Do grão ao Mosto

Dramáticas e concentradas, discretas ou pálidas, as uvas portuguesas são uma ode poética ao espírito da nação


"(...)Por sobre o verde turvo do amplo rio Os circunflexos brancos das gaivotas... Por sobre a alma o adejar inútil Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo. Dá-me mais vinho, porque a vida é nada."
Do poema "Há Doenças piores que as Doenças" de Fernando Pessoa

Um dos maiores poeta do mundo, Fernando Pessoa era conhecido também por seu gosto pelos vinhos de sua terra. A menção a eles está em várias de suas obras, escritas em estilos particulares para combinar com as quatro personalidades de nomes diferentes adotadas pelo artista.

Da mesma forma que o poeta, os vinhos portugueses guardam em suas garrafas uma rima rica e nobre, tão variada como as muitas personalidades de seu poeta maior. São suas castas de uvas, tesouro em cachos, que diferenciam Portugal do resto do mundo do vinho.

O país possui cerca de 300 castas autóctones (cepas que não vieram de outras terras e são nativas de uma região particular), fazendo dele um dos lugares com maior patrimônio genético do mundo vitícola. É óbvio que nem todas têm a mesma importância e nem mesmo estão bem implantadas em todo o território lusitano.

Na verdade, essa diferenciação por regiões é um reforço ainda maior para a qualidade das variedades, como atestam ícones como o Vinho Verde produzido na sub-região de Monção, dentro do Minho, com a uva branca Alvarinho, que até bem pouco tempo só podia ser encontrada na vizinha Espanha - na região da Galícia, com o nome Albariño.

A Alvarinho, originária da bacia do Rio Minho, é uma uva branca de casca grossa e polpa carnuda, que produz pouco suco, mas o fermentado dele resulta em vinhos brancos um pouco mais alcoólicos, frutados, longevos e encorpados do que as outras variedades brancas do Minho - como a Loureiro (que tem esse nome por, obviamente, ter aromas que remetem à folha de louro) e a Trajadura (que rende pouco, mas tem alta qualidade).

Também importante no Minho é a branca Arinto (ou Pedernã), originária da Estremadura. É das castas brancas mais ecléticas em território lusitano, disseminada por todo o país e com boa adaptação em diferentes terroirs. Ela tanto produz elegantes e aromáticos Vinhos Verdes como confere frescor aos brancos do Alentejo.

A Cepa Nacional

Na opinião do enólogo português João Santos, um dos diretores da Vinibrasil (empresa que faz parte do grupo Dão Sul e produz vinhos no semiárido nordestino), as duas castas brancas acima mencionadas são as mais importantes do país e estão em companhia de uma tinta fundamental para a história e a consagração do vinho português, a Touriga Nacional.

"Essa casta se originou nas regiões do Dão e do Douro, mas, na última década, tem se expandido por todo o país. E mesmo internacionalmente, quer seja na Austrália, África do Sul ou até no Brasil. Ela é considerada o ex-líbris das castas tintas portuguesas, originando vinhos muito aromáticos e com grande capacidade de envelhecimento", explica João Santos.

Ela é uma planta vigorosa, mas com baixíssima produtividade - principalmente na região do Alto Douro. É bastante resistente a doenças e tem grãos pequenos. Seus vinhos são, em geral, muito escuros e com aromas poderosos de frutas em compota e florais.

É das cepas mais importantes na composição do Vinho do Porto, mas também dá bons vinhos varietais, de corpo médio e bom equilíbrio. As castas autóctones portuguesas têm, na geografia do país, sua razão de ser. Apesar de estar no continente europeu, Portugal desfruta de uma posição geográfica única e de condições climáticas muito diferentes do resto da Europa - incluindo aí os ventos quentes que chegam do norte da África.

Dessa forma, suas castas foram mantidas protegidas e, com poucas exceções, não encontraram terroir que lhes conviesse em outras partes, mantendo suas características através dos séculos. Outro dado importante é que, sendo um país de produção antiga e tradicional de vinhos, as leis portuguesas protegem suas castas e limitam a entrada de outras variedades.

"Para cada região, há uma listagem de castas recomendadas e também de castas autorizadas para a produção dos vinhos com Denominação de Origem.

A introdução de castas francesas até existe, mas elas fazem parte das autorizadas e, geralmente, sua quantidade percentual é inferior ao das portuguesas", esclarece João Santos. Ele acredita, ainda, que o fato de ter variedades de outros países faz parte da globalização e não vê mal algum - quando essas uvas dão origem a vinhos de elevada qualidade.

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Atrás de montes e rios

O clima quente que domina grande parte do território português algumas vezes é aliviado por montanhas e rios como o Tejo e o Douro. Esta presença acaba por delimitar as regiões produtoras de vinhos e reforçar as características de suas uvas.

A Tinta Cão, que cresce no Douro desde o século XVI, quase sumiu devido à sua baixa produtividade. Mas, seus vinhos delicados e complexos - que fazem parte da combinação que origina o Vinho do Porto - fizeram com que os produtores aumentassem os esforços para que ela permaneça na região ao lado de uma variedade considerada nova, como a Tinta Barroca - cultivada há "apenas" um século.

Suas vinhas suportam bem o frio da região, são vigorosas e produtivas. O vinho resultante é, algumas vezes, utilizado no Porto para suavizar o blend. Para fazer o Porto ainda se usa outra variedade muito importante conhecida como Touriga Franca (ou Touriga Francesa).

De alta qualidade, ela é ligeiramente mais leve e clara do que a Touriga Nacional, mas é mais produtiva e também capaz de originar vinhos perfumados e até mesmo bons rosés. A uva que tem o dúbio nome de Tinta Amarela (também conhecida como Trincadeira no sul do país) é muito produtiva e capaz de adicionar mais cor do que sabor na composição do Porto.

No entanto, é utilizada em pequenas parcelas no Dão e plantada em maior quantidade e com excelentes resultados na região de Estremadura (ao lado da tinta Periquita) e nas áreas do Alentejo e do Ribatejo. Seus vinhos são fortes na cor, nos aromas de frutas negras e com boa acidez.

Na preparação do vinho do Porto branco podem entrar seis variedades, mas a maior porcentagem deve ser das castas Esgana Cão (muito azeda, parente da perfumada Sercial), Folgasão (de sabor mais achatado), Viosinho (quase que exclusiva do Douro), Verdelho (ou Gouveio), Malvasia Fina e Rabigato.

Esta última, vigorosa e de boa qualidade, produz vinhos com alto teor alcoólico e é plantada também no restante do país, algumas vezes com o nome de Rabo de Ovelha

Aragonez ( Tempranillo na Espanha) não é autóctone, mas de grande importância em Portugal

Aragonez - Tempranillo

A tinta conhecida no Alentejo como Aragonez (Tinta Roriz, em outras áreas de Portugal) não é uma uva autóctone, embora seja muito importante para a viticultura lusitana. Ela é a famosa Tempranillo espanhola.

Em ambos os países essa uva é responsável por grandes vinhos. Sua origem está no norte da Espanha, embora muitos enólogos prefiram encontrar similaridades entre ela e a Pinot Noir bordalesa. É uma planta vigorosa, de produtividade média e que amadurece cedo, produzindo vinhos não muito ácidos, com bela coloração e bastante frutados quando mais jovens.

Baga - a mais plantada

A Bairrada tem sua fama ligada a uma uva em particular, a Baga. Variedade extremamente produtiva, é a mais plantada em Portugal e resulta em vinhos de coloração escura, muito tânicos e adstringentes quando a maceração é longa.

Os enólogos capazes de domá-la conseguem produzir tintos muito especiais. As outras uvas usadas nos cortes na mesma região são a Camarate (antes conhecida como Castelão Nacional), a Rufete, a Alfrocheiro, a Bastardo e as já mencionadas Touriga Nacional e Trincadeira.

Para surpresa de muitos, a tinta Baga produz alguns dos melhores espumantes portugueses, tanto brancos quanto rosados, e a região também abriga brancos intensos das famosas uvas Bical e Sercial.

Fernão Pires ou Maria Gomes?

Como que para acrescentar mais personalidades à já diversificada alma do poeta Fernando Pessoa, uma uva portuguesa poderia ser seu primeiro "alter-ego" feminino, a branca Maria Gomes (ou Fernão Pires).

Produzida em quase todo o território português, sua principal característica é que, tanto no aroma quanto no sabor, ela apresenta notas de pimenta. Na região da Bairrada, produz brancos elegantes e até mesmo espumantes de qualidade.

É bastante produtiva e amadurece cedo, tendo ainda subvariedades mais frutadas e perfumadas - sendo que uma delas também têm nome próprio: Fernão Pirão.

Periquita - vinho ou uva?

O Brasil sempre importou uma significativa quantidade de garrafas de um vinho chamado Periquita. O que poucos apreciadores sabem é que esse não é o nome do vinho, e sim da uva (conhecida também como Castelão).

Ela é plantada em toda a costa sul do país e é capaz de produzir em solos com grande quantidade de sal. Seus vinhos são encorpados, rústicos quando jovens, mas com bom prognóstico de envelhecimento, pois amaciam depois de engarrafados. No Algarve, essa cepa é utilizada em combinação com a Negra Mole, fazendo um vinho mais leve e que não necessita envelhecer tanto.

Nomes curiosos

Como nem só de poesia vive o homem, as castas autóctones portuguesas têm nomes que também se prestam aos dizeres mais humorísticos.

Para encerrar com um brinde de teatro burlesco, seguem algumas de nomes pitorescos: Bastardinho, Água-Santa, Borrado-das-Moscas, Vinhão, Souzão, Donzelinho, Tinta Caiada, Olho-de-Lebre e Pau-Ferro.

Sílvia Mascella Rosa

Publicado em 4 de Setembro de 2009 às 14:42


Escola do vinho

Artigo publicado nesta revista