) instituiu uma prática revolucionária: a safra passou a ser inteiramente engarrafada no local. Foi o nascimento do famoso "mise en bouteilles au château" (engarrafado no castelo), procedimento que logo foi adotado por outros grandes vinhos de Bordeaux.

Uma das consequências deste procedimento foi a responsabilidade direta do produtor, perante o consumidor, pela qualidade final do produto. Os rótulos, então, ganharam uma nova função: eles se tornaram a certidão de nascimento de cada garrafa. Desejando chamar a atenção para este fato, o Barão Philippe de Rothschild contratou Carlu. O artista deveria criar uma obra original para ser colocada no rótulo da safra de 1924.
LEIA TAMBÉM: Pêra-Manca, a história do rótulo de um clássico português
Nos anos seguintes, este rótulo passou por inúmeras modificações até 1945, final da Segunda Guerra Mundial. Ao retornar dos campos de batalha, o Barão Philippe teve uma ideia revolucionária: a cada ano, entregar a concepção do rótulo a um artista contemporâneo, que o ilustraria com uma obra original.
Desde então, uma invejável lista se sucedeu na criação de rótulos para o CMR: Georges Braque, Salvador Dalí, Henry Moore, Juan Miró, Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Andy Warhol, entre outros. As garrafas do Premier Cru Classé se tornaram itens de colecionador, não apenas por seu conteúdo, mas também por sua apresentação. A safra de 1973, por exemplo, considerada fraca, fez grande sucesso por ostentar em seu rótulo uma obra de Pablo Picasso, em homenagem ao artista catalão no ano de sua morte.

Outra das muitas histórias interessantes ligadas aos rótulos do CMR se refere à safra de 1993. O rótulo original, criado pelo artista Balthus, foi proibido nos Estados Unidos. Era um nu artístico em que a retratada foi considerada jovem demais. Resultado: o vinho foi vendido com uma tarja branca no lugar da pintura. Um disparate.
LEIA TAMBÉM: Quatro em cada cinco compram vinhos com base na aparência do rótulo
A prática de colocar obras de arte em rótulos de vinho foi salutarmente imitada por produtores no mundo inteiro. No Brasil, a Forrestier adotou a prática lançando, nos anos 80, sua linha Reserva, ilustrada por artistas brasileiros. Em 2001, a Salton lançou sua linha Salton Volpi, homenageando o pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (Itália, 1896 - Brasil, 1988), famoso por suas "bandeirinhas de São João".

Outra garrafa que se destacou pelo rótulo artístico foi o "Valpolicella Classico San Ciriaco", do produtor Boscaini. Ele ganhou o prêmio de melhor rótulo estrangeiro, concedido em 1996, nos Estados Unidos, pela Society of Wine Educators, e traz a obra Finestra su San Ciriaco, de Elena Schiavi Gazzola. O quadro é um retrato de uma janela aberta para os vinhedos da região.
Os exemplos são muitos, como os californianos da vinícola Buena Vista. A série Grand Reserve, composta por três vinhos: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir, na qual cada um traz uma tela de um pintor norte-americano no rótulo. Vale citar também o ótimo vinho espanhol Valduero, que exibe a tela Fundación de Castilla, de Vela Zanetti.
LEIA TAMBÉM: Saiba como um rótulo se torna um clássico do vinho
Porém, o caso que mais chamou a atenção nos últimos anos foi protagonizado pela Herdade do Esporão, vinícola portuguesa do Alentejo. Cada safra de seu vinho top, o "Garrafeira", traz em seu rótulo uma obra de arte original. A ilustração escolhida para o ano de 1999 foi do brasileiro Rubens Gerchman, considerado, por muitos, como o maior nome de sua geração.

Gerchman é o primeiro pintor não português a receber tal convite. Uma atenção especial ao Brasil, dada por uma das grandes vinícolas portuguesas. É bom lembrar que não apenas pinturas têm espaço nos rótulos dos vinhos. Outras formas de arte também já chegaram às etiquetas, como a fotografia, a literatura e a escultura. O tinto espanhol "Urban Oak", por exemplo, da vinícola O. Fournier, é decorado com belíssimas fotografias emolduradas por citações de clássicos, como Shakespeare.
O chileno "Peñalolen Sauvignon Blanc", da Vinícola Quebrada de Macul, além de delicioso, também impressiona os olhos, pois traz a foto de uma belíssima escultura em seu rótulo. Trata-se de uma obra original do premiadíssimo pintor e escultor chileno radicado em Nova Iorque, Benjamín Lira.
LEIA TAMBÉM: Billecart-Salmon: mais de 200 anos de tradição e inovação em Champagne
Exemplos de vinhos que trazem arte em seus rótulos existem hoje, felizmente, em profusão. Esses são uma prova da valorização da garrafa. Seguindo o espírito do genial Barão Philippe, complementam a arte dos vinhos, tornando-os obras para se apreciar antes mesmo da abertura da garrafa. Afinal, vinho também se "bebe" com os olhos.
+lidas

Brasil tem venda en primeur de Bordeaux cuja safra promete ser histórica

Papa Francisco pede que padres usem apenas vinhos “naturais” nos sacramentos

Para expandir mercado, Espanha traz vinhos para o Brasil

Os melhores vinhos degustados por ADEGA em 2023

OIV apoia pesquisas para o futuro do vinho