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Cortiça fecha a garrafa e abre um universo

Portugal, o maior produtor de cortiça do mundo, revela os segredos da rolha, tão importante quanto a própria garrafa para a conservação do vinho.


Emin Ozkan/Stock.Xchng

Envelhecida 43 anos. Esta é a idade mínima de uma rolha de cortiça. Pouca gente se dá conta, mas quase sempre, aquele pedacinho de material isolante que fecha as garrafas de vinho é mais antigo do que a bebida propriamente dita. E em geral, é apenas com a safra das uvas que se preocupam os consumidores. É um engano, já que uma rolha de má qualidade pode transformar o melhor vinho em vinagre ou, no melhor dos casos, alterar o seu sabor.

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Grandes recursos naturais são a base para a produção daquela que é considerada a melhor cortiça do mundo. Trinta e quatro por cento do território de Portugal é coberto por bosques, onde a segunda árvore mais comum, depois apenas dos pinheiros, é o sobreiro, da qual se extraí a cortiça e que cobre uma área total de 6800 km². Na Península Ibérica, as florestas de sobreiros recebem o nome de "montados". Justamente por isso, sai de Portugal 50% de toda a cortiça do mundo. Para se ter uma idéia da grandeza deste volume e de sua importância econômica, a cortiça ocupa a sexta posição na lista de materiais não lenhosos que saem de todas as florestas do planeta.

Os verões quentes e secos portugueses favorecem o cultivo dos sobreiros. Porém não basta apenas um clima favorável, essas árvores exigem uma paciência tibetana. Apenas quando o sobreiro atinge 25 anos pode ser feita a primeira extração da sua casca (súber), é a chamada cortiça-virgem, que já tem um grande poder de isolante, mas ainda não serve para a fabricação de rolhas. Para a extração seguinte, é necessário que se aguardem outros nove anos, e ainda não é dessa cortiça "secundeira" que serão feitas rolhas.

Outros nove anos de espera e aí sim, finalmente, é extraída a casca que recebe o nome de "amadia" e é utilizada para as rolhas. Para as extrações seguintes deverá sempre ser respeitado esse intervalo mínimo de nove anos, intervalo que em Portugal é estipulado por Lei. Por sorte, os sobreiros vivem entre 150 e 200 anos, o que fornece uma média de 16 colheitas e torna a cultura da cortiça sustentável.

As principais características da cortiça que a tornam tão adequada para fechar as garrafas de vinho são sua flexibilidade, poder de retomar o formato original após ser comprimida para passar pelo gargalo e a capacidade isolante e impermeabilizante. Alia-se a isto, o fato de a rolha natural ser reciclável e biodegradável. Portugal produz 10 milhões dessas rolhas por ano. A produção mundial de cortiça é de 340 mil toneladas, 80% proveniente do sul da Península Ibérica.

As características únicas desse material vedante vão muito além das rolhas, isolantes térmicos ou quadro de avisos. A cortiça está presente nos ônibus espaciais, na indústria aeronáutica e de automóveis. Mas nas regiões de Portugal, onde os sobreiros são abundantes, a cortiça ganha usos mais cotidianos, tais como saleiros, baús, caixas de fósforo, vasos, entre outros. Com a cortiça, é possível fazer até papel e lã.

Mas para a imaginação não há limites. Foi com uma rolha de champanhe, algumas penas e duas raquetes que se criou o esporte badminton. Um nobre inglês usou o material para adaptar um velho jogo infantil indiano em sua casa de campo que se chamava "Badminton".

Uma última curiosidade, apesar de não se encontrar referências a isso nas cartas de Pero Vaz de Caminha, acredita-se que a bússola utilizada por Pedro Alvarez Cabral para chegar ao Brasil era de cortiça, que boiava sobre uma bacia com água com uma agulha imantada apontando o caminho.

Por isso, ao se abrir uma garrafa, vale lembrar que, por trás daquela rolha, existe muito mais do que um bom vinho.


Da redação

Publicado em 18 de Abril de 2006 às 12:33


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Artigo publicado nesta revista

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Revista ADEGA 7 · Maio/2006 · Escolha a sua safra