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  • Borgonha em Bordeaux

    A história do Château Lafleur, o vizinho discreto de Pétrus

    A grande vinícola de Bordeaux usa uma filosofia de produção borgonhesa

    por Arnaldo Grizzo

    Chateau Lafleur
    Château Lafleur: a ascensão discreta do Pomerol que rivaliza com Pétrus

    Até meados do século XX, os vinhos do Pomerol não figuravam entre os grandes nomes de Bordeaux. O Médoc era a casa dos mais prestigiados e caros. No entanto, mais recentemente, a pequena região na margem direita de Bordeaux, com apenas 12 quilômetros quadrados de área, tornou-se um fenômeno, com vinhos que, muitas vezes, superam os preços dos rótulos mais famosos de outras localidades próximas.

    Logo, nomes como Pétrus, Le Pin e Lafleur passaram a ser sussurrados em salas de degustação e caçados por colecionadores, alcançando valores estratosféricos, especialmente devido às produções diminutas. Entre eles, um dos mais aclamados, apesar de menos conhecido do público em geral, é Lafleur.

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    Os críticos, entre eles Robert Parker (a quem o Château deve muito de sua fama atual) e Jancis Robinson, não se cansam de dizer que definitivamente não é um vinho para neófitos, devido, principalmente, ao seu exotismo – com muita fruta fresca, acidez e mineralidade, diferenciando-se de seus conterrâneos que tendem a ser mais ricos, potentes e intensos. Mais do que isso, com somente 4,5 hectares de vinhas escondidas entre as propriedades de Pétrus e La Fleur-Pétrus, o Château segue um estilo borgonhês em plena Bordeaux.

    Cinco tipos de solo

    Jacques Guinaudeau, pertencente à quinta geração da família que fundou a propriedade, gosta de dizer que Lafleur é um vinhedo único localizado em uma encosta em forma de anfiteatro ao norte de Pétrus. O solo tem muito mais cascalho e tem cor mais castanha do que a argila encontrada no vizinho, que fica a menos de 100 metros de distância.

    “Em uma análise de solo feita em 1998, descobrimos que o Château tem cinco tipos diferentes: o noroeste tem cascalho acastanhado, o sul tem mais argila e cascalho arenoso, e o leste tem argila arenosa e um pouco de cascalho. No meio, há uma mistura de tudo isso”, revela Guinaudeau, como se estivesse explicando a diferença de solos nos terroirs da Borgonha.

    LEIA TAMBÉM: Petrus: o segredo do vinho lendário que todo Merlot gostaria de ser

    Segundo ele, essas condições diferentes de solo têm influência direta no amadurecimento das uvas, assim como nos seus tamanhos e concentrações. Dessa forma, o vinhedo é trabalhado em quatro parcelas distintas, apesar de todas se unirem para criar um único vinho. Lá, eles cultivam somente Merlot e Cabernet Franc, com uma densidade de cerca de 8 mil vinhas por hectare. “Com a alta densidade, não queremos apenas aumentar a concentração de uvas, mas também protegê-las de receber luz direta do sol”, aponta o produtor.

    Chateau Lafleur
    Robert Parker e Jancis Robinson destacam que o Lafleur não é um vinho para iniciantes

    “O Château Lafleur era, e permanece até hoje, mais um celeiro que uma vinícola”, diz Robert Parker

    Com isso, a colheita é feita em diferentes fases, assim como a vinificação. Cada parcela é vinificada separadamente e o blend só é feito na fase de maturação em barrica que, por sinal, é apenas 50% nova. “Para reter as qualidades – fruta deliciosa e aromas perfumados –, evitamos maturar somente em barricas de carvalho novo”, diz Guinaudeau.

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    Ao final, ele produz cerca de 12 mil garrafas de seu Château Lafleur e outras 5 mil do segundo vinho da propriedade, o Pensées de Lafleur, criado em 1987, quando ele e a esposa, Sylvie, decidiram que a safra daquele ano não era boa o suficiente para seu vinho principal.

    Escondidas no celeiro

    Fenômeno recente, o Château Lafleur data de 1872, quando o tataravô dos atuais proprietários, Henri Grelou, comprou as terras que até então pertenciam ao Château Le Gay. Com o tempo, a propriedade passou para seu filho, Charles e, em seguida, para seu sobrinho, André Robin, que teria criado o mote do Château: “Qualidade ultrapassa a quantidade”.

    Jacques Guinaudeau
    Jacques Guinaudeau, atual proprietário, pertence à quinta geração da família que fundou Lafleur

    Em 1946, tanto Lafleur quanto Le Gay foram herdados por Marie e Thérèse, filhas de Robin. As irmãs ficaram à frente dos Châteaux por cerca de 40 anos e nunca tiveram interesse em que seu vinho ganhasse nome, preferindo ficar à sombra do vizinho Pétrus. Ao contrário da família Moieux e de Madame Loubat, dona de Pétrus, que vivia promovendo seu rótulo, elas viviam praticamente reclusas. Solteironas, iam de bicicleta de Lafleur a Le Gay e não gostavam de receber visitas.

    LEIA TAMBÉM: Bordeaux: o terroir da excelência

    Em 1981, elas pediram aos Moieux se seu enólogo, Jean-Claude Berrouet, estaria interessado em dar consultoria à propriedade. No ano seguinte, a parceria produziu um dos primeiros vinhos 100 pontos de Parker. Três anos depois, porém, Thérèse faleceu e Marie decidiu licenciar os vinhedos para os sobrinhos Jacques e Sylvie Guinaudeau, que conseguiram comprar a propriedade em 2002 (depois de venderem sua participação no Le Gay).

    A propriedade remonta a 1872, quando Henri Grelou comprou as terras que até então pertenciam ao Château Le Gay

    Até hoje, porém, apesar da fama, encontrar o Château não é tarefa fácil. Não há indicação e a pequena casa de pedra mais parece um armazém das propriedades vizinhas do que uma verdadeira vinícola. Em uma de suas primeiras visitas à propriedade, Parker lembra de ter ficado chocado:

    “Os barris, bem como um bando de patos, galinhas e coelhos, ficava alojado dentro da adega. Sempre fiquei espantado com vinhos de tão grande extração e de caráter absolutamente alucinante poderiam ser produzidos em condições tão imundas”. E conclui: “O Château Lafleur era, e permanece até hoje, mais um celeiro que uma vinícola”.

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    petrus
    Segundo críticos, Lafleur costuma ser mais complexo aromaticamente do que seu vizinho, Pétrus

    Superando Pétrus

    Parker, porém, também admite que Lafleur tem, no mínimo, o mesmo status que Pétrus, seu vizinho, e, por vezes, é capaz de superá-lo. “Em muitas colheitas, do ponto de vista aromático, é mais complexo do que Pétrus, sem dúvida por causa das vinhas velhas de Cabernet Franc que possui”, aponta. Além dos 100 pontos dados para o vinho de 1982, o crítico ainda consagrou as safras de 1975, 1950, 1947 e 1945, considerando-as perfeitas.

    Para Jancis Robinson, os vinhos de Lafleur são altamente concentrados e exóticos, porém, da sua própria maneira, sem serem exagerados ou manipulados. O terroir está na garrafa, com a opulência no nariz seguida por uma estrutura mais rígida no palato. Para ela, o vinho tem sabores mais complexos e exige um envelhecimento maior do que a maioria dos outros de Pomerol, que tendem a ter mais Merlot no blend.

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