Destilado italiano

A grappa, rústica e barata em sua origem, hoje é conhecida pela sofisticação


Scuderia di Modena/divulgação
Algumas grappas vêm em garrafas de cristal soprado

Vários países são conhecidos por sua cultura, culinária e também por bebidas produzidas que caracterizam o gosto e a preferência das pessoas. Os destilados, por exemplo, se encaixam perfeitamente nesses quesitos, e cada bebida, quando citada ou provada, remete a lembranças de um país e sua cultura. No Brasil, por exemplo, temos a cachaça como o nosso destilado mais conhecido e exportado para diversos países; a França nos apresentou o cognac, de sabor mais encorpado, perfeito para dias frios; a Escócia é mundialmente consagrada por brindar os apreciadores com os melhores uísques; e os russos criaram a vodka para enfrentar os longos e rigorosos invernos que atingem mais de 20 graus negativos.

Um destilado originário da Itália, ainda pouco conhecido no Brasil, começa a cair nas graças e no gosto do público. A grappa, originária no século XII, é o destilado mais famoso da península. Inicialmente uma bebida rústica e barata que os italianos misturavam ao café ou tomavam pura, como digestivo, a grappa, recentemente, sofreu uma grande transformação. Ganhou toques sofisticados em seu processo produtivo e modernizou o engarrafamento. A partir de então, conquistou um novo status e passou a ser vendida em locais luxuosos tanto na Itália como em outros países.

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A bebida resulta da destilação do bagaço fermentado da uva, chamado de vinaccia, originalmente destinado ao aproveitamento do álcool residual após a elaboração do vinho. A matériaprima, portanto, é a sobra da fermentação constituída de cascas, polpas e sementes remanescentes da prensagem das uvas. A destilação é feita em pequenos alambiques de cobre, logo depois do bagaço ser separado do vinho. A grappa não é envelhecida. No entanto, em poucas exceções, recebe a palavra invecchiata no rótulo para especificar o processo de envelhecimento da bebida. O teor geralmente alcoólico fica entre 35 a 54%.

Na Itália, a grappa possui hierarquia maior até que seus brandies, que são obtidos pela destilação do vinho já pronto. Uma aguardente similar é elaborada também e Portugal e recebe o nome de bagaceira e, na França, é conhecida como marc.

Antes da nova moda, as grappas eram genéricas, identificadas apenas pelo nome do produtor. Atualmente, assim como os vinhos, passaram a ser varietais, com o nome da uva especificado no rótulo. São as chamadas monovitigno e devem ser servidas em cálices pequenos, na temperatura ambiente, para pronunciar os aromas e sabores que lembrem as uvas de origem. No lugar das garrafas convencionais, comuns até nas bebidas mais caras, as novas grappas vêm em recipientes com grande variedade de formatos e tamanhos, algumas em cristal soprado. Algumas garrafas, de tão sofisticadas, são consideradas verdadeiras obras de arte feitas por artesãos italianos.

Embora tenha a aparência de água, as grappas atuais têm qualidade excepcional, com uma perfumada intensidade aromática e grande persistência. São menos agressivas que as antigas, mais alcoólicas, e dão mais valor à fruta do que ao álcool, o que as torna mais leves. Pessoas que costumavam rejeitar a bebida por considerá-la rústica e forte passaram a apreciá-la.

Os principais produtores relatam que a demanda pelos tops de linha já supera a capacidade de abastecimento. A Alemanha, a Áustria e o Reino Unido são os principais importadores. A afinidade particular da Alemanha por produtos italianos, em parte pela proximidade geográfica, chegou a ponto do antigo chanceler Helmut Schmidt ter brindado com grappa, diversas vezes, em jantares oficiais. No Brasil, em bons restaurantes italianos, já é comum saborear um cálice da bebida após a refeição.

Fernando Roveri

Publicado em 21 de Setembro de 2006 às 10:50


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Artigo publicado nesta revista